sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Vai e Põe Uma Sentinela


A fasquia estava alta no que dizia respeito à expectativa com que era aguardado a desconhecida primeira obra de Harper Lee Vai e Põe Uma Sentinela. Há muito que não existia um acontecimento literário com esta aura de misterioso glamour, à antiga, como por exemplo aconteceu com o lançamento da sua única obra publicada até então Por Favor, Não Matem a Cotovia em 1960.
Harper Lee, nascida em 1926, até 2015 havia publicado apenas um único livro em toda a sua vida, Por Favor, Não Matem a Cotovia. Com ele ganhou o Prémio Pulitzer e obteve o reconhecimento mundial (mas sobretudo norte-americano), sendo a obra ora incluída ora excluída dos planos escolares americanos, consoante o conservadorismo ganhava ou perdia peso no hipócrita espaço social estado-unidense. Em 2010, foi considerado pela Associação de Livreiros norte-americanos como o melhor romance americano da 2ª metade do séc. XX.
Como já aqui escrevi sobre ele, não me repetirei o que exprimi na altura (e que não mudou na essência).

Não esperava que Vai e Põe Uma Sentinela fosse uma obra com a mesma qualidade e por isso consegui refrear as expectativas aquando do inicio da sua leitura (talvez também por isso tenha esperado mais de 2 meses entre o momento em que o comprei e o momento em que iniciei a sua leitura). E de facto, a qualidade não é a mesma.
Vai e Põe Uma Sentinela não é tanto um romance mas sim um tratado sobre o racismo: a intervenção social sobre o tema que tão bem, equilibrado esteve na obra de 1960 com o mundo da infância, é aqui retratado assumidamente em todo o seu esplendor,
O regresso de Scout a Maycomb nos anos 50, 20 anos depois (do momento em que decorre a acção de Por Favor, Não Matem a Cotovia) e a realidade com que se depara compõem o leit motiv para a dissertação sobre as profundas convulsões raciais que acontecerem na sociedade americana nas décadas de 50 e 60.
Tendo sido escrito antes, este livro é uma sequela a Por Favor, Não Matem a Cotovia. Diz-se que o editor, quando recebeu as provas deste livro, gostou tanto das memórias de infância da personagem principal Jean Louise Finch (Scout) que instigou Harper Lee a retractar os acontecimentos do passado sob o ponto de vista de uma criança: era o nascimento dessa obra. Quanto e este Vai e Põe Uma Sentinela, ficou perdido numa qualquer gaveta editorial até ao ano passado.

As surpresas são grandes para quem leu (e gostou) da primeira obra de Lee, mas também sobre isso não me alongarei mais. Vale a pena usufruir da escrita fluída e atractiva de Harper Lee (se bem que um pouco inexperiente nesta obra) e perceber porque é que Por Favor, Não Matem a Cotovia não apareceu por acaso: resulta sim de uma profunda inquietação interior da autora perante as injustiças sociais da época, bem como as dúvidas daí decorrentes no seu comportamento e no seu lugar numa sociedade à qual sentia estar a deixar de ter para ela um lugar. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A Trégua


Título igual ao de um outro livro, eventualmente mais conhecido na Europa (da autoria de Primo Levi), A Trégua de Mario Benedetti decorre em Montevideo, em 1959.

Escrito sob a forma de diário, esta história de amor (intemporal, como todas) exprime as angústias e receios de Martin Santomé, 49 anos, na primeira pessoas quando, no momento em que já nada espera da vida e apenas conta os dias para a reforma, se apaixona por Laura Avellaneda, 24 anos.
Actor numa vida desiludida, Santomé é viúvo há 20 anos, tem um trabalho de que não gosta numa empresa de contabilidade, tem relações mais ou menos difíceis com cada um dos três filhos, vai satisfazendo as necessidades sexuais com um ou outro encontro ocasional, mas já nada espera da vida (a não ser a reforma).

Quando Laura entra para o escritório onde trabalha, Martin não se enamora logo, mas a convivência e a solidão concorrem para os aproximar.
A partir daqui, são as preocupações de Martin que acompanhamos (tudo é relatado do seu ponto de vista): a idade e a diferença de idades, o futuro da relação, a preocupação em ser deixado, etc... mas tudo de uma forma muito "lúcido-pessimista", porque neste caso, o seu pessimismo é muito lúcido, as suas preocupações antecipadas muito lógicas, as suas vidas muito diferentes.
Mas tal não impede que entre eles se estabeleça uma relação, e que esta história de amor seja uma bonita reflexão sobre a vida, o amor, a desilusão e sobre a forma de estarmos sempre a tempo de que algo aconteça na nossa vida, sem o esperarmos, desde que não fechemos as portas.

