domingo, 29 de julho de 2012

Gregory Peck - Uma Estrela Maior


Entre as inúmeras missões que a Arte tem, ou pode ter, é a da defesa de causas em que os artistas acreditam. A exposição de conflitos, mais ou menos assumidos, mais ou menos polémicos, mais ou menos na moda, e tratados de uma forma mais ou menos isenta, tem atravessado as manifestações artísticas ao longo dos tempos, e em particular, o Cinema, como veículo privilegiado para transmitir ideias às massas.
Vi este fim de semana um filme chamado A Amada Infiel (Beloved Infidel, 1959), com Gregory Peck e Deborah Kerr, dois dos maiores intérpretes da sua geração (e de sempre?). O filme mostra os últimos anos de Francis Scott Fitzgerald, os anos “decadentes”, sendo segurado pela genialidade destes dois grandes artistas.
Este filme levou-me a outras duas películas com Peck, estas muito mais a ver com o Homem e não apenas com o Actor.

Gregory Peck era um homem de causas. Muito político no modo como via a sua profissão e como tirava partido da fama para defender aquilo em que acreditava, Gregory Peck era um liberal. Mas era liberal com classe (algo antagónico?). Nunca beliscou nem o seu profissionalismo nem a sua vida com a tentação de resvalar para a radicalidade pateta em que caiem tantos liberais, sendo um dor últimos exemplos o de Michael Moore, cujo génio foi completamente abafado pela sua superior imbecilidade.
Neste sentido, Gregory Peck era um pouco como George Clooney hoje em dia, só que Peck era bom actor. Muito bom actor. A prova disso é ele ser hoje conhecido por isso mesmo. E os seus filmes falam por si.
Falar de causas e de preconceito no cinema sem referir estes dois filmes, que fizeram história por isso mesmo, tem pouco valor.

A Luz é Para Todos (Gentleman’s Agreement, 1947), traz-nos o preconceito religioso (anti-semita, neste caso) no pós-guerra, altura em que o tema estava muito aceso. E o texto é brilhante… o modo como um jornalista decide abordar o tema torna esta história, aparentemente desinteressante, num trabalho notável que nos mostra “como apenas podemos sentir o que os outros sentem se nos colocarmos na sua pele”. Realizado por um maiores fazedores de obras-primas do cinema, Elia Kazan, é irónico que este realizador, anos mais tarde tenha denunciado artistas seus colegas na época da “caça às bruxas”. Celeste Holm (recentemente falecida) tem um desempenho fantástico, tal como John Garfield (ele próprio viria a ser uma vítima do Senador McCarthy – Garfield foi um dos mais injustiçados actores de Hollywood, tanto profissionalmente como pessoalmente – faleceu aos 39 anos devido a problemas cardíacos que muitos atribuem ao facto de ter perdido o trabalho por ter sido denunciado, injustamente).

Na Sombra e No Silêncio (To Kill a Mockingbird, 1962) é a personificação do preconceito racial. Se em A Luz é Para Todos, Gregory Peck estava no auge da sua carreira, foi na fase descendente que Peck teve a oportunidade de brilhar como poucos: o “seu” personagem Atticus Finch, o advogado sulista que é indicado para defender Tom Robinson, um negro acusado de violar uma rapariga branca, foi considerado o “maior herói do cinema norte-americano do século XX”. Um advogado!
Mais uma vez a qualidade do diálogo é brilhante, mas desta vez coloca a ênfase não só no “sentir” mas também no “julgar”: “nunca julgues os outros sem antes te colocares na sua pele”. Tal como em A Luz é Para Todos, Peck tem que explicar aos filhos o terrível mundo preconceituoso dos adultos e, quer num caso quer no outro, as crianças aprendem essa realidade sentindo na pele as represálias de um ódio que não é o seu.

Não fosse pela sua mestria como actor, a defesa de valores presente nestes dois filmes seria suficiente para homenagear Gregory Peck como homem de Princípios. Um homem que, como James Stewart (este conservador), soube ser um gentleman dentro e fora do ecrã: ao mesmo tempo que construía uma carreira com um nível inigualável, soube resguardar-se da abusiva promiscuidade do mundo artístico mantendo a sua vida pessoal protegida e “estranhamente normal”.
A presença de Harper Lee (a autora do romance Por Favor, Não Matem a Cotovia, que daria origem ao filme Na Sombra e No Silêncio) no funeral de Gregory Peck ou a leitura que Brock Peters (o Tom Robinson que Atticus (Peck) defendeu no mesmo filme) fez no mesmo funeral mostram que, por onde passou, Gregory Peck fez amigos e deixou a sua marca, e esta é a maior homenagem que se lhe pode prestar.

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