quarta-feira, 13 de março de 2019

Alívio!



Todas as escolas que frequentei antes de ingressar na universidade distavam a menos de 1 km de minha casa. Independentemente de fazer sol ou chover a potes, eu tinha que carregar uma tonelada de cadernos e manuais dentro da mochila que me dobrava as costas. Comecei a ir a pé na 4ª classe, sozinho, num dia em que a minha mãe reparou num furo no pneu do carro quando saía de casa e eu não queria chegar atrasado (a estupidez vem de tenra idade).
A partir daí seguiram-se outras caminhadas solitárias ao longo da estrada de Alapraia, já não por necessidade mas por opção (e o orgulho de fazer coisa de gente grande). Assim, quando entrei para a preparatória, não foi difícil reforçar uma autonomia que eu já vinha experimentando. Difícil era aquela subidinha filha da puta para a escola da Galiza… ainda hoje, ao subi-la de carro, lembro-me daqueles dois anos em que a ida se compunha do duplo calvário para, à hora de almoço ou ao final da tarde, sermos compensados com o jackpot de não só estarmos livres da escola (que até não era assim tão má) como o trajecto de regresso ser sempre a descer.
Passava por casa do Manel (no 5º) e mais tarde (no 6º) juntou-se-nos o Leroy.
A partir do 7º, já com o Paulo, eram eles a passar por minha casa pois a escola mudara e era o meu reduto que ficava a meio caminho. No secundário voltei ao fim da linha e logo, a fazer escala nas casas onde apanhava os amigos.
Das inúmeras vicissitudes que recordo desses anos, há uma, uma única, cuja nitidez se sobrepõe a todas as outras que se passavam dentro do meu lar: sempre que chegava a casa (mas sempre mesmo) e levava a chave à porta, uma galopante vontade de mijar aflorava à superfície do meu ser. Pouco importava se antes de sair da escola, qualquer que fosse a hora, eu tivesse ido mudar a água às azeitonas antes de partir para casa: assim que entrava na familiaridade da Vivenda Cantinho do Céu, mal tinha tempo de largar a mochila pois era como se o barulho do trinco, a casa vazia ou o cenário doméstico provocassem em mim uma reacção automática da qual eu só descansava depois de mijar.
Que alívio!
Mijar depois de deixar encher a bexiga até à boca (salvo seja) foi algo que fui perdendo com a idade. Não sei se é coisa de miúdo esperar até “estar aflitinho” para depois nos regalarmos durante longuíssimos segundos de descompressão. Mas sabia tão bem… só então começava a tarde: despachar os TPCs à pressa e, se estes se fizessem difíceis, uma ou outra espreitadela às soluções debelariam a dificuldade para logo me refastelar com a consola, o PC, a bicicleta ou a bola de futebol!
O que não perdi com idade foi a tentativa (resiliente mas até hoje inglória) para evitar que o último pingo fosse sempre parar às cuecas (ou será “à cueca”? “À cueca” dá um ar mais ordinário à frase e por isso, bem mais divertido, mas admito que “às cuecas” pareça melhor para nomear o receptáculo do último pingo (pingo ou pinga? A minha avó diria “pinga”).
Que alívio!
E como a praia desses anos fazia do mar a mais bela latrina universal! Quantas vezes não mijávamos naquele balão de Erlenmeyer divino, diluidor por excelência de todos os dejectos humanos para onde desembocavam os esgotos das tias e betos da linha. Quando o vento ou a corrente estavam de feição, lá vinha o cheirinho nivelador, igual, fosse ele proveniente das entranhas de um rico ou de um pobre. No mar desse tempo, uma mijinha era uma gota no oceano. Hoje, com a mania das limpezas, já não é tanto assim e se sinto a água a “amornar” na vizinhança de um qualquer puto ranhoso que se deixa ficar a enrolar na zona de rebentação, fico enojado. Mas no mar do meu tempo não; aí sabia mesmo bem!
Que alívio!
Será que as tias e os betos mijam? De fora, parece-me que eles apenas urinam… (também não limpam a boca ao guardanapo mas tocam ao de leve nos cantos dos lábios, um a seguir ao outro, como se parecesse mal sujar o pano que é suposto servir para limpar!). Mas urinar não tem o mesmo elã. Urinar resume-se à satisfação de uma necessidade, algo que se faz porque tem que ser. Agora mijar? Mijar confere um sentido àquilo de que não podemos escapar: se temos de urinar, pelo menos façamo-lo mijando, com pujança (como na época em que eu chegava a casa vindo da escola), com alívio (quando quase deixava o “depósito” transbordar para disparar num jacto, qual boca de incêndio a custo manobrada pelos soldados da paz), ou com prazer (como tantas vezes me acontecia com o mar estendido à minha frente)!
Para a piscina nunca larguei uma gota! A água confinada àquele espaço levava-me a imaginar coisas nojentas se o fizesse, apesar do cloro que me deixava os olhos a raiar de sangue depois de cada aula. Mas nos balneários, o Jota e mais um ou outro porco mijavam em quem estivesse junto a eles no duche (a moda dos duches individuais ainda não tinha chegado às piscinas de Alapraia). Porco do caralho! Lembro-me de pelo menos uma vez em que me mijou para as pernas (outras houve em consegui escapar ao seu impulso “Huckleberry Finn”)
Que alívio! (senti eu no dia em que desisti da natação…)