Não posso desvendar muito mais sob pena de estragar a leitura.
Uma nota para referir que, e espero nada estragar com esta revelação, Laura escreveu um poema a Martin, o qual foi publicado 36 anos depois, em 1995, no livro El Amor, las Mujeres y la Vida de Mario Benedetti. A ler obrigatoriamente a quem leu A Trégua, obrigatoriamente só depois de ler A Trégua.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O lançamento de 'Go Set a Watchman'


O acontecimento literário do ano ocorreu ontem (se é que ainda existem acontecimentos literários).

A prequela de Não Matem a Cotovia (To Kill a Mockingbird, 1960), 55 anos depois do lançamento do vencedor do Prémio Pulitzer, é o bestseller #1 da Amazon antes ainda de ter sido lançado.
Por cá, chega (em português) no último trimestre do ano, mas num país onde o primeiro livro é pouco conhecido, o impacto do acontecimento é diminuto, mesmo no meio cultural.

O texto foi escrito por Harper Lee antes da redacção de Não Matem a Cotovia, mas por sugestão do editor (que gostou muito das memórias de Scout dos tempos de infância), Lee escreveu um segundo romance para ser publicado em detrimento do primeiro, em que a acção ocorre 20 anos antes, e foi este que se tornou, segundo a Associação de Livreiros Norte-Americanos numa votação de 2010, no melhor romance americano da 2ª metade do século XX.

Aguardo, já não com a expectativa exagerada da adolescência, mas com a curiosidade ligeiramente aumentada por já não haver acontecimentos literários assim. Escritores de culto vivos há poucos.
O pouco que li sobre a história, surpreendeu-me e, por isso, guardarei para um futuro post alguma opinião que venha a dar (se se proporcionar).
Para já, aguardo o lançamento, mas a expectativa de um evento destes já não é do nosso tempo: o lançamento de Não Matem a Cotovia pode ser visto no filme Capote (Harper Lee era amiga de Truman Capote) em 1960, e aí sim, o lançamento de um livro era qualquer coisa, com público e leitura de excertos, Hoje já não há tempo para isso.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Uma Agulha No Palheiro


Tendo andado afastado dos livros nos últimos 2 meses, por vezes é necessário uma obra para nos trazer de volta a algo que sabemos que nos dá prazer.
Não tem que ser uma grande obra: tem sim que ter o poder de nos sintonizar com ela para assim, voltarmos a viajar juntos e voltarmos a entrar no rumo.

Acabei no fim de semana de reler Uma Agulha No Palheiro (The Catcher In The Rye, 1951) de J. D. Salinger. A primeira vez que o li foi em inglês e não entendi tu (que me irritou um bocado, mas como tentava ser fluente em inglês na altura, valeu o esforço). Agora, 6, 7 ou 8 anos depois (não sei bem), comprei a edição antiga, reli e gostei.

Holden Caufield, um adolescente de 16 anos problemático, é expulso (uma vez mais) da escola interna que frequenta 3 dias antes das férias do Natal e, não tendo coragem de ir logo para casa, vagueia durante 2 ou 3 dias por Nova York. Nessa deambulação conhece um conjunto de personagens mais ou menos marginais, bem como reencontra antigos/as colegas.
Todos estes encontros contribuem para reforçar a sua insegurança, pessimismo e falta de autoestima. Tudo o irrita, tudo o aborrece, tudo o impacienta. O mundo é para Caufield um lugar por onde se arrasta e onde sente não ter lugar. Sente-se à margem da realidade, como observador exageradamente crítico.
Um livro da "crise da adolescência" por excelência, Uma Agulha No Palheiro narra a história, na primeira pessoa, de um jovem que se encontra em conflito profundo com a geração dos pais, que se culpa pela morte do irmão Allie, que adora a irmã mais pequena Phoebe e que critica o destino "Hollywoodesco"do seu irmão D.B., ao mesmo tempo que lhe admira a coragem por ter perseguido o seu sonho (algo que nele fica sempre em projecto).

Para além do tema (e da linguagem bastante arrevesada) também na forma Uma Agulha No Palheiro foi uma revolução com as sucessivas repetições e ingenuidade e reflectirem a estrutura e sequência do pensamento (é assim que pensamos quando pensamos sozinhos: sem contraditório, repetimos em flashs o que pensamos de modo a reforçar uma ideia e formar uma opinião). 
As divagações, uma constante não escrita da nossa forma de combater a solidão, também se encontram expostas nestas páginas.
E tudo isto sem nunca cair no tédio ou em floreados mais ou menos literários.

