Foram uns trinta e cinco textos
(mais coisa, menos coisa), que escrevi ao longo de cinco anos, sobre a minha
mãe e o sr. Manuel. O primeiro foi em 2021 e, com maior ou menor frequência, ora
após cada visita à Marinha mal chegava a casa, ora ainda durante a estadia, na
habitual insónia, em que subia ao sotão com a casa em silêncio, de noite, registava
as impressões do que me parecia cada vez mais perto, mas sempre um ou dois
momentos à frente.
Em Abril de 2024 entraram, a
minha mãe e o companheiro, para o Lar dos Outeirinhos, na modalidade de centro
de dia. Em Junho o sr. Manuel passou a dormir lá, seguindo-se a minha mãe em
Fevereiro do ano seguinte; o ano passado.
Ao reler os textos (além de
três que escrevi por impulso nos dois dias seguintes à morte da minha mãe),
notei que nos últimos, não sei bem desde quando, mas pelo menos desde o
Natal do ano passado, o lar passou a constar em diversos testemunhos, numa
admiração sempre renovada pelo cuidado e amor que todos aqueles profissionais
colocavam naqueles de quem cuidavam (e cuidam).
Talvez me tenham escapado
algumas, mas nas passagens seguintes está registado o que fui sentindo do modo
como vi a minha mãe ser tratada. Basicamente todas dizem o mesmo, por vezes até
com as mesmas palavras (nunca reli os textos senão agora):
“O trabalho que estas pessoas fazem no lar, em todos os lares, é de uma entrega e nobreza para as quais me faltam as palavras. Há muitas profissões nobres - professores, psicólogos, médicos, colectores de lixo,... - mas estas pessoas que diariamente lidam com os nossos velhos, tendo os seus próprios velhos e as suas próprias vidas, com os seus problemas após o trabalho, têm um valor tal e no entanto, tão pouco reconhecido. O facto de me faltarem melhores palavras diz muito acerca do pouco tempo que dedico a pensar nelas. E contudo, como lhes estou grato por cuidarem da minha mãe. Directoras, enfermeiros, funcionários. Como são heróis todos os dias sem que ninguém lhes diga nem receberem de acordo com a grandeza da sua profissão e do bem que trazem ao mundo!”
Marinha Grande, 25 de Dezembro de 2025
“Tantas são as adversidades que o pessoal do lar tem que enfrentar para manterem os velhotes alimentados, limpos, aquecidos quando parte da cobertura voou, sem luz, água ou comunicações… e são tão mal pagos… e é tão injusto! A vida é injusta da forma mais ingrata que a injustiça pode assumir. São anjos de branco ou de azul quem por ali se passeia, desdobrando-se em mil cuidados com uma paciência de santo para cuidar dos nossos.”
Rinchoa, 15 de Março de 2026
“Uma casa é um espaço de referências, quase uma segunda vida. Eu só o noto agora. Não imagino a violência que deverá ter sido para ti, para o sr. Manuel, e para todos os milhões de idosos que entram para um lar – quão abandonados se deverão sentir? Talvez com razão. Ainda que a vida seja madrasta nestas situações e ambos saibamos que outra solução não seria razoável – pelo custo, pela degradação da casa, etc… mas quanto pesam todas essas razões tão práticas perante o abandono do espaço da tua vida? E quão lírico será contarmos só com a força da nossa casa, perante a degradação da mesma ou a inexistência de cuidados apropriados para ti cá fora, quando há muito deles necessitavas?”
Rinchoa, 5 de Abril de 2026
“A cada visita ao lar, encontro-te mais débil. Umas vezes um pouco melhor, mas sempre em trajectória descendente. E tento a tortura de me colocar no teu lugar: se alguém me colocasse num lugar como esse, com a tristeza da última morada estampada na entrada imaginária que decalco da desses lugares medonhos da Europa central, sanatórios e campos de concentração, o fim anunciado, e contudo, nada tem a ver com esses sítios: é antes (ou sobretudo) um lugar de Amor, onde as pessoas que te tratam são os verdadeiros anjos, ou o que de mais próximo deles há.”
Rinchoa, 26 de Abril de 2026
“Há ano e meio que o Lar
dos Outeirinhos é a casa da minha mãe, depois de frequentar aquele lugar como
centro de dia durante dez meses. Um período de adaptação de que não me
arrependo, apesar de há muito ela, já então, precisar de um apoio mais
contínuo. Nem uma semana passou desde soubemos que um lugar "vagara"
(<=> um(a) velhote(a) havia morrido) até a minha mãe dar entrada. Uma
violência necessária, um mal menor, ou outras expressões duras, que calçamos e
nos apertam durante muito tempo, à falta de palavras ou formas mais
confortáveis.