PS: mijar é um termo um bocado ordinário mas é mais distinto do que “mandar uma mijada”, expressão que nos divertiu à grande, muitos anos mais tarde quando, já frequentador do mundo do trabalho, fomos visitar o David a Dublin e ele se sai com essa antes de sairmos (para um copo em Temple Bar ou para odisseia à Calçada de Gigantes, provavelmente). Urinar é que está fora de questão. Julgo mesmo que deveria ser banido para todo o sempre do léxico português: é que “urinar” é um verbo que fica mal em qualquer frase; já o “mijar”…


Lisboa, 11 de Fevereiro de 2019

sábado, 2 de março de 2019

10 euros = 11,22 litros


Meti anteontem gasolina pela n-ésima vez este ano, e pela n-ésima vez repeti o exercício com o qual masoquistamente engano o tempo que vai do momento em que o combustível começa a entrar no depósito até ao “estalo” que a máquina devolve a avisar que o mesmo está cheio. O exercício consiste em observar, numa simultaneidade alternada, os dois contadores digitais e, à medida que eles avançam, ir estabelecendo (mentalmente) barreiras, um valor a pagar que não deverá ser ultrapassado… uma espécie de aposta comigo mesmo cujo resultado é puramente determinista uma vez que o preço por litro está definido à partida. Uma estupidez portanto.
Tenho carta desde 1999 e logo, abasteço desde então. Sempre fiz o mesmo exercício e, não me recordando da relação na altura do escudo, lembro-me de, durante muito tempo, colocar 11,22 litros de gasolina no Peugeot 205 Junior (carcaça que partilhei com a minha irmã mais velha) com 10,00€! 0,891 €/litro!!! Bons tempos esses dos preços controlados em que os impostos de todos subsidiavam a gasolina que eu consumia...
E as discussões que aquele bólide gerava… Quem deveria utilizar o carro em determinada noite?; Quem tinha deixado o depósito na reserva?; Quem tinha ‘afogado’ o motor? (normalmente era eu pois fechava o ar sempre que o chaço não pegava com o frio da manhã – o que ocorria não poucas vezes – e a meio da viagem lá me lembrava de que me tinha esquecido dele fechado: de então para cá, a minha memória deteriorou-se a olhos vistos… ainda bem que a abertura do ar passou a ser automática…).
Vejo os números avançar numa cavalgada assimétrica, os euros afastarem-se dos litros isolando-se na frente daquela corrida fatalista e penso se o preço daquele produto não será calculado numa jaula recôndita por um macaco sado-esquizo-depravado com base numa aleatoriedade previsível, simplesmente pelo divertimento de ouvir tranquilamente os protestos e assim gozar com quem necessita do combustível para fugir à moda das bicicletas ou ao calvário dos transportes públicos. Sem saber a razão, vem-me muitas vezes à ideia um chimpanzé… não sei porquê mas gosto da ideia de um chimpanzé a calcular os preços da gasolina: enjaulado num escritório da capital, lá vai gozando o pagode com as suas contas não euclidianas… Esta semana vou pôr o preço por litro igual a 1+π/5 (1,628 €/litro); Para a semana talvez o fixe em φ (1,618 €/litro – o número de outo que os místicos tanto veneram… tal como o chimpanzé); Amanhã dependerá de uma relação complicadíssima entre a média do preço do derivado nos últimos “x” meses no mercado internacional, a taxa de câmbio, a margem de refinação, a cotação da batata-doce nos saudosos supermercados Feira Nova e o número de vezes que o presidente Trump se levanta para mijar durante a noite e resolve, numa manifestação esquizoide em tudo alinhada com a minha – chimpanzé do preço de combustíveis – vomitar um “Tweet Covfefe” com uma imprevisibilidade maior do que o que resulta de um Movimento Browniano Geométrico. Imagino o “olhar coitadinho” que nos lança, como só os animais irracionais conseguem fazer, atrás do qual funciona um cérebro maquiavélico a vociferar Paguem! Se não refilam por causa do preço do tabaco, do bilhete para o festival de música, da peça de teatro, do jogo da bola, ou até da gatunagem do parquímetro, porque é que haveriam de levantar a voz por causa de 55€ que vos permitem percorrer700kms?!
É mesmo macaco…
(se tal chimpanzé existisse, o PAN passaria logo para o lado do grande capital, da industria poluente e do automóvel tradicional, só para defender o direito ao emprego do pobre macaquito)
É inútil o meu exercício: perco sempre. Contudo, e porque aquele tempo é demasiado curto para ser preenchido com algo mais útil, não deixo de o repetir, na vã esperança de ver chegar o dia em que 1+π/10 €/litro se torne realidade.
E eu até tenho sorte porque o depósito do meu carro só leva 40 litros...

