segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Mephisto



Após meses de ausência voltei hoje à Cinemateca (a última vez que lá tinha ido foi há quase 6 meses), e para ver uma verdadeira obra de arte: Mephisto (Mephisto, 1981), do realizador húngaro István Szabó.
Muito mais do que um tour de force do fantástico actor que é Klaus Maria Brandauer (foi o vilão em 007 – Nunca Mais Digas Nunca (Never Say Never Again, 1983) e um dos protagonistas em África Minha (Out of Africa, 1985)), Mephisto é o retrato de uma época, uma homenagem à Arte, e uma mostra do lado mais negro do espírito humano e da instrumentalização da Arte como forma de liberdade.
A ascensão de um actor de teatro na década de 30 na Alemanha é contada em paralelo com a ascensão do regime nazi. Do idealismo bolchevique inicial, Hendrik Hoefgen torna-se no símbolo do regime, vendendo a alma (e a sua consciência) em troca do protagonismo que tanto ambicionara. Ironicamente, Hoefgen tem em Mefistófeles, na obra Faust de Goethe, o grande papel da sua carreira, e sua vida é, na realidade o alter-ego não do Diabo mas do próprio Dr. Fausto. Se por vezes não olhava a meios, outras vezes havia em que resquícios de humanidade sobressaíam numa hipocrisia cada vez mais desprovida de qualquer pingo de humanidade. A sua cobardia está bem presente aquando da sua tentativa de desligar a Arte da Política, afirmando que o artista apenas representa, independentemente da turbulência que acontece à volta da Arte: como se a Arte nunca tivesse sido utilizada, não apenas pelos diferentes regimes mas muitas vezes pelos próprios artistas, para fins políticos.
O plano político e o plano artístico intersectam-se no plano social, entre o ataque à condição humana e o ataque à própria arte como cultura: aos olhos do regime (como acontece com a generalidade das ditaduras), a arte é glorificada como forma de propaganda nacionalista e dizimada como expressão de liberdade cultural.

Mephisto é um filme que só podia ser europeu: é um filme muito próximo da genialidade. Baseado no livro de Klaus Mann (filho de Thomas Mann) escrito em 1936, a história é baseada no caso verídico de Gustaf Gründgens, cunhado do próprio Klaus e um dos grandes actores alemães do século XX, que tendo interpretado o Diabo na peça de Goethe, assumiu a direcção do teatro de Hamburgo e de Berlim, após ter virado ideologicamente para se manter próximo do regime nazi.
Mephisto é um filme notável a vários níveis, ganhando estatuto e respeito com a reposição num grande ecrã.

PS: É também por proporcionar experiências como esta que a Cinemateca deveria merecer um pouco mais de respeito por quem a subsidia: é a única sala do país a prestar este tipo de serviço e a proporcionar este género de cinema. Mesmo sem dinheiro para legendagem electrónica ou com legendas de qualidade inferior (as legendas de Mephisto foram traduzidas não do alemão mas de uma versão inglesa o que se notou e bem na qualidade das mesmas), quem gosta de cinema a sério não é por aí que deixa de lá ir.

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