Uma obra que vale a pena ler e/ou revisitar, escrita por um homem que escolheu a reclusão (pública) como modo de vida, e que apenas publicou 3 ou 4 livros em vida. Clássico mais americano do que mundial, Uma Agulha No Palheiro (À Espera No Centeio na reedição portuguesa mais recente) continua, além de universal, muito actual.

sábado, 4 de outubro de 2014

Em Parte Incerta


Um par de interpretações do melhor que vi nos últimos tempos.
E um filme "à David Fincher" em modo bom.

Em Parte Incerta (Gone Girl, 2014) é um filme que, tendo os habituais ingredientes da filmografia de Fincher, não se cinge a eles... para além do suspense habitual, da preocupação minuciosa com os cenários, fotografia, montagem e afins, este filme, na minha opinião, valoriza e muito dois elementos novos: as interpretações e moralismo do comportamento social.
No que respeita às primeiras, arrisco dizer que vão haver nomeações... uma é quase garantida, mas não digo qual para não dar pistas sobre o enredo. Sobre o segundo, embora o julgamento social de um caso de polícia esteja centrado na sociedade norte-americana, é algo universal (quantos linchamentos públicos temos tido em Portugal?).

Adorei Setes Pecados Mortais (Seven, 1995), gostei de O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008) e odiei Clube de Combate (Fight Club, 1999). Os restantes filmes de Fincher, embora acima da média, não me fizeram fã dele (vi mais 2 para além dos 4 já mencionados). Em Parte Incerta é um prodígio nos referidos aspectos. Assim, é pacífico reconhecer que David Fincher é um dos valores mais seguros da nova realização norte-americana (embora já tenha 52 anos), e o seu cinema, embora com uma ou outra incursão pontual pelo melodrama biográfico, segue uma linha inquietante à qual é dificil ficarmos indiferentes. Nem sempre resulta, na minha opinião, mas tem colhido muita simpatia popular (e mesmo junto da crítica). 
Podia já ter chegado ao óscar, mas acho que lhe falta provar que é bom em algo diferente. Spielberg não teve medo de arriscar em diferentes géneros, tal como os grandes nomes de "outras eras" (veja-se Billy Wilder, Stanley Kubrick ou Robert Wise, para citar alguns). 

Custa-me não dizer muito mais sobre este filme mas correria o risco de estragar a festa.
Ok...só digo isto: por vezes a psicopatia é muito mais do que aquilo que aparenta.

domingo, 28 de setembro de 2014

Descaramento é defender o indefensável


Recentemente, tive uma conversa/discussão a respeito dos benificios de que as pessoas (alguns portugueses, no caso) se aproveitam e dos quais abusam, e dos impostos aos quais continuam a fugir, mesmo após troikas, etc... 

O ponto de partida da conversa foi a questão dos eventuais esquemas utilizados pelo Primeiro Ministro PPC a respeito de serviços prestados enquanto era deputados em exclusividade. Referi, como já havia referido noutra conversa, que o único "atenuante" de PPC é o facto de este género de esquemas ter sido prática comum há 20 anos atrás, tanto ao nível dos ricos como dos pobres, dos políticos como dos não políticos.

Temos sensibilidades diferentes a aspectos diferentes da vida: as questões laborais e fiscais estão entre os tópicos aos quais não sou minimamente tolerante. E isto não é fácil em Portugal.

Comecemos pelo "esquema" das despesas de representação para "representar" vencimentos encapotados. Tenho amigos e conhecidos que têm como complemento do vencimento base este tipo de esquemas. Adicionemos ao conjunto as despesas com refeições e o pagamento de kms, para citar os mais comuns. Estes três exemplos de instrumentos só fazem sentido quando são, por um lado, sinceros (obviamente) e por outro, eventuais, isto é, não podem constituir um pagamento regular e de valor mais ou menos constante. 
Isto serve para diferenciar de outros pagamentos adicionais como fundos de pensões, seguros de saúde, viatura de empresa ou combustível, que esses sim, podem e devem ser um benificio regular: contudo, mesmo estes não deixam de ser formas de, quer a entidade patronal quer o colaborador não pagarem impostos (em Inglaterra, por exemplo, os carros de empresa são englobados no vencimento e taxados em sede de IRS...), mas isso é tema para outra discussão.

