sábado, 21 de abril de 2018

Por que vale a pena a Vida?

Um livro que me agarra no aconchego do lar quando leio ao som da chuva; o lar que se dissolve numa esplanada, as páginas do livro iluminadas por um sol que aquece sem queimar, que alegra sem cegar; o livro terminado que me faz mais rico, mais completo, ainda que só eu o reconheça; tal como numa sala de cinema vazia me sinto mais próximo… a sala está vazia e eu estou lá… o filme é belo, tão cheio a projectar-se na sala vazia, e por duas horas esvazio-me de tudo menos do filme que me enche; como me enche um golo do Benfica, de uma alegria que só nós sabemos sentir, adeptos irracionais vibrando entre a lógica e a paixão na mais bela manifestação primária dos nossos dias; primária como o sexo, a explosão animalesca, vivido dentro de portas… é bom; como é bom o amor e a sedução, amizade colorida, galantear quem elegemos, quem nos elege; uma mulher bonita que se atravessa, na rua, na farmácia, no ginásio, cruzamos os perfumes num cheirinho de intimidade; e por vezes tocamos, ao de leve, como quem não sente, sentindo o acaso, intencional, e o toque acaricia, da carícia ao abraço, coração-respiração no compasso da emoção, e finalmente… o beijo… arrepio… saboroso… com fervor, amor, fascinação; acordar sem despertar com o brilho poeirento, caloroso, da aurora atravessando a persiana mal fechada, sonhar ou não sonhar, voltar à vida levemente, docemente, reentrar em cada dia, recomeçar; antes de o amor acordar ao nosso lado, vê-la dormir, respiração de princesa, pureza; um pequeno-almoço, um brunch, um almoço ou um jantar; uma pita ao frio das quatro da madrugada junto à roulotte; iguarias; petiscos, queijo, pão e um copo de vinho, Douro ou Alentejo... e miniaturas, muitas para que pareçam grandes, grandes sobremesas no combate à ditadura do saudável; porquê? porque sabe bem; sabe bem acreditar; em quê? não importa desde que se acredite; acredito, confio, sei, lado a lado com a dúvida do tamanho do universo; é óptimo duvidar, e mágico acreditar… que sei dançar a vida; e a dança é sedução, para quem não dança; é técnica, para quem aprende; é liberdade, para quem quer ir; ir ao ginásio esgotar o corpo que se pensava esgotado, e como é bom cansar o pensamento, vergá-lo ao físico; um duche quente a correr eternamente num dia frio; um duche frio a correr eternamente num dia quente; antes do duche a corrida, junto ao mar ao fim da tarde; andar pela serra, caminhar de paisagem em paisagem, subidas e descidas, bosques e lagoas; desfazer tudo na praia, um mergulho congelado, transpirar sem manchar, mijar sem baixar, biquínis e tudo o mais; o chilrear das flores na Primavera e os cafés de fim de tarde entrando pelas noites de Verão; as férias sem horários; fazer porque sim, porque apetece, porque… sim; mais longe de avião; levantar voo, excitação pelo destino, aprazível regresso, como é bom levantar… e também aterrar; caminhar depois de poisar, depois de voar, levitar de volta à vida; que vida? que vida vivemos? a excepção ou a regra? eterno paradoxo fazer da excepção a regra; fugir à regra, voar, ouvir; um concerto na penumbra de um auditório; piano, Rachmaninoff, de olhos fechados a música é tão pura, uma viagem… longe ou perto, exterior ou interior… sempre viagem, pura, de olhos fechados; abri-los para um quadro, Guernica imponente, que assombro!; olhos que se fecham com uma gargalhada; uma piada, porca, racista, sexista, xenófoba… tão melhor quanto mais proibida; o riso, o sorriso, o olhar… as expressões que rejuvenescem ao conduzir estrada fora, com música, vento, rumo ao sul; sem perder o norte; perdendo-nos no mapa, e reencontrar… as referências: a Família, os Amigos, as Amantes, o riso inocente de uma criança, toda a companhia da longa e única travessia, essa vida tão cheia… e tão vazia de tudo o que a ultrapassa; ultrapassar as barreiras, os limites, o infinito… Fernanda Ribeiro, Carlos Lopes ou Rosa Mota e as medalhas de ouro que me fazem pele de galinha num resumo televisivo, o hino nacional e o golo do Éder, e o do Eusébio contra o Brasil, e o do Ronaldo contra a Juventus? olhar para a infância, encontrar a felicidade que nunca existiu; os piqueniques no pinhal, um banho no rio, um filme até tarde, brincar na rua, coleccionar cromos; toda a vida a coleccionar cromos; construindo, do sentimento ao pensamento, pela linguagem, sob a escrita, que prende e liberta, vicia e expulsa o que temos cá dentro, sem dar descanso senão quando termina a obra; e é puro prazer; ainda que só eu o reconheça; e por que vale a pena a vida? por tudo isto, que é pouco e muito, e por muito mais ou muito menos, é o que temos, para nos comover, ver, viver, e agradecer.


Caparide e Lisboa, 16 e 17 de Abril de 2018

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