quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Runa


Desapareceu de circulação quando eu deixei de me mover pelas bandas de São João do Estoril, transferindo cada vez mais a minha vida para Lisboa, primeiro o trabalho, depois o lazer. O lar, esse permanece fiel ao concelho que me viu crescer.
Desde sempre que me lembro dele, solitário, sujo, sóbrio, simpático, sibilando para si próprio uma conversa que só ele entendia. Os sacos de plástico que continuamente lhe pendiam dos braços caídos, prolongamentos contendo as esmolas com que os transeuntes o presenteavam regozijando-se assim pela distintíssima caridade com que aplacavam a responsabilidade que gritavam interiormente não ser a sua, continham os bens essenciais para o manter ligado à máquina da vida se (e apenas neste caso) não era ele quem os abastecia.
Confesso que também eu pertenci ao “exército da salvação” do Runa (era assim que ele era conhecido em São João e arredores), congratulando-me sempre excessivamente pela minha boa acção quando o fazia mais por mim do que por ele.
Sempre que a dádiva era em dinheiro, o Runa não perdoava e permitia-se viver a vida dentro do ilusório desvanecer de liberdade que uma moeda lhe conferia: comprava uma lata de cerveja e com ela, dizia-nos a todos (que quando nos apanhávamos bem dispostos lhe dispensávamos um pacote de leite ou uma lata de atum) que o direito a uma vida digna não se compõe apenas de pão e água mas de lazer, prazer e alegria… e alguns vícios também… se nós temos esse direito, porque não ele?

Deixei de o ver quando minha vida se transladou para a capital, onde os cinemas, as esplanadas e os concertos me retêm mais do que seria desejável para que eu pudesse viver a vida tranquila que nem sempre desejei.  
Estranho o local onde habito, agora que o vejo sempre sob a lente do pára-brisas… deixei de me deslocar a pé por Alapraia, São João, São Pedro, e nessa ausência, os detalhes desse tempo (dez, quinze anos talvez?) vão-se apagando, tal como o Runa.
Não sei se ele continua por aí, se emigrou ou se faleceu, mas foi um personagem que acompanhou a minha adolescência e a entrada na idade adulta. Acompanhou a adolescência de todos nós com a sua simpatia, respondendo sempre com um “bom-dia” à nossa solicitação, olhando-nos sempre nos olhos com uma expressão de meiga inteligência, um ténue sorriso no olhar e uma conexão de igual para igual que nos desarmava mas que tão bem nos sabia.
Trajava quase sempre de preto, vestindo no Inverno um sobretudo que se tornou num “clássico” do Runa, prolongando o emaranhado pastoso que cimentava a negridão da sua barba e cabelo, antecipando a tendência “lumber” que agora impera. As roupas andrajosas estavam gastas, sujas e cheiravam mal. Talvez o preto formasse parte do seu luto pela vida que em tempos tivera e a qual lhe morrera. Talvez as palavras com que ia alimentando as discussões que ia mantendo consigo mesmo à medida que caminhava pelas ruas de São João, acompanhadas pelo gesticular ora suave ora enérgico, mais não fossem do que memórias verbalizadas da vida que partira, para que nessa verbalização ficassem gravados no ar que todos respirávamos, alguns fragmentos do passado (que não pedia muito para que tivesse sido melhor do que o presente), na esperança de que algum ouvido passageiro pudesse gravar, e mais tarde ressuscitar, o tempo em que o Runa não dava pelo nome.
Mas ninguém ouvia o que ele dizia para lá do “bom-dia”.

Falava-se que a sua família era rica (não é o que se diz de tantas famílias dos sem-abrigo?), de que tinha um palacete perto da marginal que dava para a praia da Azarujinha, onde ele havia vivido nessa outra vida.
O jogo, dizia-se, esse vício tenebroso e tão despromovido quando comparado com os outros vícios mais “da moda”, havia sido a sua perdição. A ruína de um Runa que recolhia da rua os restos dos ricos.
Creio que nunca saberei a sua verdadeira história, nem poderei confirmar se estes ditos albergam algum fundo de verdade. Afinal, eu era apenas mais um que lhe lançava um “bom-dia” e umas moedas comprando assim o meu cantinho no céu, afastando-me de seguida do cheiro que a sua dignidade não me deixava sentir.

