Reds

Desde a adolescência que este filme pairava na lista de espera da vida. Soube que a RTP Memória o passara no domingo passado e, ao consultar hoje o RTP Play, só estaria mais um dia disponível. Com a Sofia fora, aproveitei a tarde para ver o épico de Warren Beatty sobre John Reed. Ou melhor, sobre John Reed e Louise Bryant. Melhor ainda, sobre tantas personagens magníficas que povoaram aquela janela que abriu a história da democracia, da liberdade e do século XX: o movimento intelectual, libertário, e anarco-socialista americano formado por Bryant, Reed, Eugene O’Neil, Max Eastmen, Ema Goldman, …

Com Reds, creio que Beatty se tornou na primeira pessoa a ser nomeada pela segunda vez, para quatro categorias principais (Filme, Realizador, Argumentista e Actor), repetindo o feito alcançado três anos antes com O Céu Pode Esperar.

Durante muito tempo, Warren Beatty foi um dos membros da indústria posicionado mais à Esquerda, levando esse apelo pela liberdade ao limite quando aplaudiu de pé, na cerimónia dos óscares de 1999, a entrega do óscar honorário a Elia Kazan (um delator de colegas comunistas na época da caça às bruxas). Para lá do seu posicionamento, separando a pessoa do artista (uma discussão eterna, que, caso assumamos serem uno e indivisível, nos levaria a cancelar metade daqueles cujas obras apreciamos), não terá sido alheio o facto de ter acontecido pela mão de Kazan o nascimento de Beatty para o cinema, (o magistral Esplendor na Relva).

Reds apareceu-me pela primeira vez nas tardes (e noites… e manhãs) que passei em frente ao PC com o CD-Rom Cinemania 97[1] aberto, a explorar as críticas, fichas técnicas e movimentos artísticos de filmes que não se encontravam acessíveis. Nas críticas, deparei-me com o livro de John Reed Dez Dias que Abalaram o Mundo, e ao sabê-lo versar sobre a Revolução Bolchevique, vi logo não ser uma questão de “se” mas de “quando” haveria de o ler. Com o filme não muito acessível (e as três horas de duração foi adiando a intensidade de minha busca/vontade), a leitura antecipou-se numa compra relâmpago de uma edição de bolso da Europa-América.

Li-o aos 32 anos, tendo ficado admirado e desiludido. Reed e Bryant foram dos pouquíssimos americanos que viveram in loco a revolução de Outubro. Com a de revolução de Fevereiro conhecida e a agitação ao rubro no país dos sovietes, o casal posicionou-se para cobrir (eram jornalistas/articulistas), ou melhor, para viver um momento que adivinhavam vir a ser histórico. Não se enganaram. No regresso a casa, todas as notas tiradas por Reed para o relato que viria a escrever sobre o que havia testemunhado foram-lhe confiscadas pelas autoridades americanas: fechou-se durante dez dias para escrever de supetão e de memória, tudo o que havia presenciado. O trabalho é impressionante, mas falta-lhe alma – talvez pela luta contra o esquecimento que o levou a despejar uma cronologia infinita de um país em efervescência.

O filme como que traz ao livro a cor da humanidade, sobretudo por ter sido feito na América: de um texto documental, Beatty faz uma obra bonita, um épico que é também um documentário, o retrato de uma época onde as personagens reais caminham periclitantes por uma ponte himalaia, tendo numa das cordas o ideal e na outra a paixão.

É entre estes dois mundos que os personagens se movem, O triângulo amoroso entre Reed, Bryant e O’Neill, o confronto do idealismo de Reed e de Goldman com a disciplina férrea do PCUS, e o questionamento daí decorrente, o conflito interior dos anarquistas, partidários do amor livre, em choque com a paixão e a posse (ou o compromisso) que tantas vezes nos apanha numa relação, e por aí fora…

Reds tem um trabalho fantástico de realização, premiando Beatty com o único óscar da sua carreira. Tem também um trabalho de actores superior, com Diane Keaton e Warren Beatty à cabeça, secundados na perfeição por um naipe de artistas como poucas vezes vimos: Jack Nicholson como o dramaturgo Eugene O’Neill, Maureen Stapleton como Emma Goldman, Paul Sorvino ou Gene Hackman.

Stapleton recebeu o óscar de melhor actriz secundária pela magnífica personificação da activista Emma Goldman. De resto, muitas nomeações, Para Keaton, incapaz de entregar um mau trabalho, a feminista e activista Louise Bryant é, nela, soberbo; para Nicholson, o cínico poeta e dramaturgo que décadas mais tarde viria a receber o Nobel; e para o próprio Beatty, já referido.

Por fim, um toque de sociologia política: ao assistir a este filme, dei por mim a questionar se seria mesmo necessário radicalizar o discurso (e os métodos) para se alcançar algo por que se luta. Será necessário utilizar um canhão para matar uma mosca? Será necessário afastarmo-nos a tal ponto do espectro da moderação para alcançar um direito? A resposta fácil é “Não.”, mas fui-me inclinando para o “Sim.”. É tranquilo hoje, do ponto de vista de um país democrático, ocidental, onde já muito foi alcançado (havendo, contudo, muito ainda por alcançar), falar de barriga cheia. Só que para que hoje possamos ser moderados e olharmos para a moderação com alguma bonomia, foi necessário que muitos radicais tivessem cometido os maiores exageros. Para que pelo menos uma pequena porção daquilo por que lutaram pudesse ser alcançado. Só que nem isto é pacífico: o filme sugere que Emma Goldman reconheceu o fracasso ou os excessos naquele período louco pós-revolução; John Reed, ao invés, após um conflito com o PCUS, recua, atando-se aos grilhões dos mandamentos partidários. Talvez o meu “Sim.” Seja “Nim.”. É possível ser firme sem ser cego; ser radical sem ser desumano. Goldman mostrou-o. Reed nem tanto. Tal não retira nobreza à sua luta, mas mostra que, quando os princípios deixam de estar ao serviço (ou se afastam) das pessoas, ficam apenas isso… princípios. Reed viu-o, mas recuou. Bryant (de acordo com o filme), acompanhou-o numa luta quase maior do que a vida, mostrando que a luta se pode fazer de muitas formas.

Em resumo: um filme melhor do que o livro embora não brilhante; qualquer um deles assenta melhor aos curiosos por este período tão rico da história do século XX.

Rinchoa, 22 de Fevereiro de 2026



[1] Há dois ou três meses conseguir importar um emulador da referida enciclopédia: ainda que a informação disponível online seja hoje deveras mais vasta, Cinemania 97 possui duas vantagens imbatíveis face ao actual mundo online: a informação está organizada, e sei que todo o conteúdo que estou a ler foi criado por gente credível. Puro ouro nos dias de hoje.


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