quinta-feira, 22 de março de 2018

Breve História do Tempo

Durante muito tempo as ciências exactas foram a minha casa, talvez numa tentativa um pouco tosca e por demais imatura de conferir alguma ordem à vida. A Matemática e a Física ombrearam durante grande parte da adolescência pelo lugar mais alto do pódio e foi a primeira quem acabou por vencer, muito por mérito próprio mas muito também por exclusão de partes: com dezassete anos a Física complicou-me a vida e eu perdi qualquer veleidade de que algum dia pudéssemos ser felizes juntos e divorciámo-nos logo naquela altura: reencontrei-a três anos mais tarde servindo apenas o propósito de atestar o acerto da escolha passada ao mesmo tempo que confirmei não ser o bicho papão que me havia atormentado. Ela era a mesma; eu é que era outro.
A pequena colecção de livros de divulgação científica que fui reunindo quando o meu interesse não havia ainda pendido para as letras continha uma série de obras de enorme interesse que ainda hoje seria capaz de ler ou reler. No final da adolescência e início da vida adulta, eu maravilhava-me tanto com os mistérios da ciência e a mestria com que alguns divulgadores brilhantes a conseguiam transmitir quanto me perdia numa licenciatura em Matemática de que fui aprendendo a gostar, ainda que a sua única finalidade fosse pôr a cabeça a trabalhar.
O primeiro livro que comprei da colecção Ciência Aberta da Gradiva chamava-se (chama-se ainda) Breve História do Tempo de Stephen Hawking. Tinha ouvido falar dele numa notícia de telejornal cujo destaque dado à obra dizia respeito ao facto do físico inglês avançar com a possibilidade de se poder viajar no tempo!
Como muitos miúdos, também em tempos quis ser astronauta, também em tempos o mistério do Espaço me fascinou e também em tempos o mistério da existência me arrebatou. Para astronauta o meu CV não joga a meu favor mas os mistérios continuam a visitar-me todos os dias. Um livro apresentado desta forma a um jovem que ansiava por algumas respostas maiores do que a vida só podia fazer com que eu fosse a correr comprá-lo. De imediato o comecei a ler e se completei dez páginas digo-o mais por vergonha e por ficar bem admitir que o fechei com um número redondo do que por qualquer outra razão: nem com a enorme dose de paciência que então tinha (e que se esvaiu ao longo da vida, provavelmente sugada por algum buraco negro) nem com a maior boa vontade do mundo, da galáxia e mesmo do universo eu consegui perceber um boi do que lá vinha escrito… eram estrelas a cair umas sobre as outras e o efeito gravitacional que o fenómeno causava à volta, eram cones de luz que invertiam o sentido do tempo… fechei o livro arrependido pelos mil e quinhentos escudos que tinha gasto.
Mais tarde, com algumas leituras mais na bagagem, tinha eu vinte e três anos, resolvi voltar a tentar e mandei-me com convicção para as viagens no tempo: não percebi metade mas adorei o livro. Até o forrei como se, ao preservá-lo mantivesse intacto o conhecimento que havia adquirido e o impacto que o livro tinha tido. Naquele tempo as capas que faziam uma bela estante eram mais importantes do que o conteúdo dos livros que a formavam. Hoje, não só me estou completamente a cagar para as capas dobradas, páginas riscadas ou letras apagadas, como empresto livros que não mais volto a ver. Pior: empresto livros que sei que não vou voltar a ver! Foi o que aconteceu com a Breve História do Tempo: não sabia que não o voltaria a ver mas emprestei-o e nunca mais o vi. Emprestei-o à A. que estou tão certo de que não ficou com ele por mal quanto estou certo de que nunca o leu na puta da vida!

Stephen Hawking faleceu fez ontem uma semana. Fiquei triste o que é algo um pouco inusitado quando falamos de uma pessoa da Ciência (sem preconceito). Não sei se por nele ver um exemplo de alguém que foi capaz de ultrapassar as adversidades ou pelo respeito que granjeava em cada intervenção que fazia, sobretudo quando se afastava da Ciência para olhar para o futuro, o mesmo para onde defendia ser possível viajar, e tecer sensatos avisos que poucos ousavam não levar a sério. De uma coisa tenho a certeza: não era pelos seus conhecimentos científicos que eu o admirava e muito menos foi essa a razão que causou em mim alguma tristeza aquando da partida daquele homem.
A sua vida é sobejamente conhecida, tendo inclusivamente tido direito a filme. A sua morte espalhou pela internet, facebook, etc… um sem número de frases feitas, aparentemente proferidas por Hawking, despoletando uma constelação de posts avulsos, como se de lições do Dalai Lama, do Paulo Coelho ou do Osho se tratasse, emolduradas com honras de estrelas, galáxias e universos por trás e tudo! O respeito que aquele homem construiu concedeu-lhe o direito a ombrear ao lado daqueles que mais facilmente chegaram às massas e repito, alguém da Ciência, e com as limitações que ele tinha, conseguir isso, é de génio.
Confesso que me fiquei pela Breve História do Tempo em detrimento das lições sobre a destruição da humanidade, olhar para estrelas e não para o chão ou as regras para ser feliz. E o facto de me ter ficado pelo lado científico de Hawking não significa que eu seja mais objectivo: uma vez que não percebi metade do que li, abri um espaço gigante para a crença desempenhar o seu papel. Mas só acreditamos em quem reconhecemos créditos para tal e Stephen Hawking ganhou-os decerto. Mas daí a viajar no tempo…?


Caparide, 22 de Março de 2018

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