Marinha Grande, 11 de Novembro de 2018

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Rico por um dia




No tempo em que as taxas de juro mereciam um acompanhamento da evolução da poupança na conta a prazo, eu consultava, umas duas vezes por mês talvez, os diferentes produtos onde tinha dinheiro aplicado. Não que tivesse muito: tinha pouco mas distribuído por muitos (produtos). Assim que juntava algum, normalmente o mínimo que permitia constituir uma aplicação (sempre sem risco de capital, pensava eu até o meu banco de poupanças mudar para esse nome tão moderno chamado Novo Banco!) aplicava o dinheiro pois as taxas de juro estavam em declínio acelerado e no dia seguinte podia já não conseguir a taxa que acabava de consultar na net.
Num desses dias em que consultava o saldo para ver se algum juro havia caído na conta à ordem, deparo-me com um valor muito superior ao que eu havia visto duas semanas antes! Durante alguns segundos, fiz um esforço de memória, desejando com quanta força tinha estar equivocado e não me lembrar de que aquele dinheiro era mesmo meu… mas não vislumbrei sinal algum de que eu ou alguém tivessem feito uma transferência para a minha conta. Fui para casa pensar no assunto e no dia seguinte, depois de ter concluído que aquele dinheiro não me pertencia, liguei para a gestora de conta para reportar o sucedido.

- Isso é muito estranho! – disse ela de imediato – Tem a certeza disso?
- Tenho. – respondi – Consultei várias vezes, saí da minha área online e voltei a entrar e o dinheiro continuava lá.
- Mas quanto é que me disse que era?
- Então, era mais ou menos X€
- Mas isso é uma grande diferença em relação àquilo que o sr. António Dias tem!
- A quem o diz! – disse-lhe eu já meio no gozo – Não é que eu não quisesse, mas de facto não é meu.
- Deixe-me consultar o saldo.
- Sim, esteja à vontade. – eu estava à vontade. Passados alguns segundos veio a resposta
- Mas o seu saldo é Y€ (= ao que eu sempre havia tido)! – devolve ela admirada embora sempre com uma simpatia irrepreensível. Eu é que, começando a não achar graça à situação, deixei de dar importância à sua simpatia.
- Deixe-me ver. – pedi-lhe, embora adivinhando o que iria ver: o saldo que eu sempre tivera havia sido reposto – Tem razão! Olhe: não sei o que aconteceu!
- Tem certeza de que era esse o montante?
- Tenho a certeza absoluta: eu vi o valor várias vezes… – e num instante vi o filme todo apercebendo-me do que tinha acontecido: não dei parte fraca – Bem, deixe estar. Muito obrigado e peço desculpa pelo incómodo.
- Mas não quer tentar perceber o que se passou? Agora fiquei intrigada! – eu não queria tentar perceber com ela o que se tinha passado porque eu já sabia.
- Não vale a pena: se está tudo reposto, já não há questão. Se calhar fui eu que vi mal. – disse eu, sabendo que tinha visto bem – Muito obrigado mais uma vez!
- Há mais alguma coisa em que eu possa ajudar?
- Não obrigado: é tudo. Um bom dia para si.
- Tenha um bom dia sr. António Dias.

Uma vez, da qual eu já não me lembrava, o meu pai havia-me feito 2º titular de uma conta sua no mesmo banco…ao consultar os meus produtos, o montante daquele produto/conta sobressaía entre as migalhas que todos os meses eu juntava aos bochechos.
E foi assim que por um dia acreditei que a minha “riqueza” havia multiplicado, qual milagre bíblico. Só mais tarde contei esta história ao meu pai, concluindo que só tive pena de não ter resgatado logo o dinheiro. Vê lá o que é que fazes foi ao sua resposta meio no gozo (mas só “meio”).
Hoje tenho quase o montante que vi naquela aplicação e que julguei ser meu. Mas não me considero rico. A Riqueza está em (quase) toda a parte (roubando o título a um livro infantil cuja capa serve também para este artigo) mas, sei-o hoje, não está ali ou, corrigindo, a maior riqueza que temos não está expressa na conta bancária nem no que ela consegue comprar. Se eu acrescentasse aquele montante ao dinheiro que hoje possuo mas voltasse a ser quem era naquele tempo, não seria mais rico do que sou hoje.

Biblioteca de São Domingos de Rana, 12 de Janeiro 2019

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Pelos Caminhos de Santiago


Peregrinos pouco depois de saírem de Caldas de Reis
Já quase tudo foi dito no Diário de Santiago. No entanto, nada será igual quando eu regressar este ano ao Caminho; ainda que volte a fazer o Caminho Central Português; ainda que volte a partir de Valença; ainda que nele me volte a demorar seis dias; ainda que volte a conhecer gente boa como a Anabela, a Albertina, a Júlia, a Maria, o Hélder, o Paulo, o Rui, o Sr. Armindo, a Isabel, o Emanuel, o Joaquin ou o Ivan; ainda que volte a dormir duas horas por noite como aconteceu no “mítico” albergue de Pontevedra; ainda que volte a Finisterra para, emocionado, sentir ter alcançado o verdadeiro fim do Caminho; ainda que o volte a percorrer com a Patrícia e com a Sandra, com outros amigos que se queiram juntar ou sozinho. No Caminho nunca estamos sozinhos.