Não tenho palavras para descrever toda a paciência, abnegação, profissionalismo, carinho, esforço, dedicação, amor, que as funcionárias (são sobretudo mulheres quem lá trabalha), das vigilantes às cozinheiras, dos enfermeiros à médica, às directoras, ao corpo directivo, condutores, etc... uma gratidão eterna.”
Rinchoa, 17 de Agosto de 2026
“Mas se imaginava heróis aqueles reagiam à morte de um ente querido, não posso deixar de manifestar a minha gratidão eterna por outros heróis por todos aqueles que deram apoio à minha mãe (e que me deixam envergonhado pela falta dele do meu lado): o sr. Manuel, a Sandra, o Ramiro, a Lénia, a Duda e a Olga, e no Lar/Centro de Dia, nas directoras, Dra. Susana e Dra. Cláudia, todo o pessoal técnico, enfermeiros, fisioterapeuta, médica, e todas as funcionárias que diariamente tratam dos nossos como muitas vezes nós não o fizemos. Nunca terei palavras ou gestos suficientes que traduzam como lhes estou grato, e como todos os dias (não só de vez em quando para partilhar numa rede social) são heróis e heroínas, e com um reconhecimento social tão diminuto. O contacto com esta realidade foi uma das maiores aprendizagens deste período.”
Marinha Grande, 10 de Setembro de 2026
O
pouquíssimo ou mesmo nulo reconhecimento que entregamos a toda esta gente forma
uma enorme injustiça. Se bem que de um jeito diferente, também os trago no
coração depois destes dois anos e meio. Trazer alguém no coração faz pouca
diferença nas suas vidas e talvez me apazigue mais a mim, mas estas palavras
são sobre eles, todos eles. Nos Natais e durante o temporal Kristin, a abnegação destas
pessoas, muitas, tantas, inúmeras vezes em detrimento das suas famílias, é de
uma elevação comovente.
A
minha mãe não chegou a passar nenhuma noite de Natal no Lar dos Outeirinhos,
mas era uma questão de tempo pois passávamos a noite de Natal com ela ano sim,
ano não.
Felizmente
o Natal passado foi “ano sim”, sem fazermos ideia de que seria o último.
No
Kristin, no final de Janeiro deste ano, ao segundo dia sem conseguir falar com a
minha mãe e com a minha tia, arranquei para a Marinha depois do trabalho. Repetindo
o que talvez tenha escrito num dos textos (ou não não me lembro), ter visto
naquela noite este exército da boa vontade a limpar a água do chão numa sala coberta
somente pela placa pois o telhado havia voado, ou a dar a comida aos velhotes à
luz das velas, mantedo-os limpos apesar das condições inenarráveis é uma coisa
que não vou esquecer. Deixaram-me entrar nessa noite depois de bater à porta
com quanta força tinha: não havia iluminação nem campainha (e continuaria sem haver durante
dias ou talvez mesmo semanas). Uma senhora abriu-me a porta a medo e o que me
ocorreu dizer-lhe para a tranquilizar “Venho de Lisboa para sabe da minha
mãe pois não consigo falar com ela nem com ninguém.”.
A
expressão dela mostrou-me, antes mesmo de me convidar a entrar, que a frase
havia desbloqueado o cadeado do receio. Passei pela sala molhada, pelos velhos
a comer, pelas velas, pelo silêncio de mosteiro mas também de uma solidariedade
infinita (deve ser para isso que os mosteiros servem; e os lares também) até
chegar ao quarto da minha mãe, que estava a dormir. Ao acordar, pela primeira
vez não me reconheceu. Nos dez minutos em que me demorei, alternava, na sua
confusão, entre o reconhecimento e pedir-me para “ir lá fora chamar o
filho.”
É
uma noite que não vou esquecer. Não que necessitasse de provas do trabalho e
carinho que as pessoas que mantêm o Lar dos Outeirinhos a funcionar ali
praticam. Aquele foi “só” um exemplo de que, mesmo em condições extremas, os
mais desprotegidos têm que continuar a receber os cuidados. E se receberam!
Para
mim foi uma noite; para eles foram muitas noites e muitos dias, horas, minutos,
semanas, meses. Nunca, em nenhuma visita à minha mãe, a vimos mal cuidada;
mesmo depois de ter deixado de sair da cama.
Passasse eu toda a vida e desfazer-me em agradecimentos e eles não seriam suficientes para mostrar o reconhecimento ou dar uma pequeníssima ideia sequer da dimensão da obra que esta gente alimenta todos os dias. São eles, elas sobretudo, as testemunhas mais próximas do abandono de alguns e da morte que chega a todos eles. Quanta força têm que ter para cobrir o cuidado e o carinho diários!
Paris, 24 de Setembro de 2026

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