segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Óscares - Parte II


Vi hoje Lincoln (Lincoln, 2012) o último filme de Steven Spielberg com Daniel Day-Lewis sobre os anos finais da vida do presidente americano Abraham Lincoln.
O filme centra-se na luta de Lincoln para aprovar na Casa dos Representantes a 13ª emenda à Constituição Americana, a qual pretende abolir a escravatura. Para tal, tem que negociar com uma facção do seu partido (Republicano) que é contra tal intenção, bem como com os Democratas que constituem a oposição. Simultaneamente tenta negociar a paz na Guerra Civil Americana, que se desenrola há anos. Acontece que ambas as negociações parecem incompatíveis uma vez que, estando a Guerra praticamente ganha pelo Norte, a abolição da escravatura poderia servir como moeda de troca para Lincoln terminar com a guerra. Mas negociar a paz antes (ou em simultâneo) da aprovação da lei poderia fazer cair esta, uma vez que se tornaria difícil convencer os homens da política das boas intenções de uma lei.

O filme tem muitos pontos fortes. Como um todo, é um bom filme, que não cansa, pesem os 150 minutos de discussão de leis que comos convidados a assistir.
As três interpretações principais interpretações são brilhantes: Daniel Day-Lewis está notável (como sempre) num magnífico trabalho de composição, Sally Field é fantástica e Tommy Lee Jones é brilhante (chegando, em alguns momentos a roubar o protagonismo a Lewis) como o representante da ala mais progressista do partido Republicano que tem que refrear a sua posição para conseguir levar a bom porto as suas intenções.
Lincoln é apresentado como um homem ponderado, possuidor de razão antes do seu tempo. Esta caracterização irritou-me um pouco – a glorificação do herói americano – mas o facto de nem todos o respeitarem e da lei ter sido aprovada com uma aldrabice praticada pelo próprio presidente, através de uma artimanha bem à moda dos advogados (algo que permanece até aos dias de hoje) dissimulam um pouco a fotografia heróica em que o filme por vezes se deixa cair.
A cor e os filtros utilizados por Spielberg (e pelo director de Fotografia) estão absolutamente geniais onde sobressai, obviamente, a bandeira americana em mais do que um momento do filme.
Mais ainda do que as interpretações, o que mais gostei neste filme é que é um retrato muito bem apanhado do pensamento americano: o radicalismo conservador e o medo de que uma medida que é da mais elementar justiça venham a transformar o país numa terra de depravação (onde culminaria com o voto das mulheres! :) ) contrasta o sentimento de justiça que alguns pensadores mais livres de preconceitos tentam expor aos restantes.
Nisso, Lincoln é muito honesto: só podia para contrastar com as boas intenções do presidente, mas não deixa de ser muitíssimo interessante ver este conflito ideológico.
Até o desenlace está de acordo com o resto do filme: sabemos como Lincoln morreu e esperamos pelo momento, mas Spielberg troca-nos as voltas… a morte de um anti-herói não poderia ser glorificada como a de um herói.

Um grande retrato de época, grandes interpretações, uma realização seguríssima, um argumento muitíssimo claro e rico no que ao debate de ideias se refere e alguns extras notáveis (repito: a cor e a luz) fazem de Lincoln um grande filme.

PS: Numa perspectiva muito pessoal, continuo a preferir Amor (Amour, 2012), mas Lincoln e Os Miseráveis (Les Miserables, 2012) competem pela 2ª posição na minha escolha so far (tanto quanto estes três filmes tão diferentes podem ser comparados).

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