Algures entre Porriño e Redondela
Puente Sampayo - Arcade
O Caminho de Santiago mostrou-me o quanto as experiências podem superar as melhores expectativas que levamos, sobretudo quando partimos desalentados, sem uma causa, crença ou sonho. Em Maio do ano passado coloquei a tralha na mochila pelas três e meia da manhã de sexta-feira: sete horas depois estávamos no autocarro a caminho de Valença.
Tudo o que passámos e sentimos daí em diante, por mais palavras que eu gaste a descrever as paisagens ou as experiências, é-me impossível exprimir; o Caminho de Santiago não se conta: só vivendo é possível entender plenamente como é cheia esta ausência de explicação.

Redondela - Pontevedra - a "etapa rainha"
Redondela - Pontevedra - além de "rainha" foi a etapa mais bonita
O caminho alternativo junto ao Rio Tomeza, à chegada a Pontevedra - um dos troços mais bonitos
Foi em crescendo que me fui ambientando ao Caminho, pois normalmente é assim que quase tudo me acontece: estranha-se primeiro; entranha-se depois. Não foi um entusiasmo inicial que foi esmorecendo mas o inverso: um desencanto de partida que, sem nunca ter posto em causa a minha intenção de seguir, se foi convertendo, sem que eu desse por isso (como tantas vezes acontece com as conversões), num vício que matou a vontade de acabar.
Podia referir em como é o Caminho e não a chegada o que faz tudo isto valer a pena (daí a desilusão quando entrámos em Santiago); podia referir que há tantos Caminhos num único Caminho quantos os peregrinos que se atrevem a percorrê-lo; podia referir que o Caminho nos mostra o pouco de que necessitamos para viver algo intensamente. Mas tudo isso (e muito mais), além de se reduzir a um amontoado de clichés, já o referi no Diário de Santiago. E ainda assim, nele não consegui manifestar aquela coisa especial que sentimos sem definir, aquele renascimento que nos faz olhar para a vida que deixámos com o distanciamento necessário para atribuir a cada aspecto que a forma a sua real importância.

A experiência mais surreal do Caminho - o Albergue Municipal de Pontevedra
O despertar em Pontevedra
Pontevedra – Caldas de Reis – um desvio que vale pela etapa

Cascata do Rio Barosa – desvio obrigatório

Gostaria de poder dizer que vivi tanto neste ano, que o Caminho mudou a minha vida ou que vim diferente de Santiago. Mas não… posso apenas afirmar que vivi o suficiente para, passado quase um ano, a vontade de voltar não só não ter esmorecido como ter começado a fazer parte de uma forma de estar na vida: voltar ao Caminho com a regularidade que ela me permitir (o Hélder regressa uma vez por ano para voltar a acreditar na Humanidade J)
Uma vez por ano a… dormir mal; comer pior; ter dores nas costas, nas pernas, nos pés, nos ombros; levar a vida de sete dias numa mochila de 40 ou 50 litros; partilhar camaratas, casas de banho (e pensar que em tempos jurei nunca o fazer utilizando o argumento mais pedante do mundo: Já não estou nessa fase), comida, experiências, conversas ou simplesmente o silêncio, caminhando lado a lado… em silêncio.


Caldas de Reis é uma cidade (ou vila?) bonita
Há momentos para tudo
O Albergue de Padrón - O "Hilton" do Caminho Central Português
Em Padrón, o Pepe distribui abraços pelos peregrinos que param no seu estabelecimento
Gostava tanto de ser mais específico, concretizar esta paisagem, aquela peripécia ou os melhores lugares para comer ou dormir. Mas a experiência do Caminho está muito longe de poder ser replicada num Guia Turístico, Espiritual ou qualquer outro. Não cabe nas palavras que me esforço por encontrar. Resta assim uma única possibilidade para descobrir a chave capaz de decifrar esta sequência de ideias vagas: percorrer o Caminho.

Finisterra: o fim do Caminho
Finisterra - O "quilómetro zero"
Finisterra: A Bota do Peregrino: ilegal mas obrigatório queimar uma peça de roupa

Caparide, 30 de Janeiro de 2019

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Presentes de Natal


Entre muitos traumas com que a vida e o tempo me vêm presenteando, o dos Centros Comerciais é um dos que já se confunde com quem sou.
O Natal era por isso, mais do que o paraíso angelical da família, das luzes, dos coros e dos sorrisos de Bom Natal, um período de tormenta onde encaixar jantares e despachar mil e um presentes, ora porque os amigos são muitos, ora porque recebemos uma prenda inusitada de quem não esperávamos obrigando-nos a desenrascar uma bodega qualquer à pressa e fora de prazo.
Fui deixando de “devolver” ofertas só porque sim, tal como acabei com a maioria dos presentes. Não são eles quem mede a intensidade de uma amizade ou a ternura de um grau de parentesco.
Para a família (esse conjunto que ainda recebe as minhas prendas), comecei, nos últimos anos, a substituir de forma regular, um livro, um bilhete para um espectáculo, uma peça de roupa, um perfume ou qualquer outra porcaria que, por mais de metade das vezes eu comprava sem gosto, paciência ou vontade, por um jantar ou um almoço “em condições, num restaurante “à maneira”, tentando proporcionar um momento “diferente”.

Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2018
Eramos onze à mesa n’A Pastorinha, um restaurante na praia de Carcavelos cujo interior se revelou muito mais engraçado do que eu pensava. Sempre que passava à porta, ora era para ir à praia, ora para comer na Capricciosa, pizzaria paredes-meias com A Pastorinha, ora para ir ao Fizz, discoteca que recentemente encerrou e que fica por baixo do restaurante. Deste, só havia posto a vista em cima do porteiro.
Foi lá que jantámos na quinta-feira passada, o único dia em que estávamos todos disponíveis, devido a Natais em família e partidas para Angola dos emigrantes.
O meu pai e a Teresa, as minhas irmãs, o David e o Luís, os namorados (delas, leia-se) os filhos do Luís e eu enchemos uma mesa que rapidamente começámos a esvaziar.
Não sei se foi o melhor lugar onde já comi, mas não anda longe disso. A mesa disposta ao comprido e a acústica da sala não ajudaram ao convívio (noutras ocasiões aconteceu existir uma mesa redonda para criar logo outro ambiente, como disse ao Luís) mas a qualidade das entradas, do serviço e sobretudo, da comida, abafou estas imperfeições. A comida não era só boa: era muito boa… o lombo de novilho que optei por comer parecia ser cortado com as facas Shogun cuja publicidade me maravilhava na infância ao cortar toros de madeira ou redes em arame como se de manteiga se tratasse. E uma vez que a opinião a propósito da qualidade da refeição foi unânime, serve a mesma para atestar da satisfação com que saímos do restaurante.
Pedi a conta.
Olhei para o papel.
Engoli em seco.
Inspirei fundo.
Tentei lembrar-me, durante o curto trajecto entre a mesa e o balcão de pagamento, de todas as rezas, exercícios zen, mindfulness, visualizações criativas ou pedidos ao universo, para que a carne que tão suavemente se havia dissolvido perante o meu paladar não entrasse em erupção, qual tagine emporcalhada de um restaurante em Marraquexe.
Fiz um contrato com o dono: vou passar os próximos meses a lavar pratos para ajudar a saldar a minha dívida e repor na conta o saldo positivo que este maravilhoso repasto tratou de assaltar.
Claro que tal não corresponde à verdade embora, se tal proposta me tivesse sido feita, teria sido alvo de séria ponderação. Contudo, ver a satisfação que todos sentiram no fim e até a surpresa perante um gosto inesperado (esqueci-me de referir que a sobremesa só teve cinco estrelas na conta, não no prato), valeu por todas as prendas que deixei de comprar para ajudar a criar aquele momento. O restaurante era perto, algo importante para todos, sobretudo para o meu pai que já não está para ir para Lisboa à noite, a comida era boa e a companhia a melhor possível (apesar de a mesa não ser redonda).
PS: Não eramos onze mas doze à mesa, pois a Luísa, a minha sobrinha de três meses, apesar de já vir jantada, foi a rainha da festa aguentando-se estoicamente ao meu lado, enquanto degustávamos o jantar 

Sábado, 22 de Dezembro de 2018
Se para o meu pai a distância é um aspecto a considerar, para a minha mãe e para o sr. Manuel, o seu companheiro, é essencial. Por essa razão, hesitei muito antes de marcar o almoço (para eles tinha que ser almoço pois à noite já não saem de casa) para Fátima, a trinta quilómetros da Marinha Grande, onde vivem.
O Crispim era um velho conhecido. Havia lá ido jantar com o pessoal do trabalho num sábado distante em que havíamos combinado uma corrida de karts no kartódromo local.
Desta vez eu conhecia o lugar e isso fez a diferença no momento da escolha pois tinha de ser uma casa que agradasse a todos, mesmo a quem está habituado a não só não sair da zona de conforto como a rejeitar liminarmente qualquer partícula de pó que altere a rotina.
Chegámos cedo como a minha mãe gosta e tratámos de dar conta das entradas que estavam na mesa. Num registo diferente, O Crispim é um restaurante cuja relação qualidade-preço é muito superior à dos restaurantes-cagança da metrópole. O tamanho das doses fez o milagre da multiplicação onde três alimentaram os cinco: a minha mãe e o sr. Manuel, eu, a minha tia e a minha irmã Joana (esta leva sempre com dois presentes!). Na realidade não eramos apenas cinco à mesa pois de cada vez que convivemos sentam-se sempre connosco os que já partiram e que fizeram parte do círculo próximo. Almoçámos assim com a minha avó e com a irmã, a minha tia avó (a quem um dia, já ela ia para lá dos 80, resolvi contar a anedota do jacaré Jackson e que metia a palavra “broche”, que ela conhecia como instrumento de vaidade e não de prazer) e ainda com o meu avô, embora este só tenha aparecido no final para o café (é que quando ele partiu eu tinha seis anos e, ainda que tenha presente a sua figura, pouco privei com ele). Este sentimento nada tem de saudoso ou de melancólico: é apenas uma sensação que me invade sempre que visito esta terra e me sento à mesa.
A ginjinha no final e a conta cinco estrelas no pós-final (como as cinco estrelas podem significar uma coisa e o seu contrário…) deram a todos uma leveza em jeitos de satisfação. E mesmo sabendo que não foi fácil para a minha mãe e para o sr. Manuel fazerem o sacrifício de uma viagem tão longa por um simples almoço, creio que todos gostaram e isso, mais do que tudo, é o que mais me apraz.

