terça-feira, 10 de julho de 2018

Os Taxistas do Zêzere

O sol é diferente a cada manhã quando se cruza no caminho que diariamente percorro para o trabalho ao longo da marginal. E mesmo nos dias em que se esconde por trás das nuvens, ele está lá para conferir ao dia uma variação nos seus matizes e arrancar a rotina a si própria, tornando único o que, por inércia mental ou desatenção, teima em ser por mim olhado (e vivido) sempre da mesma maneira, por defeito, como garantido.
Antes das sete da madrugada o trânsito é amigo libertando-me a atenção para os detalhes que constroem cada momento fazendo do dia uma experiência única, um bloco singular acrescentado ao edifício da vida
Quando o dia está cinzento, as nuvens carregadas pesam-me no semblante mas o mar que se transforma em rio à medida que percorro a estrada costeira mostra-me que até (ou sobretudo) as paisagens tristes encerram e libertam grande beleza. Se a Primavera ou o Outono, por via da inclinação do eixo da Terra, do movimento de translação ou da mudança de hora, deposita o sol à minha frente (todas as manhãs me desloco no sentido poente-nascente), é outra luz, alaranjada, que se derrama sobre outra água, mais azul, para pintar o postal que, mostrando sempre o mesmo lugar, devolve trezentos e sessenta e cinco ensaios diferentes com que o artista vai aprimorando a sua obra.
O caminho é automático e dentro do carro, a vida divaga: ora deixo que os pensamentos mais teimosos fluam livremente, ora canto uma qualquer canção pela n-ésima vez, ora vou ouvindo os noticiários e as rúbricas de companhia que nascem do rádio. Por defeito, se a luz me encandeia, desloco-me para a via da esquerda de modo a não maltratar algum ciclista corajoso que teime em passar os vermelhos numa estrada que não foi feita para ele.
E vou-me aproximando de Lisboa, do movimento, do trabalho e do campo minado de parquímetros em que se transformou o lugar onde supostamente eu deveria ganhar dinheiro e não gastá-lo antecipadamente. Largada a viatura num dos redutos, cada vez mais escassos, onde ainda é possível fazê-lo sem encher os bolsos de quem nem sempre merece, levo o livro (sempre um livro) para a esplanada do Zêzere onde, antes ainda das sete e meia, me sento e tomo o café (que quase sempre pede um bolo para entrada) que me acorda para o dia. São os dias amenos ou em que o calor mais se faz sentir (àquela hora nunca é demasiado) que me deixam sentar no exterior tornando o momento zen do dia mais aprazível.
À hora a que chego já a coluna de táxis se encontra preparada para atacar a jornada, com os “soldados” que a compõem aglomerando-se em conversas futebolísticas ou politiqueiras, sempre de uma sabedoria que mereceria uma atenção especial da minha parte mas que por preguiça não vou aqui transcrever.
Os taxistas são um bando de arruaceiros. Mas estes não: são gente que conversa normalmente como qualquer outro frequentador de um qualquer café de bairro onde por vezes vou ver a bola; são gente como o sr. Vilela que, ao pedir o seu copo de leite e a sandes do costume, tem sempre uma palavra jocosa para o Zé, o empregado, num salutar embate Sporting-Benfica; são gente afável que não abanam os carros da Uber nem conduzem como se tivessem a revolta à flor da pele num cocktail de Parkinson-Tourette-Epilepsia-Obsessivo-compulsivos, quais suicidas tresloucados ao volante de um transporte de passageiros à solta pelas ruas da capital.
Quando damos o salto do geral para o particular, do preconceito para o conceito, do corporativo para o activo, quando colocamos rostos humanos nos intervenientes de uma corporação, humanizamo-los. Não são estes taxistas em particular que mudam a minha opinião sobre a classe porque estou em crer que, fossem outros os homens que diariamente encontro ao pequeno-almoço, arrancando a conta-gotas à medida da clientela que se aproxima, e eu formaria esta mesma impressão a respeito destes homens. Porque nada do que sei sobre eles os qualifica enquanto pessoas. Apenas lhes confere esse epiteto: perante mim, tornam-se pessoas antes de serem taxistas.
Pela esplanada do Zêzere já gastei muitas horas matutinas e consumir inutilidades que a internet me disponibiliza, já ocupei muitas mais horas com leituras de interesse acrescido quando a alternativa é arrancar para o escritório, já me acompanharam algumas (poucas) horas de escrita no meu portátil jurássico (as horas são poucas porque o PC foi ganhando peso em relação aos seus pares – e por isso transporto-o pouco - e a bateria não me permite escrever mais do que meia página). Mas todas estas horas seriam diferentes se a companhia que os “meus amigos” taxistas me fazem todas as manhãs não existisse. Cada livro seria diferente se a sua leitura não fosse intervalada por uma provocação clubística; cada deambulação por um estudo ou uma notícia inútil e desactualizada perderia o sentido se não fosse enquadrada por um cumprimento a um desconhecido, um dos gestos mais interessantes que nós, humanos, podemos oferecer; cada período a olhar para o vazio preenchido pelos carros que à minha frente se deslocam pela Estrada da Luz não seria notada enquanto tal se não fosse religiosamente interrompida pela Paula, colega de trabalho e ainda mais madrugadora do que eu, que se despede à saída do Zêzere (senta-se sempre na mesma cadeira, no interior do estabelecimento) de partida para a Torre onde ambos trabalhamos, pouco antes de eu lhe seguir o exemplo.
E apesar de cada dia ser diferente, estes personagens marcam uma presença quotidiana na minha vida e quando eles deixarem de me aparecer (ou eu deixar de lhes aparecer), tudo será diferente durante um tempo (mais para mim do que para eles, julgo eu), mas tudo voltará a ser normal pouco depois.


Lisboa, 22 de Junho de 2018

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Orgulhe!

Não sei até que ponto me interessa encontrar a resposta para a pergunta Até quando é possível continuarmos a gostar de fazer algo para o qual não temos qualquer aptidão? Ainda que, num assomo de boa vontade, eu conceda admitir que com trabalho e perseverança o aperfeiçoamento é possível (a utilização da palavra ‘aperfeiçoamento’ está carregada de um optimismo por demais ingénuo no caso concreto), não deixa de ser verdade que não nasci para dançar (se é que alguém nasce para coisa alguma neste mundo).
Mas gosto.
Isso é para mim o mais curioso porque, apesar da frustração e de há meses sentir que ando a malhar em ferro frio, não deixo de gostar e de continuar a tentar, o que constitui uma novidade e até motivo de algum espanto uma vez que não faço ideia do porquê desta insistência quando está na cara que o jeito para abanar o corpo é uma virtude que não quer nada comigo.