Lembro-me, numa temporada em que trabalhei como caixa num supermercado em Alapraia, de o ver aparecer amiúde para comprar uma cerveja, sempre cerveja, deixando cair das mãos morenas, camufladas de gretas e sujidade, moedas ao acaso pelo tapete rolante, confiando-nos a missão de não o enganar com o troco, nobreza de atitude que muito poucos clientes manifestavam, protestando sempre pelo cêntimo em falta quando não havia moedas na caixa, mas nunca devolvendo o cêntimo a mais com o qual tantas vezes eram regalados.
Os pobres possuíam o digno desprendimento com que o Runa displicentemente nos atirava o dinheiro: a sua cerveja pedia a nossa honestidade… uma e outra eram indissociáveis. E nem o facto de ele passar à frente das filas que se formavam junto às caixas, lançando o seu cheiro para afastar os mais afectados, era condenado por estes, que se convenciam que lhe davam passagem por simpatia: afinal o homem levava apenas uma cerveja!
Ao fim do dia de trabalho, encontrava-o sentado ou deitado junto ao respiradouro do armazém do estabelecimento, aproveitando o calor que emanava da grelha para o exterior. E que bem que lhe devia saber o ar quente pelas costas numa noite de Inverno, parco luxo para um senhor que tão pouco exigia da vida.

Todos cairemos no esquecimento um dia mas os amigos, os relacionamentos, os filhos, e um sem numero de distracções com que ocupamos a vida (a começar pelo trabalho) cegam-nos desta visão tão nítida, alimentando-nos nós deste engano no qual gostamos de viver, para que acreditemos nunca vir a cair no esquecimento ao qual todos votámos o Runa, mas do qual ele nunca nos cobrou. Mas a vida não deixa de ser como é e nós não deixaremos de o seguir, permitindo que ele nos ensine a viver com simplicidade, onde quer que seja esse lugar acolhedor no qual todos caberemos.

Caparide, 9 de Maio de 2017
(boletim "Ecos da Costa" #32, Out-2017)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Vai e Põe Uma Sentinela


A fasquia estava alta no que dizia respeito à expectativa com que era aguardada a desconhecida primeira obra de Harper Lee Vai e Põe Uma Sentinela. Há muito que não existia um acontecimento literário com esta aura de misterioso glamour, à antiga, como por exemplo aconteceu com o lançamento da sua única obra publicada até então Por Favor, Não Matem a Cotovia em 1960.
Harper Lee, nascida em 1926, até 2015 havia publicado apenas um único livro em toda a sua vida, Por Favor, Não Matem a Cotovia. Com ele ganhou o Prémio Pulitzer e obteve o reconhecimento mundial (mas sobretudo norte-americano), sendo a obra ora incluída ora excluída dos planos escolares americanos, consoante o conservadorismo ganhava ou perdia peso no hipócrita espaço social estado-unidense. Em 2010, foi considerado pela Associação de Livreiros norte-americanos como o melhor romance americano da 2ª metade do séc. XX.
Como já aqui escrevi sobre ele, não me repetirei o que exprimi na altura (e que não mudou na essência).

Não esperava que Vai e Põe Uma Sentinela fosse uma obra com a mesma qualidade e por isso consegui refrear as expectativas aquando do inicio da sua leitura (talvez também por isso tenha esperado mais de 2 meses entre o momento em que o comprei e o momento em que iniciei a sua leitura). E de facto, a qualidade não é a mesma.
Vai e Põe Uma Sentinela não é tanto um romance mas sim um tratado sobre o racismo: a intervenção social sobre o tema que tão bem equilibrado esteve na obra de 1960 com o mundo da infância, é aqui retratado assumidamente em todo o seu esplendor,
O regresso de Scout a Maycomb nos anos 50, 20 anos depois (do momento em que decorre a acção de Por Favor, Não Matem a Cotovia) e a realidade com que se depara compõem o leit motiv para a dissertação sobre as profundas convulsões raciais que aconteceram na sociedade americana nas décadas de 50 e 60.
Tendo sido escrito antes, este livro é uma sequela a Por Favor, Não Matem a Cotovia. Diz-se que o editor, quando recebeu as provas deste livro, gostou tanto das memórias de infância da personagem principal Jean Louise Finch (Scout) que convenceu Harper Lee a retractar os acontecimentos do passado sob o ponto de vista de uma criança: era o nascimento dessa obra. Quanto e este Vai e Põe Uma Sentinela, ficou perdido numa qualquer gaveta editorial até ao ano passado.

As surpresas são grandes para quem leu (e gostou) da primeira obra de Lee, mas também sobre isso não me alongarei mais. Vale a pena usufruir da escrita fluída e atractiva de Harper Lee (se bem que um pouco inexperiente nesta obra) e perceber porque é que Por Favor, Não Matem a Cotovia não apareceu por acaso: resulta sim de uma profunda inquietação interior da autora perante as injustiças sociais da época, bem como as dúvidas daí decorrentes no seu comportamento e no seu lugar numa sociedade à qual sentia estar a deixar de ter para ela um lugar. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A Trégua


Título igual ao de um outro livro, eventualmente mais conhecido na Europa (da autoria de Primo Levi), A Trégua de Mario Benedetti decorre em Montevideo, em 1959.

