Fomos ver Odisseia no grande ecrã pois, de outro
modo, não perderia tempo com ele em casa, dado o potencial impacto de um filme
deste calibre numa sala de cinema formar grande parte das razões que me
assaltam para o ver.
Noutro tempo, o da infância e adolescência (e vá, o de
jovem adulto também...), quando quase tudo se transforma em descoberta e nos
fascina, ficando impresso, para o bem e para o mal, em quem somos e em quem
seremos, talvez o ecrã da televisão de casa fosse suficiente para me
maravilhar. Assim aconteceu com a trilogia original d'A Guerra das Estrelas,
Ben-Hur ou Lawrence da Arábia, para citar uma ínfima parte, que
tendo todos eles ganhos óbvios em widescreen, technicolor,
etc..., eram facilmente consumidos naquela altura da vida em que, ávido de
conhecer, crescer, cavalgar sobre as tendências, estabelecer ligações entre os
intervenientes para, naturalmente construir o meu próprio quadro sensorial de
uma arte que amo, tudo se transformava com uma facilidade, hoje arrepiante (apesar
das dúvidas de abismo da adolescência), em prazer.
Noutro preâmbulo, confesso ser adepto de uma certa
fantasia no cinema, mas não de espalhafato. Sem perder muito tempo com uma
distinção na qual cada um terá a sua concepção, a Antiguidade e a Idade Média
não são a minha praia – não sou fã d'O Senhor dos Anéis – e mesmo
os filmes de Super-Heróis ou de Ficção Científica, requerem da minha parte uma
exigência muito mais afinada do que um drama ou um relato real, por
exemplo.
Uma última nota prévia, para dizer não ser um fã
incondicional de Nolan, ou pelo menos, de alguns dos seus filmes mais
apreciados: gostei muito de Memento e de Oppenheimer, a até de Dunquerque.
Gostei q.b. de A Origem e de Interstellar, e não gostei de O
Terceiro Passo. Não vi nenhum dos três Batmans. Em algumas das suas
obras mais ambiciosas, ainda que lhe reconheça méritos, fico com a sensação de
que nunca consegue o equilíbrio entre o que deve ser dito e o que deve
ficar à imaginação do espectador (em A Origem e em Interstellar isso
é por demais evidente).
Dito isto, parti para a Odisseia com alguma
curiosidade e muita boa vontade, o que não abona muito a favor da superação de
expectativas, talvez a condição primordial para cunhar a primeira impressão que
uma obra deixa em mim.
Li a adaptação em prosa do poema de Homero feita por João
de Barros, numa edição infanto-juvenil, talvez pelos treze ou catorze anos.
Achei piada, retendo até hoje algumas cenas e nomes como Penélope e Telémaco, o
ciclope, a ilha das sereias e o cavalo de Tróia. Nada mais sobrou de um livro
lido mais por afastar a cortina para outro mundo (instigado pelos episódios do
ciclope e do cavalo de Tróia, que terão, provavelmente, sido abordados na
escola) do que por uma genuína vontade (na altura nem lia por aí além).
Assim, foi neste pequeno conflito interior, entre uma
folha quase em branco sobre a matéria de Odisseia, as reservas
quanto a Nolan, à Antiguidade e à Mitologia, e a curiosidade que nunca é boa
conselheira para me deixar surpreender, que a Sofia e eu entrámos na sala do Fórum Sintra.
Nunca me entediei durante as quase três horas de
filme, apesar de cedo ter percebido que o que estava a ver sabia a pouco, a muito
pouco. Também não me desiludiram a diminuta grandiosidade dos cenários: afinal
a história é contada com ritmo – um ponto forte do cinema de Nolan – e passa-se
quase toda (senão toda) pelo Mediterrâneo, por isso este realismo cénico assentou
bem no que se pretende manter fiel, com matéria já de si tão propícia a
devaneios.
O filme tem muita porrada e alguns efeitos, personagens
interessantes, como Calipso, Menelau ou o cego Eumeu, e aguenta-se bem. Mas
soube-me a pouco. A muito pouco perante o endeusamento que é aportado a cada
filme de Christopher Nolan. Essa é uma marca com que temos que aprender a
conviver: hoje é o poder do imediato que conta, não só no instante, mas muitas
vezes, para a posteridade. Nolan sabe jogar este jogo como poucos, fazendo de
tudo um espectáculo. Colhe os votos e a simpatia do público e da crítica (um
mérito, honra lhe seja feita), e depois de cunhada de reconhecimento, a obra
fica validada para o futuro.