Marinha Grande, 22 de Dezembro de 2018

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

No Crepúsculo do Ano




Foi numa decisão de última hora que marquei o trajecto de dez quilómetros no GPS e fui parar àquela praia. Tinha conseguido sair trabalho a meio da tarde e passara a ponte sem problemas.
Com a antecipação habitual, percebi que naquela tarde o Vítor lutava contra um artigo que teria de enviar daí a muito menos tempo do que aquele que ele considerava desejável para o terminar em condições. Vi logo a oportunidade para duas horas de leitura tranquila numa esplanada, antes de me encontrar com ele. Estava na margem sul e não conhecia lugar algum. Decidi que a esplanada seria junto à praia e procurei no mapa aquela, entre as que tinham bar de apoio, que se encontrava mais próxima.
Foi assim que estacionei o carro a menos de cinco metros da esplanada junto ao primeiro areal que encontrei, pois se aquele lugar me pareceu aprazível, para quê percorrer todo o caminho?
Era a última tarde do ano e o sol segurava-se no horizonte aguentando o frio lá em cima. Ainda não eram cinco da tarde quando me sentei em frente à praia quase deserta, com Borges e um café sobre a mesa, casaco, óculos escuros e um chapéu que não tapava o frio que me atacava as orelhas (o homem sentado na mesa ao lado – na realidade estava sentado numa cadeira e não na mesa – fora mais esperto: observava a mesma paisagem de gorro). Algumas mesas estavam tomadas mas a calma e a ausência de gente marcavam o momento. A praia, como tantos outros lugares, é tão mais bonita sem gente (um estádio de futebol ou uma sala de espectáculos talvez sejam as excepções; uma mesa com amigos, um funeral ou uma noite de Natal também). No entanto, se ninguém testemunhasse aquele instante, ele nunca seria recordado. Existiria ainda assim? São precisas pessoas para registar o que resta das coisas sem elas, separar o que observam daquilo que a sua presença contamina. A palavra e a memória encarregam-se de pintar um cenário mais idílico do que o que a realidade tantas vezes oferece.
Com o sol a descer sobre o mar lembrei-me da minha primeira professora de espanhol, Ana Marquéz, valenciana radicada em Portugal havia alguns anos, que me revelou, após eu lhe ter falado de São Pedro de Moel, o privilégio que é ver o pôr-do-sol sobre o mar! Havia sido em São Pedro a primeira vez que observara tal fenómeno (em Valência apenas via o nascer). Bastou um pequeno desvio para ir a tempo de mais um pequeno privilégio que, ao tomamos por adquirido, nem sempre o reconhecemos.
Ora lia umas frases de El hombre en el umbral, ora olhava para o mar. Queria ler e queria ver aquele pequeno espectáculo. Por fim, poisei o livro e centrei-me no sol, no mar e na praia. Não pensei em grandes coisas nem fiz nenhum balanço do ano. Não desejei nada em particular nem invoquei os quatro elementos ou qualquer espirito com o qual me sentisse em comunhão. As coisas eram mais simples ali: ver o sol a pôr-se, ouvir as ondas ao fundo, e guardar a última luz do ano que terminava. Tirei fotografias e, coisa rara, filmei o momento. Vi que as fotos não faziam justiça ao que eu via… e era verdade.
Como eu gostava de ter mais dinheiro para poder comprar tempo desta qualidade, mas os ricos chateiam-me tanto (não por serem ricos mas por, ao serem ricos, serem chatos)… um problema de difícil resolução: ter dinheiro sem ser rico.
Foi o sol e veio o frio. O café há muito que já o era e a esplanada estava fechada (preparavam o bar para a noite de fim de ano) mas tinham deixado ficar quem lá estava. O sol não levou logo toda a luz e pude terminar o conto num desconforto crescente, com as mãos e as orelhas a congelar progressivamente. Terminei no momento em que o nariz se juntara à festa do gelo.
Fui para o carro e, quando me preparava para rodar a chave, duas silhuetas levaram-me a sair para captar mais aquele relance de realidade.
Mais tarde, entre facebooks e whatsapps, pude constatar que o meu momento havia sido tudo menos original: quanta gente não partilhara fotografias do último pôr-do-sol do ano! E todas mais bonitas do que as minhas, com as cores mais vivas e os elementos mais bem enquadrados. Eu nunca tinha visto o sol a pôr-se no dia trinta e um de Dezembro. Não deverá ter sido muito diferente do dia anterior ou do dia seguinte – hoje. Contudo, aquele final de tarde foi e será sempre único: por mais vezes que o sol se esconda, seja em que dia for, observado de um lugar especial, por trás de um qualquer mar, nunca será igual àquele que eu vi. E não há palavras, fotografias, vídeos ou mesmo memórias capazes de se aproximarem do que aconteceu. Recriar? Nunca recriamos nada tal qual: criamos sim outra coisa.  