Escrito sob a forma de diário, esta história de amor (intemporal, como todas) exprime as angústias e receios de Martin Santomé, 49 anos, na primeira pessoas quando, no momento em que já nada espera da vida e apenas conta os dias para a reforma, se apaixona por Laura Avellaneda, 24 anos.
Actor numa vida desiludida, Santomé é viúvo há 20 anos, tem um trabalho de que não gosta numa empresa de contabilidade, tem relações mais ou menos difíceis com cada um dos três filhos, vai satisfazendo as necessidades sexuais com um ou outro encontro ocasional, mas já nada espera da vida (a não ser a reforma).

Quando Laura entra para o escritório onde trabalha, Martin não se enamora logo, mas a convivência e a solidão concorrem para os aproximar.
A partir daqui, são as preocupações de Martin que acompanhamos (tudo é relatado do seu ponto de vista): a idade e a diferença de idades, o futuro da relação, a preocupação em ser deixado, etc... mas tudo de uma forma muito "lúcido-pessimista", porque neste caso, o seu pessimismo é muito lúcido, as suas preocupações antecipadas muito lógicas, as suas vidas muito diferentes.
Mas tal não impede que entre eles se estabeleça uma relação, e que esta história de amor seja uma bonita reflexão sobre a vida, o amor, a desilusão e sobre a forma de estarmos sempre a tempo de que algo aconteça na nossa vida, sem o esperarmos, desde que não fechemos as portas.

Não posso desvendar muito mais sob pena de estragar a leitura.
Uma nota para referir que, e espero nada estragar com esta revelação, Laura escreveu um poema a Martin, o qual foi publicado 36 anos depois, em 1995, no livro El Amor, las Mujeres y la Vida de Mario Benedetti. A ler obrigatoriamente a quem leu A Trégua, obrigatoriamente só depois de ler A Trégua.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O lançamento de 'Go Set a Watchman'


O acontecimento literário do ano ocorreu ontem (se é que ainda existem acontecimentos literários).

A prequela de Não Matem a Cotovia (To Kill a Mockingbird, 1960), 55 anos depois do lançamento do vencedor do Prémio Pulitzer, é o bestseller #1 da Amazon antes ainda de ter sido lançado.
Por cá, chega (em português) no último trimestre do ano, mas num país onde o primeiro livro é pouco conhecido, o impacto do acontecimento é diminuto, mesmo no meio cultural.

O texto foi escrito por Harper Lee antes da redacção de Não Matem a Cotovia, mas por sugestão do editor (que gostou muito das memórias de Scout dos tempos de infância), Lee escreveu um segundo romance para ser publicado em detrimento do primeiro, em que a acção ocorre 20 anos antes, e foi este que se tornou, segundo a Associação de Livreiros Norte-Americanos numa votação de 2010, no melhor romance americano da 2ª metade do século XX.

Aguardo, já não com a expectativa exagerada da adolescência, mas com a curiosidade ligeiramente aumentada por já não haver acontecimentos literários assim. Escritores de culto vivos há poucos.
O pouco que li sobre a história, surpreendeu-me e, por isso, guardarei para um futuro post alguma opinião que venha a dar (se se proporcionar).
Para já, aguardo o lançamento, mas a expectativa de um evento destes já não é do nosso tempo: o lançamento de Não Matem a Cotovia pode ser visto no filme Capote (Harper Lee era amiga de Truman Capote) em 1960, e aí sim, o lançamento de um livro era qualquer coisa, com público e leitura de excertos, Hoje já não há tempo para isso.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Uma Agulha No Palheiro


Tendo andado afastado dos livros nos últimos 2 meses, por vezes é necessário uma obra para nos trazer de volta a algo que sabemos que nos dá prazer.
Não tem que ser uma grande obra: tem sim que ter o poder de nos sintonizar com ela para assim, voltarmos a viajar juntos e voltarmos a entrar no rumo.

Acabei no fim de semana de reler Uma Agulha No Palheiro (The Catcher In The Rye, 1951) de J. D. Salinger. A primeira vez que o li foi em inglês e não entendi tu (que me irritou um bocado, mas como tentava ser fluente em inglês na altura, valeu o esforço). Agora, 6, 7 ou 8 anos depois (não sei bem), comprei a edição antiga, reli e gostei.