Acuso PPC e defendo que deve tirar consequências. Porque condeno este tipo de jogadas e porque não tenho (conscientemente, pelo menos) telhados de vidro em relação a este tema. Contudo, não aceito aqueles que acusam o PPC de algo maquiavélico e que, ao mesmo tempo, prarticaram e continuam ainda hoje a praticar estes roubos ao país; não aceito que muitos dos que mais se insurgem contra o retirar de alguns destes benificios sejam aqueles que durante anos benificiaram e benificiam, de forma desonesta, transformando regalias para utilização eventual em deveres.
Materializando: num seguro de saúde pago por uma empresa, por exemplo, colocar óculos escuros como óculos graduados ou massagens em spas como fisioterapia para que seja a seguradora a satisfazer estes luxos tem um nome: Roubo. 
Mas não é apenas a seguradora que é roubada. 
Os prémios pagos às seguradoras têm por trás cálculos, de acordo com a utilização média des serviços que englobam. Se todos esgotam os plafonds, obviamente que os prémios pagos sobem. Num contexto de empresa, ou os prémios sobem ou, para manter o prémio, baixam os benificios... pois é: todos são prejudicados devido à desonestidade de alguns. Tal e qual como a fuga ao fisco, só que numa dimensão diferente: por uns mentirem, pagamos todos.

Quando estas conversas surgem, insurjo-me de uma forma quase sempre aguerrida porque é algo que me revolta. Mas quase sempre também acabo com dúvidas porque, muitas vezes, acabo por concluir que estou a acusar, com ou sem intenção, algum ou alguns dos outros intervenientes na conversa. A quantidade de pessoas que alinha nisto é tal por um lado, e este comportamento, ainda hoje, não é suficientemente mal visto (por incrivel que pareça), por outro, que é muito dificil ninguém ser "atingido" num grupo. Acontece-me no trabalho e também entre conhecidos/amigos.
Mesmo não sendo eu a praticar o acto ilícito, sinto-me mal pelo tom acusatório com que falo disto. É muito dificil defender a fundo, e não na generalidade e em abstracto, o pagamento de impostos e a não utilização fraudolenta de esquemas em Portugal. Quando se concretiza aquilo de que se fala, uma boa fatia da população portugusa tem telhados de vidro.
Muitas vezes, e disse-o nesta conversa, desejava ter coragem para ser bufo como nos países nórdicos, porque estes aldrabões prejudicam-nos a todos. Mas continuo demasiado agarrado a esta sociedade portuguesa em que cresci, e, embora denuncie, continuo sem coragem para fazer queixa de alguns comportamentos.

Hei-de continuar a ser prejudicado, por me limitar a utilizar correctamente o meu seguro de saúde, a pagar IVA de cada vez que tenho que arranjar o carro ou a não receber dinheiro por fora (se bem que neste caso seja muitas vezes uma imposição despótica das empresas sobre os empregados). E arrisco dizer que poderão existir situações futuras na minha vida em que, para não perder amizades, deverei ter que me calar. Não sei se vou conseguir... se a amizade e a liberdade de expressão são incompatíveis, então alguma coisa está errada na equação...

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O Amor (por Sándor Márai)


"O que sabemos sobre a vida? Nada que seja real. Vivemos entre fantasias idealizadas que parecem ser retiradas das imagens dos postais. O "amor" é uma espécie de sentimentalismo dos namorados que passeiam de mãos dadas à luz do luar ou um espectáculo carnal que se desenvolve num ambiente sufocante, iluminado por um candeeiro com abajur vermelho, entre suspiros fingidos ou sinceros: é assim que nos ensina a literatura ou é apresentado nos teatros e cinemas. Por um lado, temos Beatriz, o amor idealizado de Dante, e, por outro, aquilo que Boccaccio dizia, ou seja, na realidade, Dante entregara-se com frequência ao amor físico. O que sabemos sobre essa força que move os humanos e tem também um significado particular para todo o universo? Chamamos amor a essa força que acopla os humanos e fecunda a matéria do mundo. O que sabemos sobre a sua natureza verdadeira? No teatro, podemos ver a cena, em que um cavalheiro sábio, já com idade avançada, sofre pelo amor casto que sente por uma jovem. A cortesã que atravessa o palco com uma expressão ávida e entusiasmada. O galã que com um sorriso frio destroça corações. A mulher frígida, infeliz no seu casamento, que de repente começa a sentir as chamas do amor, que foram acesas por um cavalheiro interessante. A tonta que se põe de joelhos aos pés de um actor famoso de cinema... Há ainda outros, presos no delírio da paixão, que bebem lixívia ou tomam uma grande quantidade de comprimidos ansiolíticos, dependendo do seu nível social ou educação. Mas fora das noticias cor-de-rosa, das novelas, das peças de teatro e dos filmes, o que sabemos sobre a verdadeira natureza e as intenções dessa força?... O cientista considera-a uma das manifestações da loucura, um ataque agudo de nervos que passa com o tempo; a literatura, em cada época, dá um sentido distinto a esta paixão, enobrece-a, qualifica-a como a demonstração emocional mais sublime ou mais desprezada do ser humano. Mas o que será na realidade?"

Sándor Márai in A Irmã