O cuidado a ter hoje com uma crítica cinematográfica que
se democratizou em pleno é imperioso para um cinéfilo: é preciso ler bem o que
representa um 8,5 no imdb ou um 97% no rotten tomatoes. Há uns
anos, uma boa crítica, dos especialistas ou do público, estava muito mais
alinhada com os meus gostos e era por isso, na minha escala, muito mais fiável.
Hoje, em que todos têm opinião, a diversidade por trás de cada votação traz
consigo inúmeros significados a cada nota atribuída a um filme e dou por mim a
tentar perceber se uma boa nota resulta maioritariamente do voto adolescente,
dos geeks dos videojogos, do Fantástico ou do Terror, dos esotéricos,
dos lamechas, … e poderia continuar, mas ficarei por meia-dúzia de grupos para
exemplo, ou se representa uma amostra mais alargada (algo mais fiável), ou até
se tem por trás quase exclusivamente composta por amantes de cinema (o óptimo).
Já com a leitura essa contaminação ainda não se deu: como para classificar um
livro é necessário lê-lo, algo que dá incomparavelmente mais trabalho do que
ver um filme, a nota atribuída a um livro numa crítica de jornal ou no goodreads
é incomparavelmente mais certeira (na minha escala) do que numa votação cinematográfica.
Poucas coisas hoje resistem ao prazer da degustação, mas
requerem âncoras para prender o alvo: seja um gancho na primeira frase de um
romance que é sempre pedida em qualquer concurso literário para que o júri
não abandone a obra candidata ao fim da primeira página, uma canção que entre
no ouvido e seja capaz de captar a atenção de uma banda recém-criada, um título
bombástico (quase sempre enganador, quando não mesmo fraudulento) de um artigo
ou até de uma notícia, ou um conjunto de cenas mais violentas,
sexualizadas ou lamechas para ir alimentando o voyeurismo do espectador.
Nolan movimenta-se bem nesta nova era. E se não acompanho
a principal crítica feita ao seu filme anterior, Oppenheimer, por ter
sido o iniciador da "espectacularização do filme de ideias",
pois me pareceu que a qualidade do jeito de contar aquela história superou em
larga escala o espalhafato que o realizador inglês quase sempre imprime às suas
obras, em Odisseia ficou aquém. Muito aquém. A sensação com que
fiquei no final, só me levava de volta ao que senti nos instantes seguintes a
ter visto, também em sala de cinema, Indiana Jones e o Reino da Caveira de
Cristal ou Indiana Jones e o Marcador do Destino.
Talvez os três filmes gozem desse handicap em que
se torna impossível não esperar algo diferente (para bom), face ao trabalho
prévio que conhecemos (sendo ele o que nos leva a ver esses filmes). Contudo,
era escusado saber a tão pouco, como uma fatia de melão que sabe apenas a água,
ou aqueles bolos na montra de uma pastelaria gourmet, muitas cores, cremes,
floreados e bonecada de artista, mas que não resistem ao teste da primeira
dentada e, se cuspir fosse opção educada nesta sociedade de parecer, talvez
deixassem de nos impingir um corante que sai sempre mais caro do que o
proveito.
Não sei se este filme (ou o conjunto da obra) de Nolan me
afastará de regressar ao cinema para ver um filme seu, mas com tanto ruído, é
difícil encontrarmos densidade nas personagens, sem que esta pareça colada
com cuspo para fingir uma profundidade inexistente. Gosto de Matt Damon, Anne
Hathaway ou Charlize Theron, não sendo por eles que, para mim, o filme
"não chega lá".
Não obstante tudo isto, a Odisseia entretém, e não me levou ao ponto de ter dado por mal empregue o dinheiro do bilhete. Quanto mais não fosse, é desta diversidade cromática com que vai sendo colorida a nossa paleta de impressões que vamos apurando o gosto, e no limite, que nos vamos conhecendo. Só por isso valeu a pena. Ainda para mais, Odisseia é uma experiência que vale no grande ecrã. No pequeno, nem tanto.
Lisboa, 4 de Agosto
de 2026
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