"Nessa noite, John e Paul fizeram algo que
praticaram bastantes vezes durante esse período: olharam intensamente nos olhos
um do outro. Gostavam de aproximar o rosto um do outro e olhar fixamente, sem
pestanejar até sentirem que estavam a dissolver-se um no outro, quase
obliterando qualquer percepção de si próprios enquanto indivíduos distintos, «Há algo de perturbador nisso» recordou McCartney, muito mais tarde, no seu jeito
discreto. E interrogamo-nos: «Como
é que se recupera disso? Como é que se leva uma vida normal depois disso? E a
resposta é: não é possível.»
(...)
A música continuava a ser um lugar onde John e Paul permitiam que o outro
entrasse."
Uma pedra preciosa, que vale tanto mais quanto mais se partilha. Uma história
de Amor que é uma bela Amizade, ou uma Amizade especial, daquelas que guardamos
como poucas, por ser rara, preciosa.
John e Paul cresceram juntos, depois das agruras da infância e adolescência de
ambos. Fizeram-se homens através das canções que partilharam, criando magia,
olhos nos olhos como só eles sabiam, e ofereceram-nos, ao mundo, a nós, de
outro tempo, um pouco dessa magia, Amor em forma de canções.
Lennon é mais frágil do que eu julgava; McCartney mais completo do que eu pensava;
Lennon mais instável; McCartney mais cerebral; Lennon mais ingénuo; McCartney
mais enérgico; Lennon mais revoltado; McCartney mais contido; Lennon mais
errático, inspirado, de rasgo; McCartney mais trabalhador, meticuloso, criador.
Ambos foram sexo, drogas e rock 'n' roll, 13
álbuns em 8 anos, uma explosão de criatividade, de exageros e de amor, pela
música, por nós, um pelo outro. Talvez nunca mais voltemos a testemunhar algo
assim. Por maiores que sejam os perigos com um nunca lançado para o futuro,
nunca haverá outra primeira vez como esta!
Choraram e riram, e como muitos enamorados, gastaram-se
no ciúme, nos equívocos, e nos exageros. E paulatinamente voltavam a
redescobrir-se.
Ambos ajudaram a moldar a história do século XX. Unidos pelo Amor. É mesmo necessário afirmá-lo sem reservas: é possível o amor entre dois homens sem que o sexo seja metido ao barulho. É Amor aquilo que deixa a Amizade a anos-luz e une dois homens para a vida.
And in the end,
The love you take,
Is equal to the love,
You make.
PS: Há muito que não chorava com um livro. No voo para Paris, demorei a
terminá-lo. Quando John morreu eu não era nascido, mas chorei quando vi o
documentário Imagine. Porquê? Porque o conhecia das músicas, porque
morreu novo, e porque com ele morreu a possibilidade de sonhar com o regresso
da magia tão bem descrita neste livro.
"Um assistente interrompeu-os para anunciar que Yoko Ono estava ao
telefone (ela tinha conseguido o número do estúdio através de Linda), Paul foi
até ao escritório para atender a chamada. O assistente saiu da sala e fechou a
porta assim que McCartney começou a soluçar."
Paris, 27 de Janeiro
de 2026
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