A Lagoa Azul

 


Creio ter sido o meu primeiro filme favorito, ou pelo menos o primeiro que recordo como tal, gravado numa cassete VHS de 120 minutos, a primeira que tive na vida e a única com essa duração.

Aos onze ou doze anos, A Lagoa Azul apresentava-me antes de tempo a descoberta da adolescência ns mamas da Brooke Shields, durante muito tempo a imagem que retive do clássico juvenil do início da década de oitenta, versão recauchutada de Robinson Crusoe ou de A Família Robinson que, mesmo sem certeza de poder afirmar com total convicção de ter marcado uma geração, a mim marcou-me sem dúvida.

A ideia é batida – um naufrágio, uma ilha deserta, o mistério do desconhecido e a descoberta das relações num ambiente isolado do resto do mundo – não enveredando pela experiência limite relatada n'O Deus das Moscas, ou pela modalidade de Aventura dos sécs. XVIII e XIX, mas centrando-se no desabrochar da sexualidade e do amor, personificado por dois adolescentes, Brooke Shields e Christopher Atkins.

Um dia chego a casa, um sábado ou domingo ao fim da tarde, provavelmente vindo de um jogo da bola com a malta da vizinhança, e a minha mãe recebe-me ao portão com um abraço. Eu devia ter uns treze ou catorze anos e por breves segundos não percebi aquele gesto. A mãe gravou [qualquer coisa que não recordo] por cima d'A Lagoa Azul... Desculpa! Desculpa… e aperta-me contra si.

Por essa altura o meu gosto cinéfilo havia evoluído e o fogo da paixão na ilha deserta com as mamas da minha infância havia descido largas posições na hierarquia cinematográfica vista até então. Era sabido lá em casa o meu gosto pela sétima arte, mas talvez eu não partilhasse, com a frequência com que um apaixonado habitualmente o faz, as minhas preferências. Não obstante, durante alguns anos A Lagoa Azul cristalizou-se como “o meu filme”, até muito depois de deixar de o ser.

Não fiquei particularmente desiludido nem com pena excessiva de não poder voltar ao filme (a internet não era ainda o que é hoje, com o acesso quase instantâneo a qualquer obra). Eu estava noutra, noutros movimentos, a descobrir o cinema, por essa altura era A Guerra das Estrelas e Indiana Jones, ET e os primeiros passos no preto-e-branco, Dustin Hoffman, Robert de Niro, Meryl Streep... Encontro com o Amor e Encontro de Irmãos, África Minha... 

Havia deixado para trás os filmes que entram naturalmente pela sede de descoberta que a infância e início da adolescência trazem, filmes que nos marcam não propriamente pela qualidade intrínseca, mas por nos apanharem naquela fase em que queremos experimentar, beber. conhecer, sentir, em que os desenhos animados de que ontem gostávamos não servem mais para nos saciar a vontade de compreender o mundo dos crescidos, cuja porta se começa a abrir, e nós a abrirmo-nos numa pista paralela dessa compreensão. Subira uns degraus na escala evolutiva da arte e tinha a sensação de que os filmes que começava a apreciar tinham valor por si mesmos. A apreciação que deles fazia começava a ser partilhada com colegas e adultos, o que não acontecia com "a geração" de filmes a que pertencia A Lagoa Azul.

Lembro-me daquele abraço junto ao portão de casa como um gesto que, tivesse acontecido dois anos antes e teria aplacado uma desilusão quiçá aguda, mas que ali, desvanecida a paixão, se pode definir como a preocupação de uma mãe por ter desiludido um filho no que ela julgava ser algo importante para ele.

A cassete, antes ou depois, teve outros programas, como uma das primeiras emissões do WWF, com Hulk Hogan, relatado por António Macedo e comentado por Tarzan Taborda, e outras experiências que formaram parte do crescimento.

Hoje, trinta anos passados sobre a libertação da VHS de duas horas (foi assim que vi o ocorrido – a minha mãe deu-me um empurrão para libertar espaço numa cassete que eu não tinha coragem de desgravar, ainda que contivess algo que já não significava assim tanto), do filme recordo as bagas vermelhas, talvez venenosas, a morte do velho bêbedo, os mistérios da ilha, e aquelas mamas... essas talvez sejam a recordação cimeira daquele momento pré-adolescente, o cume do Evereste que ocupa quase toda a memória desse filme na VHS BASF de cento e vinte minutos.

 

Lisboa, 22 de Abril de 2026

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