terça-feira, 6 de novembro de 2012

À Espera do Super-Homem


Durante grande parte da minha vida estive ligado ao ensino.
Primeiro como aluno, como toda a gente, durante 18 anos (demorei um ano a mais na faculdade) e depois como professor durante 3 anos.
É também por isso que acompanho com bastante interesse tudo o que sejam políticas educativas e reformas ligadas ao ensino. Isto para além de ser um assunto que, naturalmente interessa à maioria das pessoas, provavelmente por ter a ver com a base da formação de uma sociedade: estou convencido de que o sistema de educação de um país determina muito do comportamento futuro dos seus alunos/indivíduos em sociedade.

Vi no sábado um documentário muito bom sobre o sistema de educação norte-americano, À Espera do Super-Homem (Waiting for Superman, 2010), focando o objecto do seu estudo nos níveis onde os problemas ganham uma maior visibilidade (embora possam não ser necessariamente os mais graves): o básico e e secundário.
O problema de partida para uma análise alargada sobre o modo como o sistema funciona e o que poderá estar na causa desse problema foi o do decréscimo da “qualidade da educação” – medida através dos resultados escolares dos alunos a nível nacional.

O filme, ao mesmo tempo que vai relatando a formação do sistema educativo americano, a sua burocracia e os diferentes agentes envolvidos, com particular destaque para os professores, acompanha um conjunto de casos particulares… casos de alunos mais ou menos favorecidos pela vida e que tentam um lugar no comboio que só a educação lhes pode dar na sociedade.
A constatação da deterioração das notas dos alunos a nível nacional ao longo dos anos tem como causas possíveis, assim sugere o filme, um corpo docente em boa parte desmotivado, por não ver o seu esforço e mérito reconhecidos mas também acomodado ao lugar (os que não têm mérito): num país que se preza por ser o símbolo máximo do capitalismo e do liberalismo económico, os professores simplesmente não podem ser despedidos! A razão: os sindicatos de professores são os maiores financiadores dos dois partidos políticos norte-americanos, com especial destaque para os Democratas (embora tal seja irrelevante para este texto).
A outra grande causa diz respeito ao “sistema de faixas” segundo o qual, qual selecção artificial da teoria evolutiva, os alunos são encaminhados à partida, para diferentes níveis de ensino e de exigência conforme critérios tão científicos como “obediência à autoridade”, classe social, etc… como se o estado pudesse dispor à partida (e este “à partida” é muito importante, antes de serem dadas aos alunos condições para prestarem provas em condições de igualdade, ou melhor, de equidade, e assim mostrarem o que valem) do direito de decidir quais os alunos que deveriam ser beneficiados com o nível mais elevado e quais não deveriam. Claro que os alunos das classes mais desfavorecidas (os quais, pela falsa selecção natural já lá iriam parar uma boa parte) eram direccionados para os níveis mais baixos onde, naturalmente, estavam destinados os piores professores.

Este estado da arte levou à formação de um género de escolas com financiamento público mas geridas de forma independente em termos pedagógicos: os resultados nestas escolas começaram a melhorar ao longo dos anos, a ponto da entrada nestas escolas começar a ser feita por sorteio tal o desequilíbrio entre oferta e procura, sobretudo por parte das famílias mais carenciadas.
Estes alunos começaram a ver nestas escolas a oportunidade de terem um ensino que os tratava em pé de igualdade com outros alunos dando-lhes condições para prosseguirem os seus estudos se assim o merecessem, sem que as pernas lhes fossem cortadas à partida.
Embora a arbitrariedade do sorteio possa parecer injusto, é para mim a menos injusta das soluções: a verdade é que, à partida (estamos a falar de alunos de 8, 10 anos), não há critério académico credível capaz de ser diferenciador a ponto de qualquer pedagogo poder dizer: este merece mas aquele não merece, apenas com base em resultados de exames regionais ou nacionais.
Os sorteios são dramáticos: apesar do espalhafato habitual estado-unidense, onde a euforia alterna com a histeria depressiva, este comportamento é “simplesmente” uma forma diferente desta sociedade encarar a vida.
Outra forma diferente de estar em sociedade traduz-se numa certa forma de subsidiação, que na Europa se chama corrupção (embora nem por isso se deixe de praticar) – o exemplo do financiamento partidário pelos diferentes lobbies, com destaque para o sindicato dos professores é disso exemplo. Para esta corporação, “é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma” nas palavras do príncipe de Falconeri do filme de Visconti O Leopardo (Il Gattopardo, 1963), traduzido na atitude aberrante com que renunciaram à possibilidade dos seus membros terem a oportunidade de progredirem por mérito em troca da estabilidade:
A responsável da secretaria da educação, ao seguir alguns dos métodos destas “escolas marginais”, que, em vez de separarem os alunos à partida, preparavam todos para um ensino mais prolongado (a.k.a. universitário), uma ideia que, se for mal interpretada, pode levar à ruína, conseguiu melhorar os resultados.
O passo seguinte, para continuar a reforma consistia em diferenciar os professores: a ideia de os professores poderem optar pelo emprego para a vida com reduzido aumento salarial ou não estabilidade no emprego, mas verem o seu mérito ser recompensado podendo alcançar o dobro do salário parecia uma proposta tentadora e racional até. A 2ª proposta (a da mudança) não teve um único voto porque o dito sindicato não permitiu… vale a pena qualificar?

É irónico que o bastião do capitalismo a glorificar uma das utopias do comunismo: a educação, formação e aquisição de conhecimentos está ao alcance de todos, assim sejam criadas condições: a tão apregoada equidade. Curioso.
A meu ver, há duas questões neste modelo que me levantam algumas dúvidas: o foco demasiado pesado no professor e no ensino em detrimento do aluno, como se este não fosse responsável em quase nada dos seus resultados escolares a o foco demasiado afunilado na universidade, como se fosse a única via de futuro para estas crianças, o objectivo último da população de um país e também de ascensão social. Bem sei que vivemos numa sociedade competitiva, mas numa sociedade deve haver lugar para todos e se a escola é muitíssimo importante para a vida, não é o acesso à faculdade que determina se cada indivíduo é mais ou menos pessoa. É apenas uma entre muitas possibilidades de vida.

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