Holden Caufield, um adolescente de 16 anos problemático, é expulso (uma vez mais) da escola interna que frequenta 3 dias antes das férias do Natal e, não tendo coragem de ir logo para casa, vagueia durante 2 ou 3 dias por Nova York. Nessa deambulação conhece um conjunto de personagens mais ou menos marginais, bem como reencontra antigos/as colegas.
Todos estes encontros contribuem para reforçar a sua insegurança, pessimismo e falta de autoestima. Tudo o irrita, tudo o aborrece, tudo o impacienta. O mundo é para Caufield um lugar por onde se arrasta e onde sente não ter lugar. Sente-se à margem da realidade, como observador exageradamente crítico.
Um livro da "crise da adolescência" por excelência, Uma Agulha No Palheiro narra a história, na primeira pessoa, de um jovem que se encontra em conflito profundo com a geração dos pais, que se culpa pela morte do irmão Allie, que adora a irmã mais pequena Phoebe e que critica o destino "Hollywoodesco"do seu irmão D.B., ao mesmo tempo que lhe admira a coragem por ter perseguido o seu sonho (algo que nele fica sempre em projecto).

Para além do tema (e da linguagem bastante arrevesada) também na forma Uma Agulha No Palheiro foi uma revolução com as sucessivas repetições e ingenuidade e reflectirem a estrutura e sequência do pensamento (é assim que pensamos quando pensamos sozinhos: sem contraditório, repetimos em flashs o que pensamos de modo a reforçar uma ideia e formar uma opinião). 
As divagações, uma constante não escrita da nossa forma de combater a solidão, também se encontram expostas nestas páginas.
E tudo isto sem nunca cair no tédio ou em floreados mais ou menos literários.

Uma obra que vale a pena ler e/ou revisitar, escrita por um homem que escolheu a reclusão (pública) como modo de vida, e que apenas publicou 3 ou 4 livros em vida. Clássico mais americano do que mundial, Uma Agulha No Palheiro (À Espera No Centeio na reedição portuguesa mais recente) continua, além de universal, muito actual.

sábado, 4 de outubro de 2014

Em Parte Incerta


Um par de interpretações do melhor que vi nos últimos tempos.
E um filme "à David Fincher" em modo bom.

Em Parte Incerta (Gone Girl, 2014) é um filme que, tendo os habituais ingredientes da filmografia de Fincher, não se cinge a eles... para além do suspense habitual, da preocupação minuciosa com os cenários, fotografia, montagem e afins, este filme, na minha opinião, valoriza e muito dois elementos novos: as interpretações e moralismo do comportamento social.
No que respeita às primeiras, arrisco dizer que vão haver nomeações... uma é quase garantida, mas não digo qual para não dar pistas sobre o enredo. Sobre o segundo, embora o julgamento social de um caso de polícia esteja centrado na sociedade norte-americana, é algo universal (quantos linchamentos públicos temos tido em Portugal?).

Adorei Setes Pecados Mortais (Seven, 1995), gostei de O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008) e odiei Clube de Combate (Fight Club, 1999). Os restantes filmes de Fincher, embora acima da média, não me fizeram fã dele (vi mais 2 para além dos 4 já mencionados). Em Parte Incerta é um prodígio nos referidos aspectos. Assim, é pacífico reconhecer que David Fincher é um dos valores mais seguros da nova realização norte-americana (embora já tenha 52 anos), e o seu cinema, embora com uma ou outra incursão pontual pelo melodrama biográfico, segue uma linha inquietante à qual é dificil ficarmos indiferentes. Nem sempre resulta, na minha opinião, mas tem colhido muita simpatia popular (e mesmo junto da crítica). 
Podia já ter chegado ao óscar, mas acho que lhe falta provar que é bom em algo diferente. Spielberg não teve medo de arriscar em diferentes géneros, tal como os grandes nomes de "outras eras" (veja-se Billy Wilder, Stanley Kubrick ou Robert Wise, para citar alguns). 

Custa-me não dizer muito mais sobre este filme mas correria o risco de estragar a festa.
Ok...só digo isto: por vezes a psicopatia é muito mais do que aquilo que aparenta.

domingo, 28 de setembro de 2014

Descaramento é defender o indefensável


Recentemente, tive uma conversa/discussão a respeito dos benificios de que as pessoas (alguns portugueses, no caso) se aproveitam e dos quais abusam, e dos impostos aos quais continuam a fugir, mesmo após troikas, etc... 

