domingo, 9 de dezembro de 2012

Pietá


Com Pietá (Pieta, 2012), terminei o “Grand Slam” de 2012: vi os três filmes que venderam os três principais festivais de cinema europeus em 2012. E se a fasquia estava muito elevada depois do ano passado ter contemplado os dois melhores filmes do ano entre os três vencedores - A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011) venceu a Palma de Ouru em Cannes e Uma Separação (Jodaeiye Nader az Simin, 2011). O Urso de Ouro em Berlim. Fausto (Faust, 2011) completou o pódio com o Leão de Ouro em Veneza) - este ano, embora não tão bom, tem (pelo menos duas) obras muito boas.
Começou muito aquém das expectativas com César Deve Morrer (Cesare deve morire, 2012) a vencer em Berlim. Amor (Amour, 2012) de Michael Haneke elevou (e quanto!) a média deste ano sendo um digníssimo sucessor de A Árvore da Vida. Em Veneza, Pietá, um filme sul-coreano de Ki-duk Kim não fica atrás de Amour no que respeita à força com que nos assalta o coração tal a explosão de sensações que transmite, qual delas mais forte.
Também o amor é um dos temas centrais deste filme, que vai muito para além de tudo o que parece. A partir de dada altura as surpresas e reviravoltas sucedem-se a um ritmo tal que deixei de tentar adivinhar a cena seguinte e simplesmente deixei-me levar. É um filme perturbador e que me deixou mal disposto de uma forma que gosto de testar: é também isto que gosto no cinema, o seu poder para, em hora e meia, ser capaz de me fazer experimentar os limites do ser humano… é como se, por um momento pudesse fazer um intervalo da vida e pedir outra emprestada, sentir o que senti ao ver este filme (com Amour passou-se o mesmo neste sentido), e regressar depois calmamente à vida.
O “calmamente” é relativo pois nunca ficamos iguais depois de cada experiência vivida.
Creio ser esta a grande diferença dos filmes deste ano (destes dois pelo menos): são filmes que nos deixam angustiados, desconfortáveis… são filmes com uma intensidade dramática que nem sempre é fácil de atingir. E são filmes que não caem na choradeira mainstream para onde resvalam muitas histórias (em Amour a tentação era maior e só um grande cineasta, como Haneke, conseguia aguentar o realismo com aquele rigor).
Pietá é um filme que nos empresta uma panóplia de sentimentos... desconforto, aversão, pena, amor, vingança, justiça… porque é um filme sobre a sociedade em que vivemos, sobre o amor, a sua descoberta e os riscos que comporta: porque o amor também pode ser uma prisão: traz um comprometimento com o outro que a sua ausência não comporta. O crescendo em que a história vai evoluindo é digno dos melhores thrillers no que respeita à forma, mas é também um retrato de como a vida pode fugir ao nosso controlo quando deixamos que os sentimentos tomem conta das nossas acções. Não concebo que possa ser de outra forma, mas, aparentemente, há vidas onde não há espaço para grandes sentimentos e também isto é muito bem retratado.

Por serem filmes um pouco fora daquilo que a Academia gosta, não sei se estes dois filmes irão para a lista dos cinco candidatos ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro (os três estão entre os setenta e um pré-seleccionados, juntamente com o português Sangue do Meu Sangue) mas, dos cinco que vi, três deles mereciam lá estar (Depois de Lúcia (Después de Lúcia, 2012), do México, seria um digno acompanhante destes dois – ainda não vi o português). Contudo, o facto de terem vencido o prémio principal dos respectivos festivais em que apostaram mostra que pelo menos já tiveram o merecido reconhecimento.

Sem comentários:

Os Taxistas do Zêzere

O sol é diferente a cada manhã quando se cruza no caminho que diariamente percorro para o trabalho ao longo da marginal. E mesmo nos dias e...