O Orgulhe! não é um festival; não são férias; não são aulas; não são festas; não é dança; não é praia; não é profissão; não é amizade... e no entanto, é tudo isso. Poderia tirar todos os ‘nãos’ que as afirmações continuariam verdadeiras.
Quando me inscrevi, cerca de dois meses antes, fi-lo para os últimos dois dias do evento (que tem a duração de quatro). Não tirei férias nem coloquei tal hipótese: gosto de dançar mas não ao ponto de alocar dois dias livres para isso, ainda que o Orgulhe! tenha tido lugar no sotavento algarvio, a minha região favorita do sul do país (reminiscências da infância talvez, dos muitos verões passados em Vila Real de Santo António…). A localização foi aliás um factor com um peso determinante na decisão de ir (eu arriscaria até a dizer que foi mais importante do que a dança). Tão descontraído e entusiasmado estava eu quando confirmei a minha presença que só semanas mais tarde percebi que iria faltar ao aniversário do meu pai…

Como sempre, não liguei aos anúncios a respeito do evento, dress codes para as diferentes noites, pontos de encontro, etc… senão quando parti: sabia onde tinha de ir ter e a hora a que nos reuniríamos para o jantar.
Dei boleia à Margarida, que me salvou de uma viagem entediante pelo meio do deserto alentejano no final da tarde sexta, tendo chegado ao aldeamento pelas oito da tarde onde a primeira coisa que fiz foi dirigir-me à casa onde pernoitaria para tomar um g’anda banho (mal sabia eu então que aquele seria o único banho decente que eu tomaria durante todo o fim-de-semana). Uma casa de quatro é relativamente tranquila, pensei eu enquanto deambulava pelas ruas e relvados de Pedras d’el Rei ,já lavadinho, à espera de conhecer os meus companheiros de casa. O ponto de encontro para o jantar havia passado das 21:00 para as 21:30 pois o grupo que havia iniciado as actividades estava atrasado (percebi que, mais do que uma excepção, a descontracção perante o atraso é aqui uma forma de estar na vida). A dada altura começa a entrar-me gente pela casa… uma miúda nova, um gajo grande, uma rapariga pequena, outra, mais um tipo, outro… contei oito quando resolvi sair da Residência Espanhola em que se havia convertido a casa que me acolhia, com a convicção profunda de que não iria dormir nada, uma modalidade que não me é estranha dadas as poucas horas de sono que utilizo para carregar baterias (apesar de não ser como o presidente Marcelo que não dorme nem precisa… eu, embora não durma, preciso, e por isso uma parte não desprezível do meu dia é composta por bocejos e sonolência, mas como a praia fica à distância de um comboio do aldeamento, posso sempre encostar-me… pensei). Consegui ainda assim perceber quem eram os hóspedes e os ‘penetras’ da minha casa: aparentemente, uns vinham apenas tomar banho.
Fomos jantar ao Chicken Piri Piri para dançar pouco depois numa sauna contigua àquela onde comemos e onde fazia um calor que me torrava o cérebro e os movimentos (desta vez a desculpa que encontrei para a performance falhada foi o calor).

Dormi quatro horas.

Os doces algarvios e a cafeína de classe mundial (a avaliar pelo preço) acordaram-me nos dois dias em que por ali andei, bem como um mergulho matinal na praia após o trajecto no comboio que atravessava a ria. Tenho tido sorte com o tempo sempre que venho para estas bandas e este fim-de-semana não foi excepção: água fantástica, sol agradável e pouca gente na praia. Depois: toca de ir para os workshops.
Um ambiente é construído por uma mescla de lugares, programas, planeamento e materiais, mas o que agrega tudo isto num todo maior do que a soma das partes são as pessoas, e essas foram brilhantes… da organização da Célia e do Lino onde nada era motivo para stress (pelo menos aparentemente) mas sim para boa disposição; dos professores, uns que eu já conhecia (não obstante eles não me conhecerem) e outros que nunca havia visto; e dos participantes, essa massa heterogénea onde apanhamos de tudo mas onde tudo foi bom.
Se há um ano me dissessem que eu estaria a dançar (por facilidade de linguagem falo como se dançasse senão teria de estar constantemente a explicar que na realidade não danço mas arrasto os pés, bla, bla… o que seria fastidioso) eu não acreditaria quanto mais dançar na praia… se me dissessem que iria tomar banho num balneário de um bar de praia para me preparar para a noite cujo dress code era ‘brilhante’ (fui de calções e t-shirt) onde uma moeda de um euro dava direito a três minutos (quatro no máximo) de água quente tendo eu que me desdobrar, qual contorcionista em fast forward, para conseguir tirar todo o sal que os muitos mergulhos ao longo do dia me agarraram ao corpo bem como a areia que teimava em não desgrudar antes que a água esgotasse (a experiência do Caminho de Santiago, há um mês, ajudou e de que maneira a desligar o ‘complicómetro’ nestas paneleirices logístico-confortáveis).

A noite foi fantástica, tal como o entardecer havia sido pouco antes; confirmei que gosto mais de bachata do que de salsa, que o entardecer é a meu momento do dia preferido e que dois ou três copos de vinho me queimam o paladar fazendo de mim um ‘bom garfo’, capaz de apreciar manjares que sempre havia recusado.

Dormi quatro horas.

No último dia não tomei banho senão no mar (e também quando cheguei a casa, já próximo das três da manhã).
Mais dança, mergulhos e uma decisão de última hora que me levou a ficar para a actividade da tarde e para o jantar, algo que sabia que iria tramar a segunda-feira de trabalho, mas isso só seria noutro dia.
No paddle que fizemos na ria, a grande ‘cansera’ com que o Lino não se cansou de qualificar o passeio ia sendo boicotada: bem que tentei virar (inadvertidamente) a prancha mas não fui bem sucedido nos desequilíbrios. Epá! Quem é que está a fazer isso?! dizia ele como se eu estivesse a fazer de propósito (eramos ora quatro ora cinco na prancha, de acordo com o êxodo de alguns distintos exemplares da espécie ‘orgulhosa’ que não encontravam poiso em prancha alguma… julgo que o quinto lugar disponível foi ocupado pelo menos por três nómadas).