O ponto de partida da conversa foi a questão dos eventuais esquemas utilizados pelo Primeiro Ministro PPC a respeito de serviços prestados enquanto era deputados em exclusividade. Referi, como já havia referido noutra conversa, que o único "atenuante" de PPC é o facto de este género de esquemas ter sido prática comum há 20 anos atrás, tanto ao nível dos ricos como dos pobres, dos políticos como dos não políticos.

Temos sensibilidades diferentes a aspectos diferentes da vida: as questões laborais e fiscais estão entre os tópicos aos quais não sou minimamente tolerante. E isto não é fácil em Portugal.

Comecemos pelo "esquema" das despesas de representação para "representar" vencimentos encapotados. Tenho amigos e conhecidos que têm como complemento do vencimento base este tipo de esquemas. Adicionemos ao conjunto as despesas com refeições e o pagamento de kms, para citar os mais comuns. Estes três exemplos de instrumentos só fazem sentido quando são, por um lado, sinceros (obviamente) e por outro, eventuais, isto é, não podem constituir um pagamento regular e de valor mais ou menos constante. 
Isto serve para diferenciar de outros pagamentos adicionais como fundos de pensões, seguros de saúde, viatura de empresa ou combustível, que esses sim, podem e devem ser um benificio regular: contudo, mesmo estes não deixam de ser formas de, quer a entidade patronal quer o colaborador não pagarem impostos (em Inglaterra, por exemplo, os carros de empresa são englobados no vencimento e taxados em sede de IRS...), mas isso é tema para outra discussão.

Acuso PPC e defendo que deve tirar consequências. Porque condeno este tipo de jogadas e porque não tenho (conscientemente, pelo menos) telhados de vidro em relação a este tema. Contudo, não aceito aqueles que acusam o PPC de algo maquiavélico e que, ao mesmo tempo, prarticaram e continuam ainda hoje a praticar estes roubos ao país; não aceito que muitos dos que mais se insurgem contra o retirar de alguns destes benificios sejam aqueles que durante anos benificiaram e benificiam, de forma desonesta, transformando regalias para utilização eventual em deveres.
Materializando: num seguro de saúde pago por uma empresa, por exemplo, colocar óculos escuros como óculos graduados ou massagens em spas como fisioterapia para que seja a seguradora a satisfazer estes luxos tem um nome: Roubo. 
Mas não é apenas a seguradora que é roubada. 
Os prémios pagos às seguradoras têm por trás cálculos, de acordo com a utilização média des serviços que englobam. Se todos esgotam os plafonds, obviamente que os prémios pagos sobem. Num contexto de empresa, ou os prémios sobem ou, para manter o prémio, baixam os benificios... pois é: todos são prejudicados devido à desonestidade de alguns. Tal e qual como a fuga ao fisco, só que numa dimensão diferente: por uns mentirem, pagamos todos.

Quando estas conversas surgem, insurjo-me de uma forma quase sempre aguerrida porque é algo que me revolta. Mas quase sempre também acabo com dúvidas porque, muitas vezes, acabo por concluir que estou a acusar, com ou sem intenção, algum ou alguns dos outros intervenientes na conversa. A quantidade de pessoas que alinha nisto é tal por um lado, e este comportamento, ainda hoje, não é suficientemente mal visto (por incrivel que pareça), por outro, que é muito dificil ninguém ser "atingido" num grupo. Acontece-me no trabalho e também entre conhecidos/amigos.
Mesmo não sendo eu a praticar o acto ilícito, sinto-me mal pelo tom acusatório com que falo disto. É muito dificil defender a fundo, e não na generalidade e em abstracto, o pagamento de impostos e a não utilização fraudolenta de esquemas em Portugal. Quando se concretiza aquilo de que se fala, uma boa fatia da população portugusa tem telhados de vidro.
Muitas vezes, e disse-o nesta conversa, desejava ter coragem para ser bufo como nos países nórdicos, porque estes aldrabões prejudicam-nos a todos. Mas continuo demasiado agarrado a esta sociedade portuguesa em que cresci, e, embora denuncie, continuo sem coragem para fazer queixa de alguns comportamentos.

Hei-de continuar a ser prejudicado, por me limitar a utilizar correctamente o meu seguro de saúde, a pagar IVA de cada vez que tenho que arranjar o carro ou a não receber dinheiro por fora (se bem que neste caso seja muitas vezes uma imposição despótica das empresas sobre os empregados). E arrisco dizer que poderão existir situações futuras na minha vida em que, para não perder amizades, deverei ter que me calar. Não sei se vou conseguir... se a amizade e a liberdade de expressão são incompatíveis, então alguma coisa está errada na equação...

Runa

Desapareceu de circulação quando eu deixei de me mover pelas bandas de São João do Estoril, transferindo cada vez mais a minha vida para ...