A Ponte

O meu pai falava d’A Ponte como um dos livros da sua juventude, e ainda que eu pouco soubesse do enredo, fui buscá-lo à estante e pus-me a lê-lo, num misto de surpresa e entusiasmo pela facilidade com que a leitura corria sobre os carris da curiosidade.

Manfred Gregor possuía duas vantagens enquanto escritor voltado para o grande público: escrevia de uma forma escorreita, e viveu boa parte dos acontecimentos sobre os quais escrevia. A Ponte, símbolo implacável da decadência de um regime, manteve-se intacta durante a maioria das páginas deste maravilhoso romance de estreia.

Manfred Gregor, como muitos jovens alemães, foi enviado para a frente de batalha no final da II Guerra, quando o conflito estava já perdido, numa tentativa desesperada de o regime nazi não dar parte fraca. À medida que os soldados batiam em retirada e as altas patentes safavam-se como podiam, ora fugindo, ora fingindo, ora escondendo-se, ora mesmo cometendo suicídio, miúdos de 15, 16, 17 anos eram lançados às feras como carne para canhão.

A lavagem cerebral de que eram alvos formação alimentava a determinação dos primeiros tempos de combate – a defesa da pátria, a honra, a superioridade racial – para depressa perceberem, na ingenuidade da sua juventude, que a guerra é sobre tantas outras coisas, todas elas horrorosas, dolorosas e destrutivas, muito distantes da imaculada tábua de valores que havia sido cravada no imaginário dos combatentes.

A Ponte é sobre a determinação em cumprir uma missão e sobre a ingenuidade da juventude, é sobre a aprendizagem que vem sempre à custa das piores privações e sobre os sonhos que se desfazem, sobre o duro embate com a realidade e a constatação de que, no meio do horror, não há princípios nem justiça, humana ou divina, que valha.

Li-o aos vinte anos, e sabendo que o meu pai havia lido a trilogia do escritor alemão, peguei depois em A Sentença, também ele muito bom (mais tarde, numa Alemanha ocupada, um soldado americano é acusado e julgado pela violação de uma jovem alemã). Já não fui ao terceiro - A Rua - mas creio que A Ponte permanecerá guardado, durante muito tempo, no lugar especial que reservamos não às grandes obras, mas àquelas que mais nos tocaram.

A Ponte foi adaptado ao cinema com relativo sucesso em 1959, um ano depois da publicação do livro, tendo obtido uma nomeação para o óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Depois de todos estes anos, ainda não o vi, e talvez esteja na altura, agora que os detalhes se foram, restando apenas a impressão que o livro deixou em mim. Afinal, mais do que os fios que tecem um enredo, é a sensação que guardamos de uma obra de arte que deixa em nós a sua marca. Como um filme ou um quadro, também num livro os detalhes formam as primeiras investidas do jogo da sedução, aqueles gestos e sorrisos que nos prendem ao outro, o gancho que nos agarra num primeiro impacto e nos deixa caidinhos a babar por mais. Mas o que verdadeiramente fica e sustenta esta relação vem depois: é o que vamos descobrindo mais tarde, com o tempo e a memória, o que sentimos e como sentimos ao lembrar. É por isso que tenho a certeza da importância que A Ponte tem na minha vida.

 

[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]

 

Lisboa, 12 de Junho de 2024

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