Uma Loja em Vilamoura


Quando cheguei à casa já o telefone havia tocado uma ou duas vezes para construir o mal-entendido que nos viria a entreter nos dias seguintes.
Eu tinha vindo de Tavira – mais do que uma terra: uma vida da qual fui aprendendo a gostar – e, mal entrei em Vilamoura, soube que, não fosse a companhia dos meus anfitriões, aquele lugar-subúrbio com os relvados aparados, as ruelas de brincar, as ciclovias de amor e os aldeamentos de golf postal, não poderia estar mais nos antípodas do meu gosto. Mas as pessoas fazem os lugares e dias depois, quando regressávamos pela força do calor para escapar ao trânsito, olhei aquele tempo com um bem-estar surpreendente, tanto quanto nos podemos surpreender por ter passado tão bem num espaço tão “postiço”.
Creio ter assistido ao segundo telefonema lá para casa, a casa onde a Marta e o João me receberam. Com eles tinham ido a Beatriz, o Tiago e (claro!) o Daniel. Ou terá sido o terceiro? Pouco importa. Certo mesmo é que não era a primeira vez que alguém ligava a perguntar se falava da sex shop XXX.
Provavelmente o número pertencia a uma ‘sex shop’ – disse a Marta – e deve continuar em algum ‘site’ desactualizado na internet, mesmo depois de ter sido reatribuído aos meus pais. Pensei logo no maravilhoso potencial daquele equívoco e pedi para ser eu a atender o próximo telefonema, no caso de ele chegar nos três dias que restavam até irmos embora. Entretanto, a Marta havia telefonado ao pai para que resolver o assunto junto da operadora… eu só desejava que a operadora não descobrisse o site nem alterasse o número antes de recebermos a chamada seguinte!
Um ou dois dias depois, o telefone tocou.
Eu atendi.
Saí da sala e fui até um quarto.
Para falar à vontade.

- Si? Estoy hablando para la sex shop XXX?
- Hola buenas tardes! – que maravilha! Ainda por cima em espanhol! pensei eu – Si, es la misma! Que desea saber?
- Me llamo YYY Soy de la empresa Dreamlover. Estamos en Valencia y comercializamos productos en que podéis estar interesados.
- Vale! Yo soy António. Que tienen para mostrarnos?
- Bueno, como voy a estar de vacacciones cerca, me gustaria marcar una reunión el próximo viernes con vosotros.
- Ah… - além de ter passado todo o tempo desta “conversa de chacha” a conter o riso, com as narinas a dilatar e a voz a tremer de cada vez que me tocava falar, ponderei um segundo e resolvi seguir em frente – Tienes dildos?
- Dildos?! Por sopuesto! Claro que sí!
- De los grandes? Como si salieron de la maleta de Sport Billy?
- Quien es Sport Billy?!
- Cómo “Quien es ‘Sport Billy’?”? Como es possible que no lo sepas? Bueno, no pasa nada… y que mas tienes en tu tienda? – os dildos haviam sido o único artigo de que me lembrei.
- Lo que necesitais… pero creo que seria mejor que hablaramos el viernes en Faro, no?
- Pos…no va a ser posible… voy a estar en un congreso internacional de sex shops y voy a tener que cerrar unos días… perdoname.
- Congreso?! Que congresso es ese?
- No lo sabias? Van a venir actrizes porno y todo para demonstrar los produtos…
- No!!! Seguro!?
- Por Dios! Va a ser una juerga!!
- Donde vá a ser?
- Muy lejano: Nueva Zelanda. – lembrei-me do sítio mais longe para o desincentivar.
- Oh… - murmurou ele desanimado – No puedo a ir…
- Bueno, podemos combinar un outro momento: llamame en tres semanas y combinamos porque you voy a estar en Valencia por esa altura!
- A sí?! Vale! Perfecto! Seguimos hablando.
- Si, hablamos! Buenas vacaciones
- Gracias! Buena conferencia!
- Gracias! Un Saludo!
- Saludos!

Não me ri tanto quanto teria acontecido se esta conversa tivesse ocorrido como aqui foi relatada, mas ela não passou de um produto da minha imaginação ou, para ser honesto, de uma intenção frustrada que, por falta de coragem e de capacidade de representação e de improvisação, não consegui alimentar.
Após o Ah com que me mostrei surpreendido, voltei a perguntar para onde desejava falar; ele repetiu o nome da sex shop e eu emendei invocando que havia percebido mal da primeira vez… não tive coragem de mandar o tipo durante as férias a um lugar determinado para se encontrar com ninguém… se bem que – ocorre-me agora – poderia ter-lhe dado a morada da esquadra da policia de Faro!


Lisboa e Caparide, 23 e 24 de Novembro de 2018

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