Jantámos e partimos às onze da noite (a Ana juntou-se a mim e à Margarida para o regresso) e a viagem decorreu tranquilamente.

Dormi três horas.

Achava que tanto atraso não era para mim.
Mas foi.
Achava que a confusão (da falta) dos banhos, praias e afins não era para mim.
Mas foi.
Achava que dormir pouco nas únicas noites disponíveis não era para mim.
Mas foi.
Achava que estar no meio de desconhecidos não era para mim.
Mas foi.
Foi de tal forma que para o ano voltarei.


Lisboa e Caparide, 28 de Junho de 2018

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A Feira

Descobri recentemente mais um motivo pelo qual gosto tanto de feiras. Não das feiras onde se negoceia roupa contrafeita e toda a espécie de bugigangas ultrapassadas, das mais hi-tech como os DVDs ou os CDs às tradicionais loiças, talheres, panos ou toalhas de qualquer índole, que me parece sempre já ter visto na “casa-museu” da minha avó ou de uma tia-avó, e cujas razões para que tenham perdurado no tempo se prendem com um misto entre um gosto genuíno pela marca de uma época passada e uma vontade de, através dos objectos, não permitir que os entes que eles nos lembram, nos fujam tão depressa.
Do mesmo modo, já não me fascinam as bancas temáticas de selos, postais, moedas, pacotes de açúcar, cromos e outros artigos tão inúteis quanto o orgulho de que nos enchiam quando consultávamos a colecção que em conjunto formavam e que, passada a era do material para a era do digital, não deixam de transformar a nossa casa no museu para o qual um dia os netos olharão tal como nós hoje olhamos para a casa dos nossos avós. Em tempos cheguei a dispensar a minha atenção ao que estes “antiquários dos pobres” tinham para venda, mas hoje julgo que apenas os alfarrabistas resistem a esta era da modernidade dos costumes com que a vida me vai mudando. Talvez porque a forma dos livros é a mesma há cem anos, apesar das tentativas de assalto e violação continuas mas sem sucesso (felizmente) por parte de fotocópias e-books, e tablets.
As feiras que fazem o meu dia têm ginjinha, farturas (que, com o avançar da idade, me começam a “cair mal”), pipocas, algodão doce, bifanas e pão com chouriço; concertos de música pimba e imitações mais ou menos rascas de bandas de renome; bailaricos onde dançarinos e “pés-de-chumbo” bailam lado a lado, longe da presença dos pruridos da night; ranchos que nos trazem sons de sempre e um “gostinho a antigamente”; rifas onde o brinde é uma certeza à partida, ainda que possamos ficar com um balão ou um rebuçado por um ou dois euros na mais bonita inversão do binómio probabilidade-beneficio quando comparado com o Euromilhões; jogos para derrubar objectos que, de tão fáceis que se nos afiguram, largamos logo o euro para constatarmos, mal nos colocam na mão as esponjas (mais leves que o ar) que é suposto lançarmos, de que fomos enganados; vendas de doces de outros tempos como chupas em forma de chucha que me levariam uma tarde inteira a desbastar e ainda assim, creio que se me gastava a língua antes de se acabar o açúcar; brinquedos que já não se usam a não ser pelos miúdos que, devido à idade ou ao gosto que ainda fazem em ser crianças, insistem em disparar uma simples espingarda de água ou de ventosas (desde que não se mostre numa rede social porque então, torna-se “viral” e traumatiza as criancinhas); diversões de toda a espécie, dos carrocéis mais simplórios para dar o direito aos mais pequenos de serem felizes, passando pelos “carrinhos de choque” onde os putos têm oportunidade de mostrar os primeiros orgasmos da sua virilidade, até às montanhas russas mais ou menos assustadoras (nestas feiras nunca o são em demasia) nas quais quase sempre “pico o ponto” de cada vez que lá vou, apesar do friozinho na barriga quando o click que me prende ao assento me diz: agora vais mesmo voar; estacas e tijolos de aspecto duvidoso que sustentam grande parte dos divertimentos, como que para aumentar os índices de adrenalina, reduzindo ao mínimo a nossa percepção do nível de segurança ao qual nos vamos prender para sermos lançados; “mânfios” do ar mais “manhoso-presidiário-chunga” que só encontro naquele ambiente, mas que ali aparecem como os “doutores da minha segurança” em quem me vejo obrigado a confiar se quiser sair dali com vida; barulho de máquinas, anúncios contínuos e repetidos ao microfone, luzes de todas as cores e alternâncias, azáfama, movimento e uma série de estímulos combinados que conseguem conduzir-nos por um estado de “deixa andar” (se eu fosse ordinário diria “que se foda”) o qual os mais novos reconhecem melhor em frente ao visor de um aparelho tecnológico do que nestas experiências às quais (ainda) chamamos “reais”…
Se eu olhar para cada um destes aspectos, provavelmente não gosto muito de nenhum deles (excepção feita às comidas, claro). Mas o conjunto resulta tão bem nas sensações que por mim passeiam de cada vez que me vejo no meio destas feiras que pouco importa se gosto menos de subir a vinte metros de altura ou se ganhei um CD dos Diapasão quando já nem leitor tenho em casa.
Poderia explorar outras ideias que me vêm à mente a propósito destas festividades de Verão como o facto de, ao terem feito parte da minha infância, se revestirem da importância que hoje lhes atribuo, ou a questão de ali conviverem diferentes classes sociais como em poucos meios se vê (talvez na praia) pois no cagaço com que nos borramos, por exemplo na roda gigante (nós, os que temos vertigens) quando o vento nos vai enregelando à medida que, devagar, o vamos desafiando, é igual sejamos nós o punhos de renda da alta finança ou o grunho lá do bairro. A razão pela qual tanto gozo me dá estar neste lugar é a sensação de me movimentar num sítio que hoje é assim mas que há cinquenta anos já o era: estas feiras são autênticos documentos históricos que ainda não passaram para o papel. O ambiente é impossível de replicar, seja num parque de diversões ou numa feira de ladrões, porque esta simplicidade congrega ambas as experiências e amplia-as, não permitindo que o artificialismo tome conta da nossa vida enquanto por lá nos demoramos pois sabemos ao que vamos: a ginjinha sabe sempre ao mesmo, os mal-encarados vão-nos pedir o bilhete e trancar o ferro sobre o assento sem nos dirigir qualquer palavra (talvez uma baforada) e a música que ali ouvimos parece-nos toda igual, passem eles o Apita o Comboio (mega-sucesso que já conta com vinte e cinco anos) ou o último plágio do Tony Carreira.    
O motivo que andou escondido toda uma vida, pode não ser grande, mas gosto de aproveitar as coisas que aprecio do passado e estas viagens no tempo acontecem-me em cada Verão. Tenho a sorte de ter amigos que gostam de partilhar experiências destas, com ou sem filhos, porque as feiras assim, são dos poucos programas de lazer que não encontro o sentido em desfrutar sozinho.


