terça-feira, 10 de julho de 2018

Os Taxistas do Zêzere

O sol é diferente a cada manhã quando se cruza no caminho que diariamente percorro para o trabalho ao longo da marginal. E mesmo nos dias em que se esconde por trás das nuvens, ele está lá para conferir ao dia uma variação nos seus matizes e arrancar a rotina a si própria, tornando único o que, por inércia mental ou desatenção, teima em ser por mim olhado (e vivido) sempre da mesma maneira, por defeito, como garantido.
Antes das sete da madrugada o trânsito é amigo libertando-me a atenção para os detalhes que constroem cada momento fazendo do dia uma experiência única, um bloco singular acrescentado ao edifício da vida
Quando o dia está cinzento, as nuvens carregadas pesam-me no semblante mas o mar que se transforma em rio à medida que percorro a estrada costeira mostra-me que até (ou sobretudo) as paisagens tristes encerram e libertam grande beleza. Se a Primavera ou o Outono, por via da inclinação do eixo da Terra, do movimento de translação ou da mudança de hora, deposita o sol à minha frente (todas as manhãs me desloco no sentido poente-nascente), é outra luz, alaranjada, que se derrama sobre outra água, mais azul, para pintar o postal que, mostrando sempre o mesmo lugar, devolve trezentos e sessenta e cinco ensaios diferentes com que o artista vai aprimorando a sua obra.
O caminho é automático e dentro do carro, a vida divaga: ora deixo que os pensamentos mais teimosos fluam livremente, ora canto uma qualquer canção pela n-ésima vez, ora vou ouvindo os noticiários e as rúbricas de companhia que nascem do rádio. Por defeito, se a luz me encandeia, desloco-me para a via da esquerda de modo a não maltratar algum ciclista corajoso que teime em passar os vermelhos numa estrada que não foi feita para ele.
E vou-me aproximando de Lisboa, do movimento, do trabalho e do campo minado de parquímetros em que se transformou o lugar onde supostamente eu deveria ganhar dinheiro e não gastá-lo antecipadamente. Largada a viatura num dos redutos, cada vez mais escassos, onde ainda é possível fazê-lo sem encher os bolsos de quem nem sempre merece, levo o livro (sempre um livro) para a esplanada do Zêzere onde, antes ainda das sete e meia, me sento e tomo o café (que quase sempre pede um bolo para entrada) que me acorda para o dia. São os dias amenos ou em que o calor mais se faz sentir (àquela hora nunca é demasiado) que me deixam sentar no exterior tornando o momento zen do dia mais aprazível.
À hora a que chego já a coluna de táxis se encontra preparada para atacar a jornada, com os “soldados” que a compõem aglomerando-se em conversas futebolísticas ou politiqueiras, sempre de uma sabedoria que mereceria uma atenção especial da minha parte mas que por preguiça não vou aqui transcrever.
Os taxistas são um bando de arruaceiros. Mas estes não: são gente que conversa normalmente como qualquer outro frequentador de um qualquer café de bairro onde por vezes vou ver a bola; são gente como o sr. Vilela que, ao pedir o seu copo de leite e a sandes do costume, tem sempre uma palavra jocosa para o Zé, o empregado, num salutar embate Sporting-Benfica; são gente afável que não abanam os carros da Uber nem conduzem como se tivessem a revolta à flor da pele num cocktail de Parkinson-Tourette-Epilepsia-Obsessivo-compulsivos, quais suicidas tresloucados ao volante de um transporte de passageiros à solta pelas ruas da capital.
Quando damos o salto do geral para o particular, do preconceito para o conceito, do corporativo para o activo, quando colocamos rostos humanos nos intervenientes de uma corporação, humanizamo-los. Não são estes taxistas em particular que mudam a minha opinião sobre a classe porque estou em crer que, fossem outros os homens que diariamente encontro ao pequeno-almoço, arrancando a conta-gotas à medida da clientela que se aproxima, e eu formaria esta mesma impressão a respeito destes homens. Porque nada do que sei sobre eles os qualifica enquanto pessoas. Apenas lhes confere esse epiteto: perante mim, tornam-se pessoas antes de serem taxistas.
Pela esplanada do Zêzere já gastei muitas horas matutinas e consumir inutilidades que a internet me disponibiliza, já ocupei muitas mais horas com leituras de interesse acrescido quando a alternativa é arrancar para o escritório, já me acompanharam algumas (poucas) horas de escrita no meu portátil jurássico (as horas são poucas porque o PC foi ganhando peso em relação aos seus pares – e por isso transporto-o pouco - e a bateria não me permite escrever mais do que meia página). Mas todas estas horas seriam diferentes se a companhia que os “meus amigos” taxistas me fazem todas as manhãs não existisse. Cada livro seria diferente se a sua leitura não fosse intervalada por uma provocação clubística; cada deambulação por um estudo ou uma notícia inútil e desactualizada perderia o sentido se não fosse enquadrada por um cumprimento a um desconhecido, um dos gestos mais interessantes que nós, humanos, podemos oferecer; cada período a olhar para o vazio preenchido pelos carros que à minha frente se deslocam pela Estrada da Luz não seria notada enquanto tal se não fosse religiosamente interrompida pela Paula, colega de trabalho e ainda mais madrugadora do que eu, que se despede à saída do Zêzere (senta-se sempre na mesma cadeira, no interior do estabelecimento) de partida para a Torre onde ambos trabalhamos, pouco antes de eu lhe seguir o exemplo.
E apesar de cada dia ser diferente, estes personagens marcam uma presença quotidiana na minha vida e quando eles deixarem de me aparecer (ou eu deixar de lhes aparecer), tudo será diferente durante um tempo (mais para mim do que para eles, julgo eu), mas tudo voltará a ser normal pouco depois.


Lisboa, 22 de Junho de 2018

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