Caparide, 1 de Janeiro de 2019



domingo, 23 de dezembro de 2018

Caos e Ordem


Da Ordem nasce o Caos

As multas começaram a pingar como as gotas irritantes que nos martelam o cocuruto vindas de uma varanda ou de um telhado sem algeroz. Nos últimos três meses foram duas, uma grave e outra leve, totalizando 160 brasas para reduzir o défice. Se fossem por excesso de álcool, ainda poderia dizer que tinha algum proveito, mas o vinho que estou a beber nunca me provocou nenhum acidente nem me trouxe qualquer multa. Aliás, a última vez que me senti mal a sério, a vomitar por cima e por baixo mal me aguentando nas pernas numa prostração que se prolongou por todo o fim-de-semana e uma diarreia que é bem capaz de ter batido o record mundial de longevidade foi depois de cinco dias em Marrocos onde o álcool é o fruto proibido, logo, fica empiricamente demonstrado que é a falta de vinho, mais do que a sua presença no meu sangue, que me causa mal-estar e faz chegar multas a casa. Creio estar ainda distante o dia em que vá parar ao xelindró mas começo a ficar preocupado com as multas que ainda não chegaram… xelindró… que palavra tão idiota… rima com Badaró, o chinesinho Limpópó que fui ver ao Casino Estoril quando era miúdo e apenas nessas ocasiões especiais me era permitido lá entrar. Nem me lembro se o espectáculo era no auditório se no salão Preto e Prata (nem sei se este já existia)… na altura ainda só bebia sumo: nada de vinho. Esse veio mais tarde, tarde demais dirão alguns, mas veio para ficar… a garrafa já passou de meio e começo a duvidar se consigo ganhar a aposta de a virar por completo enquanto escrevo este texto: comprei o Lambéria’s no Mercado de Vinhos do Campo Pequeno mais por piada do que por gosto mas até me está a saber bem. No entanto, são 14% a escorregar pela goela abaixo mas pelo menos no word não se nota a letra enviesada. Só o conteúdo me pode denunciar mas julgo que, por ora, está dentro dos limites da “Legião de Decência” (ainda não larguei um único palavrão!!!). Devemos propor-nos metas, objectivos, desafios que nos obriguem a testar os limites, não é isso que dizem os “fala-barato” do século XXI? Pois então venham os desafios: dar conta de uma garrafa de Lambéria’s enquanto escrevo! É que uma coisa que me tem irritado é que no momento em que estou a abrir uma garrafa, penso na quantidade de vinho que vou estragar: a maior tragédia de morar sozinho é estragarmos sempre bom vinho e não quero passar a vida a beber mau vinho só porque moro sozinho mas também não quero desperdiçar o bom só porque não passo por casa à hora do jantar. O texto está um pouco aleatório mas já tinha escrito com um copo a mais num dos dias em que escrevi o artigo sobre a viagem à Jordânia. Demorei três dias a escrevê-lo e num deles fiz desaparecer mais de meia garrafas de Guarda Rios, mas era branco e o tempo estava mais quente. O texto baralhou-se na cronologia mas sempre fora essa a minha intenção inicial, mesmo quando estava na plena posse do meu juízo, e no entanto: não é que gostei do resultado final?! Claro que o facto de ter um limite de páginas me fez condensar o relato parecendo que fogueteámos pelas férias a cem à hora (foi um bocadinho assim mas tinha que ser para aproveitar bem o tempo). Hoje o tempo está frio e o Lambéria’s é tinto o que parece ampliar o efeito pois provavelmente não transpiro tanto e o álcool não evapora permanecendo no sangue mais tempo do que seria suposto. Felizmente que hoje já fiz o que tinha a fazer fora de casa senão estaria tramado caso apanhasse uma operação stop! Os braços começam a acompanhar o cérebro numa certa dormência, mas nada de especial quando da garrafa já desapareceram mais de três quartos! E é incrível a quantidade de informação que um tipo consegue condensar em poucas palavras quando está borracho (adoro está palavra!). Quase que pareço o Borges não fosse a falta de qualidade da escrita e do conteúdo, quando comparados com os dele. Mas o tipo era mesmo bom na arte de dizer muito com poucas palavras seguindo o princípio da parcimónia que me aconselharam no curso de Matemática segundo o qual a demonstração mais bonita é aquela que, de entre as verdadeiras, é a mais curta. Já o sexo não pode dizer o mesmo… e continuo numa corrida contra o tempo tentando terminar tudo o que tenho para dizer e escrever (que nem eu sei bem o que é) antes que o Lambéria’s me deixe KO). Já afastei o copo, não venha uma onda de tontura virá-lo e obrigar-me, neste estado, ir buscar o balde e o detergente mais a esfregona e o diabo a sete…. Não! Aconteceu esta semana virar um copo quase vazio para dentro da carteira da Teresa… era de camurça… mas era vinho da casa por isso: menos mal! As letras começam a dançar á minha frente e experimentei agora mexer-me e… Meu Deu! Que montanha russa! Se o texto continuar legível, então é porque ainda não passei para o lado de lá mas só falta meio copo de vinho para superar a prova e no entanto, nunca na vida apanhei uma bebedeira. Também não vai ser hoje embora uma garrafa numa noite, ou melhor (à medida que o texto avança, a quantidade de vezes que faço “delete” e reescrevo o que já havia escrito aumenta exponencialmente!) … mas dizia eu: ou melhor, uma garrafa numa hora e meia já seja qualquer coisa. Ainda não terminei o Lambéria’s mas sinto-me como se tivesse engolido um barril: provavelmente o mal foi mesmo nunca ter apanhado uma bebedeira na vida já que a de hoje não conta pois eu fico tonto antes de fazer disparates. Por isso me irritam tanto as multas que apanhei: a grave foi por ir a 76 kms/h! E nem uma gota de álcool tinha no sangue! Estas modernices de radares no túnel do Marquês e na marginal só foram plantados para tramar a gente: eu nunca fiz grandes disparates no trânsito, e agora corro o risco de perder dois pontos na carta por ter andado no túnel do Marquês a 76 kms/h… para isto, mais valia não terem feito o túnel! Pondero (tanto quanto me é possível ponderar neste estado) deixar de passar no túnel do Marquês para fugir ao radar que me ameaça a carta de condução. Mas amanhã quando for trabalhar, não passarei no famigerado túnel, embora passe no carrasco da minha segunda multa – a leve – a da descida do McDonalds (de quem vem de Lisboa para o Estoril) – e então lembrar-me-ei; António: guia devagarinho porque senão tiram-te os pontos! E ao olhar para o copo constato (que palavra tão sublime “constato” para alguém que fez do Lambéria’s um “menino de coro”: eu também já cantei num coro Maravilhas sinto em mim! Da alma nasce o meu canto! O Senhor me amou! Mais do que aos Lírios do Campo!…) que faltam apenas dois goles mas são os mais longos já que a escrita se resume a rescrita. Para acertar nas teclas tenho que levantar os dedos do teclado parecendo os escritores de antigamente quando escreviam à máquina… mas é a única forma de acertar mais vezes senão estou sempre a apagar. Quando for rever isto estarei 100% sóbrio mas farei por manter a estrutura destruturada que me saiu com a espontaneidade que se quer! Olho para o lado e vejo o que falta de vinho no copo (a garrafa está vazia). Ao lado está O Aleph de Borges do qual já nem sei o que pensar pois bebi os dois goles que me faltavam num único e apetece-me deixar tudo tal como está e ir para a cama. São nove e cinquenta e nove e tenho medo de me levantar da cadeira. Tenho que apagar as luzes o que se me afigura um desafio. Amanhã vou trabalhar! Levanto-me às seis da manhã. Se calhar o domingo não foi o melhor dia para fazer esta experiência…Incrível como o último quarto do vinho era tão mais alcoólico do que os primeiros três quartos juntos! Se a vida for assim, mal posso esperar pela terceira idade!