Caparide, 16 de Junho de 2018

domingo, 10 de junho de 2018

AL – Fábrica de Materiais Eléctricos, S.A.

Os fados saíram do seu ambiente característico para viajar até à Marinha Grande, mais concretamente ao auditório José Vareda no Sport Operário Marinhense. O auditório assemelha-se mais a um pavilhão gimnodesportivo mas o preciosismo prende-se mais com o enaltecimento do ambiente criado num local polivalente do que com o enxovalho elitista pelo qual eu, rato de cidade, poderia enveredar.
A noite era de Festival da Canção e por isso mesmo, ideal para uma fuga daquele triste desfilar de pop pastiche que este ano aconteceu em Portugal: a nossa música cumpria na perfeição a missão de chamar a morte pelo segundo ano consecutivo, mas se no ano anterior, Amar pelos Dois primou pela originalidade, coragem e uma melodia bonita, O Jardim não chegou a florescer remetendo o festival para o lugar que ele tem ocupado na minha vida desde 1996 quando Lúcia Moniz conseguiu um brilhante sexto lugar com O Meu Coração Não Tem Cor composta pelo saudoso Pedro Osório. Foi por isso a noite perfeita para ouvir música.
E com o ambiente bem pintado a meia-luz lá nos sentámos na mesa que nos calhou, tal como num casamento quando temos que aceitar com risos amarelos e alguma boa vontade a companhia que nos cai em sorte à volta do círculo que nos força violentamente e encarar os olhares desconhecidos, o que raramente acontece nos jantares de amigos em mesas corridas.
O pão, o queijo, os salgados e o chouriço que, juntamente com as bebidas, constituíam as entradas já dispostas em cima da mesa, deram o mote para que eu lançasse duas ou três palavras ao homem que se encontrava ao meu lado Por mim comia isto o resto da vida: queijos, enchidos, pão, vinho. Só falta a sobremesa: adoro isto… respondeu-me que também gostava daquilo mas que tinha de ter algum cuidado e perguntou-me como é que eu conseguia permanecer magro a comer aquilo. Cortar numas coisas, sobretudo no arroz e na batata, para poder comer outras, e treino no ginásio. Mas eu era gordo: perdi vinte quilos! “Era o que eu devia perder”, disse ele concluindo de seguida que estava com cento e vinte quilos!
Quando lhe perguntei se gostava de fado, o “Sim” com que me respondeu serviu como entrada para o anúncio de que havia vivido em Lisboa. E é daqui? perguntei curioso. Não era: era alentejano e a mulher, que o acompanhvaa à mesa do lado contrário àquele onde eu me encontrava, era da Nazaré. Fugiu de casa aos treze anos de idade porque o pai, padeiro, queria que fosse trabalhar com ele mas o meu “companheiro de conversa” não queria trabalhar de noite para os outros comerem de dia. Não era baptizado pois o pai defendia que deveriam ser os filhos a escolher a própria religião (para sorte do meu amigo, não tinha a mesma opinião a respeito da profissão). Se calhar ele é que tinha razão, diz ele com honestidade mas sem qualquer ponta de saudosismo.
Enquanto os fados não começavam, íamos aprofundando este conhecimento que só não foi mútuo uma vez que, por cada parcela de informação que deixo escapar da minha vida ele oferece-me dez partes iguais do seu próprio percurso… Havia um lavrador (ou seria um prior?) lá na terra que oferecia vinte escudos a quem se baptizasse. Aos treze anos baptizei-me, recebi os vinte escudos e comprei o bilhete de autocarro para Lisboa. Passei a primeira noite num banco da Avenida da Liberdade, junto ao edifício do “Diário de Notícias”. Tinham-me dito que no “Diário de Notícias” saía uma página com os empregos e eu queria ver a página do dia seguinte.
Mais tarde nessa noite confessou-me que tinha oitenta e um anos e a mulher oitenta e três o que remete a sua chegada a Lisboa para o ano de 1950. Disse-me ser casado há cinquenta e quatro anos, frase que faz nascer de imediato um sorriso nos lábios da mulher que foi acompanhando com mudanças de expressão e alguma atenção a conversa que entre nós foi fluindo. Quando lhe perguntei qual era o segredo, começou por me responder com alguns risos (que não percebi se eram de atrevimento se de paixão… talvez ambos) para esclarecer que o segredo é estimarmo-nos muito e sabermos respeitar o casamento. Nós somos um… Mas isto aconteceu no segundo intervalo das actuações, na altura em que chegaram as filhós e o café depois de termos enchido o bandulho com tudo a que tínhamos direito, e a um preço que deveria fazer corar de vergonha os valores praticados em Lisboa pelos escroques que se aproveitam do fado para manter as casas do género prisioneiras das elites, coisa que o fado nunca foi.
Fui trabalhar para um restaurante próximo do Largo do Calvário (o nome contemplava a palavra “Andorinhas” mas não o memorizei nem não me ocorreu perguntar uma vez que a conversa prosseguiu o seu caminho). Davam a comida, que era o mais importante, a dormida, numa pensão ali perto e ainda pagavam qualquer coisita.  
A música interrompeu a história neste ponto mas nem por isso o lamentei: gosto de fado quanto baste para o poder apreciar sem me deixar dominar por um conhecimento demasiado aprofundado e fui apreciando os artistas, com a certeza de qua a segunda parte do filme da vida do meu companheiro começaria mal terminasse o primeiro período da verdadeira música popular. A avaliar pela forma como muita da gente que nos rodeava estava trajada, notava-se que é um acontecimento e tanto. Os enfeites estavam a preceito com um xaile ou uma guitarra a ajudar a criar ambiente para que se pudesse cantar o fado.
Tirei a quarta-classe à noite pois com treze anos já não podia ir estudar com os putos disse-me ele depois dos merecidos aplausos que encerraram a primeira parte. Sempre trabalhei de dia e estudei à noite: passei depois para a “Marquês de Pombal”, a escola industrial que por sorte era ali perto, e a seguir entrei para o Técnico, em Engenharia Electrotécnica. Acho que sou um autodidacta conclui ele com orgulho. Quando lhe perguntei se trabalhava no ramo, comunica-me que possui a “maior fábrica de materiais eléctricos da Peninsula Ibérica, AL – Fábrica de Materiais Eléctricos, S.A.”: cento e vinte colaboradores em Portugal, cinquenta em Bilbau e quarenta na Polónia. Já dou de comer a muita gente.
Não sinto particular admiração pela gente que dedica a sua vida ao trabalho mas não consigo deixar de me encantar com a genuinidade e o orgulho que sentem aqueles que conseguiram alcançar algo na vida: o sentimento de regozijo pelas metas alcançadas, isso sim, é algo que me fascina.
O peso excessivo que facilmente lhe poderia abandalhar o aspecto não belisca o ar destinto que aparenta e que a sua conversa, educação e simpatia para tal contribuem. Os óculos cuidados digladiam-se com algumas unhas esquecidas pelo corta-unhas que se lhe prolongam nos dedos (e que desconfio não se deverem à guitarra). E finalmente tomo conhecimento do seu nome e do da mulher: Armando e Odete Lopes (daí o “AL” no nome da empresa).
O tio da minha mulher tinha uma mercearia na Rua (? não me lembro do nome…) e gostava muito de jogar às damas. Eu também gostava e foi por jogar com ele que a conheci. A minha mulher “foi-me buscar a Lisboa” e viemos morar aqui para a zona. Eu tinha cá na ideia que não queria casar com uma rapariga de Lisboa.
Estive dois anos na Índia onde fiz a tropa e ensinei português. Quase que jurava ter ensinado o nosso primeiro-ministro António Costa. Depois estive seis anos embarcado na marinha mercante até que me estabeleci por cá.
O início de nova série de fados traz-me alguma satisfação: gosto desta alternância, do espectáculo dentro do espectáculo, o público entrelaçado com o intimista, e tudo isto bem suportado pelo caldo verde, pelos enchidos e pelo pão e regado com o que bem entendêssemos: no meu caso comecei no vinho mas não quis arriscar perder o foco da conversa que me preenchia os interlúdios e mudei para a água após o segundo copo.
A música é boa mas a conversa é melhor, no entanto, o intervalo demasiado longo, se me permite tirar proveito deste contacto tão inesperado quanto simpático, traz consigo o sono e alguma saturação. Mas lá vou conhecendo um ou outro fado… Quando a tristeza me invade, Canto o fado… que vai desfilando à nossa frente.
Até que surge a última oportunidade para que o meu amigo Armando Lopes complete a sua história. Mas sou que começo por lhe falar da minha família, da Marinha Grande e de como ali vivi até aos cinco anos, do porquê da minha mãe lá morar e de eu nunca ter deixado de lá ir. Uma espécie de retribuição (sem qualquer obrigação) pelo belo tempo que me proporcionou. Falar da Marinha deu o mote para avançarmos no tempo… Vivi na Ordem durante vinte e dois anos, perto da casa do “Chico Pintassilgo” diz o Armando perguntando-lhe eu de seguida se esse não era o Morgado? Sim, o Francisco Morgado. Sei quem é (ou quem foi): chegou a ir almoçar a casa da mãe que fica muito perto da casa desse Morgado.
Há trinta anos na Marinha Grande, tem um bisneto com três que sai ao avô no que toca ao apetite. Repete que deveria perder vinte quilos, tal como eu. Falamos sobre Lisboa e sobre o fado que ou é turístico ou elitista. Digo-lhe que por doze euros não se consegue uma noite de quatro horas de fados com caldo verde, chouriço assado, bebida, sobremesa e café. O fado em Lisboa está mais “postiço” (mas não creio que ele tenha ouvido esta parte).
Continua a trabalhar embora tenha entregue a gestão da fábrica a um filho. No entanto, lá vai aparecendo “para ver como vão as coisas” e dar a opinião sempre que a mesma lhe é solicitada. Tem actualmente uma pequena fábrica de deck (que me explica de forma sucinta que mais não é do que pavimento em madeira) em frente a sua casa que gere “para se entreter”.
Este foi meu colaborador; aquele foi meu fornecedor… vai dizendo à medida que passa os olhos pela sala enquanto a luz volta a baixar para introduzir a terceira e última parte do espectáculo.
No final despeço-me do meu amigo Armando, um simpático industrial à antiga que me ajudou a tornar aquela noite mais memorável do que eu pensava: dos fadistas, um homem e duas mulheres, recordo apenas o apelido de uma delas mas a conversa, essa ficou gravada.

Biblioteca de São Domingos de Rana e Caparide, 13 de Maio e 10 de Junho de 2018

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Irmão de Gelo

Sobre o que damos de nós:

“(…) em que ponto o verbo dar se aproxima do verbo ser, ou seja, o que se “dá” de “si próprio”? Porque uma relação implica sempre esta troca entre um e outro, este ir e vir que os objectos apenas materializam.”

A coragem de Alicia Kopf em levar por diante um projecto que se distingue dos demais revela uma ousadia e uma sinceridade que eu invejo. Irmão de Gelo é uma obra original, bem escrita, intimista e realista na qual encontro pontos onde me revejo. Os períodos em que nos sentimos perdidos variam de frequência e duração consoante o que somos e as vidas que levamos, mas é raro existir quem nunca se perdeu. É essa exposição à fragilidade e a forma de a encarar que Alicia Kopf descreve de forma sublime.
Aludindo a uma estrutura em jeito de diário, o texto vai alternando a descrição da vida da autora e daqueles com quem ela se cruza, com o fascínio pelos pólos (os pólos físicos, o Norte e o Sul) e a sua exploração, metáfora para a descoberta em busca da qual partimos, tentando quebrar o gelo que nos prende dentro de nós próprios e ao mesmo tempo nos impede de chegar ao interior que queremos encontrar.

Os desejos congelados de quando não se tem dinheiro ou não se é correspondido são diferentes daqueles que congelamos porque renunciamos a eles. Estes últimos têm o brilho de uma heroicidade estoica. Porém, se renunciamos aos desejos é porque temos medo e passámos a vida cegos, sem nada sentirmos ou vermos… Por outro lado, se lhes obedecermos sempre podemos acabar perdidos. O que converte Ulisses em herói é que renuncia e não renuncia. É prudente sem se privar do desejo ao permitir-se ouvir o canto das sereias.