Caparide, 16 de Dezembro de 2018


O Dia Seguinte

Foi uma estupidez.
Não parti nada nem andei aos tombos pela casa mas as pernas pareciam ter ganho chumbo pois cada passo que dava, da sala até à cama, dava-o com estrondo, como que para me certificar que fixava bem o chão. Apaguei as luzes e, além da cabeça pesada, estava um bocadinho agoniado, por isso, dormi com um alguidar junto à cama, não fosse o gregório tecê-las.
O texto saiu como é mostrado (uma ou outra correcção que faço sempre) o que mostra que o efeito do álcool não chegou à pontuação.
Deitei-me e verifiquei três vezes a hora do despertador pois hoje foi dia de trabalho e tinha que me levantar às seis da manhã.
Não foi bem uma estupidez.
Na cama, coloquei duas almofadas porque o chumbo das pernas havia passado para a cabeça. Antes de apagar a luz, virei-me para ver as horas pela última vez e o quarto girou disparado à minha frente. Se estivesse em pé tinha-me esbardalhado. Felizmente tinha duas almofadas.
Apaguei a luz e hoje de manhã, além de um lastro de agonia e de uma dor de cabeça moderada, a única consequência da garrafa vazia de Lambéria’s que ficou na mesa da sala foi o aquecedor a óleo ter ficado toda a noite com as duas resistências ligadas a aquecer o copo e a garrafa que ontem me acompanharam. Mas seria má-fé atribuir ao vinho o esquecimento: esquecer-me de coisas, até mesmo do aquecedor ligado, há algum tempo que me é familiar.
Neste momento não posso ouvir falar em vinho (se tiver enjoado, pelo menos enquanto o enjoo durar faço uma vida mais barata).
Vendo bem, até nem foi uma estupidez.


Caparide, 17 de Dezembro de 2018