Sobre o lugar onde queremos chegar:

Aquilo que para ela representam os pólos representa para mim a montanha, mas quando dei corpo a esta comparação durante a leitura, aparece-me um capítulo onde a autora relaciona o gelo com a montanha, por oposição ao mar “Para Simmel, o mar age por empatia à vida, e os Alpes por abstracção.”. E com isso estragou-me o efeito…
Tenho os Andes e os Himalaias como as viagens de sonho: montanha e gelo, refúgio do mundo, silêncio de vento, deserto em altitude, realidade congelada pela ousadia. Poderia simular um ponto em comum, irmanar-me com a autora, mi hermana de hielo, de la montaña, de la busca por los lugares donde nos perdimos para volver renacidos… seria forçado mas a arte, e em particular a escrita, além da profundidade e da originalidade, tem nas associações que é capaz de estabelecer onde outros nada vêm aquilo que a distingue das demais formas de interpretação do real, seja na ficção, na crónica, no ensaio ou na escrita documental. Porque não é de causa-efeito que falamos mas de relações mais sentidas do que dissecadas, mais casuais do que pensadas. Não cairei na fórmula fácil ao estabelecer relações quase-forjadas, forçando uma identificação que, mais do que real, existe no mundo do subjectivo, do relativo, do imaginado? Talvez… mas se assim for, tudo é forjado.

“Uma parte de mim gostava de estar em casa, de ter uma vida familiar. A outra tem vontade de aventuras. Não encontrei ninguém capaz de me seguir nas duas coisas.”

Sobre os heróis:

Ao ler uma passagem desta obra tão singular, recordo as tardes da minha adolescência onde assistia ao tour, ao giro e à vuelta. Numa vuelta em particular, vejo uma etapa onde um herói solitário calcorreia dezenas de quilómetros, deixando o pelotão a extensos minutos de distância. Busca a vitória do dia e com isso, a sua parcela de glória. Na perseguição vem o camisola amarela, Laurent Jalabert, com o pelotão no seu encalço encabeçado por Abraham Olano creio. Jalabert vai alcançar o fugitivo manchando de injustiça um esforço solitário perante o trabalho de entreajuda com que os perseguidores se foram revezando. E no momento em que o hipotético vencedor é ultrapassado e o desânimo ameaça relegar para o esquecimento uma etapa de esforço sobre-humano, algo de anormal acontece no pequeno ecrã: Jalabert desacelera e chama por quem teve o mérito de acreditar quase até ao fim. Ganha ânimo o desconhecido e juntos cortam a meta com a vitória a caber a quem mais fez por merecê-la. Olano vinha desenfreado e quase estragava o gesto.
Não sei quem ganhou a etapa, mas sei que o herói do dia foi Laurent Jalabert. A atitude valeu bem mais do que a camisola amarela que acabaria sua no final da prova. Provavelmente, se precisasse de ganhar a etapa a história teria de ser reescrita, mas tal não aconteceu e foi assim que teve de ser. É no desporto que a simbologia dos actos heroicos é mais vistosa mas é no quotidiano que eles produzem mais efeitos, mais duradouros, mais significativos. Porque a vida real é cá fora, no dia-a-dia, e desses heróis, congelados no frio desinteresse da realidade, pouco fazemos por saber.

O alpinista Ferran Latorre abdica de chegar ao cume do Evereste para resgatar um xerpa doente.

Foi esta a frase que trouxe até mim a vuelta de 95. Uma rápida pesquisa na internet preenche os espaços que a memória deixou em branco e nomeia todos os heróis: o fugitivo solitário chamava-se Bert Dietz, andou fugido por mais de 230 kms e o final da etapa era “só” no alto da Sierra Nevada! O vídeo do final da etapa está no youtube e ao revê-lo, sinto quão belas podem ser as acções simbólicas.

Sobre a família:

Quantas famílias se sustentam nos fundamentos do que não é dito? E em quantas o rei janta nu todos os dias à mesa? Porque, no dia em que se descobrir o segredo, já não vamos poder olhar para a cara uns dos outros.

Em O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde escreveu que “As crianças começam por amar os pais enquanto pequenas. Ao crescerem tendem a julgá-los. Por vezes perdoam-nos.”.
As fragilidades inerentes ao papel da família são abordadas e talvez se constituam mesmo como fio condutor deste texto. No núcleo familiar em que nos refugiamos, perante a ausência de referências gerais pelas quais as famílias possam orientar os seus comportamentos, resta pouco a que nos possamos agarrar quando elas (as famílias) falham. E quase nunca o fazem em absoluto mas sim em face da pessoa que somos: na presença de um “insucesso educacional”, fosse o filho um ser diferente e o mesmo comportamento familiar, a mesma educação, a mesma convivência poderiam converter-se num sucesso. A linha é ténue e de difícil identificação sendo possível observá-la apenas pelo comportamento de quem sofreu as consequências da disfuncionalidade transmitida (pequena aos olhos do mundo, gigante na intimidade).
Alguém ser capaz de se expor desta forma e conseguir descrevê-lo com a clareza com que o fez (também) faz deste texto um triste e belo tratado – tantas vezes as coisas tristes têm tanto de belo – de psicanálise.

Sobre o amor:

“ (…) deve sentir-se tão desorientado como eu sempre que acabo uma relação sentimental. Porque, tal como com o amor, o seu centro não está totalmente dentro de si mas uma parte está fora, no outro.

(…) Porque me davas todos aqueles presentes? Agora arrependo-me de não ter feito o mesmo: oferecer-te roupa, sapatos, perfume. Tudo aquilo que pudesse prolongar a minha presença em ti.
Porque os objectos duram mais do que os sentimentos.

Sobre o que fica de uma obra:

Bull’s eye!

Chegado ao final, acontece o mesmo de sempre: o confronto entre a expectativa que fui criando, as sensações que me acometeram ao longo da leitura e o desfecho, o que fica após a última palavra. Tantas vezes o remate final redunda em desilusão que não deixa de se revestir de um carácter altamente provisório opinar sobre um livro antes de o terminar. E mesmo após fechar a história, é necessário tempo para deixar sair o entusiasmo momentâneo e perceber se o que ficou da leitura é resíduo ou substância.
Ainda não passou esse tempo: terminei hoje de ler Irmão de Gelo.
História sem história; o peso e a leveza; anjos e demónios; simples e complexo. Tudo tem um contrapeso e não estou certo se, para se ser um verdadeiro criador, não necessitaremos de ter fantasmas para derrotar, pesos para aliviar, obscuridade para iluminar, incompreensões para descomplicar… não tratará a arte de descodificar através do belo, do fascinante, do grotesco ou visceral aquilo que, estando acessível, não queremos aceder pela plataforma comum onde convivemos?
Isso foi conseguido.

Polir é uma maneira de desgastar.
(…)
Pergunto-me se, depois de todos estes anos de estudo, trabalho e relações amorosas mais ou menos falhadas, me poli ou me desgastei?

Assim, mais do que sentenciar se o final me desiludiu, se o livro é bom ou se está bem construído, consigo dizer que não me deixou indiferente. E sei que os pontos de identificação que tão facilmente estabeleço com uma obra que não me deixa indiferente se vão esbater. Só então saberei se Irmão de Gelo será substância ou resíduo na minha vida. Até lá, a sua matéria vai alternando: nuns momentos é substancial; noutros residual.
 
A única coisa que me devolve a força é escrever: construir sentido. Será que me meti em todas estas confusões para depois escrever sobre elas? Acreditei numa relação incrível para ver até onde me levava narrativamente? Talvez a escrita me reclamasse e eu volatilizei tudo sem ter consciência quando cheguei ao limite? Escrever é o veneno e a cura. Ou, como dizia Clarice Lispector, escrever é uma maldição que salva.

Lisboa e Caparide, 13 a 15 de Março de 2018

sábado, 5 de maio de 2018

O Processo Criativo

Quem escreve
Reparte perguntando a quem serve
Se a ideia da palavra é forte e leve
Sem nada resolver
Nem sim nem não
Quem escreve
Resume amplificando o dia a dia
Procura mais poesia na poesia
Desmonta construindo
A solidão
Quem escreve
Repara sem reparo apenas vê
Agita o pensamento de quem lê
Dá mais caminho ao sonho que
Fugisse

Quem escreve
Aponta o argumento a entrelinha
A virtude da escrita é ser sozinha
Escrevendo a folha em branco
Que não disse

Quem escreve
Destrava o catavento que lhe indica
O rumo da leitura que não explica
Escrever é a pergunta em movimento
Quem escreve
Liberta ainda mais a liberdade
De amarrar as ideias à vontade
Escrever é o tempo todo num momento
Quem escreve
É sempre aquele que habita o pensamento
É sempre o sim ou não do sofrimento
É sempre o não querer o mal menor

Quem escreve
Rebenta pelas costuras de alegria
Às vezes tem o nome que não queria
Às vezes tem o nome de escritor.

Fernando Tordo - O Escritor


Como surge uma ideia? De onde vem ela? E que mecanismos, mais ou menos escondidos, possuímos e são activados para permitir o seu desenvolvimento, percorrendo caminhos que muitas vezes não faziam parte do guião inicial?
Se o processo criador tem quase sempre uma vertente inexplicável, normalmente remetida para o subconsciente onde se estabelecem associações quase fortuitas entre passado e presente, próximo e distante, amor e ódio, amigos e inimigos, o que fomos e o que somos, existe contudo uma parcela que tentamos explicar, justificar ou dissecar, com um conjunto de qualidades e defeitos que identificamos no lado consciente que nos forma.
Olhamos para a atenção que dispensamos ao mundo que nos rodeia, para a capacidade de síntese ou de descrição que desenvolvemos, para o gosto com que tentamos traduzir a realidade através de uma linguagem diferente, ainda que as palavras, a música ou as imagens que utilizamos sejam aquelas que todos utilizam… apenas tentamos combiná-las de forma distinta. E depois, surge o motor que faz mover toda esta engrenagem consciente e inconsciente, que junta as peças do puzzle de modo a começar a dar forma à imagem, a fazê-la parecer-se com algo que faça sentido… para nós… e para os outros: a necessidade. Porque a partir do momento em que uma ideia se forma e o seu desenvolvimento tem inicio, é posta em marcha uma panóplia de recursos que consomem muita da nossa atenção, uma necessidade extrema (não totalmente mas quase) de expressar o que se quer da forma que se quer e que, por ironia do destino, não vem quando se quer, mas quando ela, a ideia, quer…
E pode nunca voltar a vir.
Não sei se possuímos a capacidade de criar o momento capaz de gerar a necessidade de conceber, desenvolver e expulsar uma ideia, ou se é o nosso “eu” mais escondido quem faz esse trabalho cabendo-nos a nós, dominadores da vontade e da razão, a função de receber os sinais e mostrar disponibilidade para os libertar sob uma qualquer forma de arte.
Mesmo que nunca ninguém venha a gostar.
Porque, uma vez ultrapassada a óptica meramente comercial, não importa se existe um milhão, um milhar ou um único ser a gostar daquilo que fazemos. Não o fazemos por eles mas por nós, porque foi essa a forma encontrada que melhor exprime o que queremos dizer, e isso é uma necessidade que temos de transmitir, não uma vontade que o outro tem de receber. Pode acontecer haver quem se identifique e faça gosto em experienciar o que de tão fundo nos saiu, mas encontrar alguém em quem uma obra reflicta algo tem de ser uma consequência e não uma causa.  
A vontade premente de libertar o que sentimos para que o peso nos saia de cima, essa, é só nossa. E surge nos momentos mais inconvenientes, inesperados, engraçados até. Porque podemos estar duas horas em frente a um teclado, uma folha de papel ou uma tela e nada mais do que uma crescente frustração se forme no nosso horizonte interior, como podemos estar num café, no metro ou no escritório e sentir um impulso de tal forma arrebatador que, se não registarmos o que dele é gerado, desaproveitamos o ímpeto deixando passar o “momento mágico” em que o que sentimos está em sintonia com a forma como o exprimimos. Podemos mais tarde tentar replicar as sensações dessa “magia”, mas por certo não sairá como se o tivéssemos feito no instante em que sabíamos ter os astros alinhados.   
É provavelmente a isto que se chama inspiração ou insight. Mas esta aparente falta de controlo sobre o “como” e o “quando”, e a constante tentativa de domar esta aleatoriedade, estruturando o livre brotar de algo que segundos antes podíamos nem imaginar que possuíamos, em algo compreensível, traduzido para uma linguagem na qual nós e os outros possamos identificar qualquer coisa, permanece um mistério para mim. Esta dualidade, se por um lado é o que faz mover a arte, por outro torna a vida de um artista tão incerta, insegura e imprevisível… e se deixa de vir até ele a água límpida desta fonte criadora? E, mesmo que ela não deixe de correr dentro de si, se lhe foge o engenho para dominar a corrente e fazer dela o espelho de água onde muitos possam ver o próprio reflexo?
Os “ses” que em nós plantam o medo são os mesmos que nos fazem avançar. Se nunca mais se der esta confluência de estados, tanto pior, mas se por uma vez na vida a houvermos experimentado e tivermos tido a sorte e a arte para a ter aproveitado, então, ainda que fiquemos com pena de não voltar a sentir tamanha sensação, temos a certeza de ter experimentado algo que alguns nunca chegam sequer a sentir o aroma.
Um pouco como estar apaixonado, só que numa versão mais rara.


“As pessoas que têm um lado criativo e não o vivem são os clientes mais desagradáveis. Eles fazem de uma colina uma montanha, preocupam-se com coisas desnecessárias, estão loucamente apaixonadas por alguém que não merece tanta atenção, e assim por diante. Existe nelas uma espécie de carga energética flutuante que não está ligada ao objeto certo, e por isso elas tendem a aplicar um dinamismo exagerado à situação errada.”

Marie Louise Von Franz in A Sombra e o Mal nos Contos de Fadas, Paulus, 3ª edição 2002


Lisboa, 12 de Janeiro de 2018

sábado, 21 de abril de 2018

Por que vale a pena a Vida?

Um livro que me agarra no aconchego do lar quando leio ao som da chuva; o lar que se dissolve numa esplanada, as páginas do livro iluminadas por um sol que aquece sem queimar, que alegra sem cegar; o livro terminado que me faz mais rico, mais completo, ainda que só eu o reconheça; tal como numa sala de cinema vazia me sinto mais próximo… a sala está vazia e eu estou lá… o filme é belo, tão cheio a projectar-se na sala vazia, e por duas horas esvazio-me de tudo menos do filme que me enche; como me enche um golo do Benfica, de uma alegria que só nós sabemos sentir, adeptos irracionais vibrando entre a lógica e a paixão na mais bela manifestação primária dos nossos dias; primária como o sexo, a explosão animalesca, vivido dentro de portas… é bom; como é bom o amor e a sedução, amizade colorida, galantear quem elegemos, quem nos elege; uma mulher bonita que se atravessa, na rua, na farmácia, no ginásio, cruzamos os perfumes num cheirinho de intimidade; e por vezes tocamos, ao de leve, como quem não sente, sentindo o acaso, intencional, e o toque acaricia, da carícia ao abraço, coração-respiração no compasso da emoção, e finalmente… o beijo… arrepio… saboroso… com fervor, amor, fascinação; acordar sem despertar com o brilho poeirento, caloroso, da aurora atravessando a persiana mal fechada, sonhar ou não sonhar, voltar à vida levemente, docemente, reentrar em cada dia, recomeçar; antes de o amor acordar ao nosso lado, vê-la dormir, respiração de princesa, pureza; um pequeno-almoço, um brunch, um almoço ou um jantar; uma pita ao frio das quatro da madrugada junto à roulotte; iguarias; petiscos, queijo, pão e um copo de vinho, Douro ou Alentejo... e miniaturas, muitas para que pareçam grandes, grandes sobremesas no combate à ditadura do saudável; porquê? porque sabe bem; sabe bem acreditar; em quê? não importa desde que se acredite; acredito, confio, sei, lado a lado com a dúvida do tamanho do universo; é óptimo duvidar, e mágico acreditar… que sei dançar a vida; e a dança é sedução, para quem não dança; é técnica, para quem aprende; é liberdade, para quem quer ir; ir ao ginásio esgotar o corpo que se pensava esgotado, e como é bom cansar o pensamento, vergá-lo ao físico; um duche quente a correr eternamente num dia frio; um duche frio a correr eternamente num dia quente; antes do duche a corrida, junto ao mar ao fim da tarde; andar pela serra, caminhar de paisagem em paisagem, subidas e descidas, bosques e lagoas; desfazer tudo na praia, um mergulho congelado, transpirar sem manchar, mijar sem baixar, biquínis e tudo o mais; o chilrear das flores na Primavera e os cafés de fim de tarde entrando pelas noites de Verão; as férias sem horários; fazer porque sim, porque apetece, porque… sim; mais longe de avião; levantar voo, excitação pelo destino, aprazível regresso, como é bom levantar… e também aterrar; caminhar depois de poisar, depois de voar, levitar de volta à vida; que vida? que vida vivemos? a excepção ou a regra? eterno paradoxo fazer da excepção a regra; fugir à regra, voar, ouvir; um concerto na penumbra de um auditório; piano, Rachmaninoff, de olhos fechados a música é tão pura, uma viagem… longe ou perto, exterior ou interior… sempre viagem, pura, de olhos fechados; abri-los para um quadro, Guernica imponente, que assombro!; olhos que se fecham com uma gargalhada; uma piada, porca, racista, sexista, xenófoba… tão melhor quanto mais proibida; o riso, o sorriso, o olhar… as expressões que rejuvenescem ao conduzir estrada fora, com música, vento, rumo ao sul; sem perder o norte; perdendo-nos no mapa, e reencontrar… as referências: a Família, os Amigos, as Amantes, o riso inocente de uma criança, toda a companhia da longa e única travessia, essa vida tão cheia… e tão vazia de tudo o que a ultrapassa; ultrapassar as barreiras, os limites, o infinito… Fernanda Ribeiro, Carlos Lopes ou Rosa Mota e as medalhas de ouro que me fazem pele de galinha num resumo televisivo, o hino nacional e o golo do Éder, e o do Eusébio contra o Brasil, e o do Ronaldo contra a Juventus? olhar para a infância, encontrar a felicidade que nunca existiu; os piqueniques no pinhal, um banho no rio, um filme até tarde, brincar na rua, coleccionar cromos; toda a vida a coleccionar cromos; construindo, do sentimento ao pensamento, pela linguagem, sob a escrita, que prende e liberta, vicia e expulsa o que temos cá dentro, sem dar descanso senão quando termina a obra; e é puro prazer; ainda que só eu o reconheça; e por que vale a pena a vida? por tudo isto, que é pouco e muito, e por muito mais ou muito menos, é o que temos, para nos comover, ver, viver, e agradecer.


Caparide e Lisboa, 16 e 17 de Abril de 2018

Os Taxistas do Zêzere

O sol é diferente a cada manhã quando se cruza no caminho que diariamente percorro para o trabalho ao longo da marginal. E mesmo nos dias e...