domingo, 2 de dezembro de 2012

West of Memphis



Não podia deixar de ver o último capítulo da história.
Éramos três na sala de cinema, apenas na 2ª semana em cartaz e já com horário reduzido. Se não me apressasse arriscaria a ter que esperar que fosse para o circuito comercial.

A Oeste de Memphis (West of Memphis, 2012) é o filme feito pelos artistas que patrocinaram a defesa dos West Memphis 3: Peter Jackson, Eddie Vedder e Johnny Deep para referir os mais carismáticos. É um documentário bem mais “hollywoodesco” do que a importantíssima realizada por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky.
E se em grande parte, traz muito pouco no que respeita a nova informação em comparação a Paradise Lost 3: Purgatory (2011), a forma como a história é recontada e os factos são apresentados conduzem a uma acusação mais efectiva de Terry Hoobs, o padrasto de uma das crianças assassinadas.
A forma como a história é apresentada (ou terá sido por eu ter visto todo o processo e saber a evolução do mesmo bem como o que foram sentido todas as vítimas nele envolvidas?) é, mais uma vez, tocante: a par do primeiro filme, que desencadeou toda esta onda que culminou na libertação dos três (agora adultos) inocentes, também este filme me tocou de uma forma especial. Não apenas por apelar de uma forma mais emotiva ao sentimento (a veia comercial da realização), como por clarificar três aspectos muito importantes, que haviam já sido abordados no terceiro e último filme da série Paradise Lost.


Começando pelos piores (para terminar bem), a fabricação de provas contra os jovens foi algo tão porco, tão sem princípios, tão mesquinho, que a mim me custou acreditar que profissionais (polícia e advogados) fossem capazes de tal. A pressão para encontrar o culpado da morte tão macabra de três crianças levou a que se forçassem confissões e sugerissem declarações; se interrogassem “testemunhas” um dia inteiro do qual só ficou gravada uma hora (a hora que interessava depois de ajustados quase todos os detalhes da história fabricada); se treinassem testemunhas (pelo menos duas) a mentir!; se fabricassem provas com a conivência de um dos promotores! Demasiado jogo sujo. Creio que estes “poderosinhos” nunca pensaram que o caso iria ser vasculhado como foi; que o facto de prenderem a “escumalha”, pobre e delinquente seria suficiente para saírem bem na fotografia como os justiceiros de West Memphis. Ironicamente, acabam por ser lembrados, eles próprios, como os mais nojentos em todo este processo (quase tão nojentos quanto o assassino).

O segundo: o sistema judicial americano: os três homens foram libertados devido a um acordo político: ao abrigo da jurisprudência, o Estado pôde propor a libertação dos condenados caso eles se declarassem culpados. E porquê? Porque, embora as provas da sua inocência fossem evidentes e mais do que suficientes para se efectuar um novo julgamento, tal estava dependente do parecer do juiz (o mesmo que julgara o caso inicialmente), e que, tal como os advogados de acusação e o chefe da polícia responsável pela investigação, achou que se saía melhor não admitindo que havia errado, mantendo a posição inicial. Todos estes espécimes são tão burros que, convencidos que estão a salvar o coiro com esta atitude, apenas contribuíram para que deles fosse formada uma opinião, porventura mais nojenta do que o que são efectivamente enquanto pessoas.
Com o acordo, o Estado garantia que não reabriria o processo, porque tal traria um grande problema: indemnizações! Um milhão de dólares para cada um deles por cada ano que passaram na prisão injustamente: Tudo somado o Estado teria que pagar cerca de 60 milhões de dólares. E o político eleito não podia causar essa “maçada” aos seus eleitores!!! Efeito colateral desta hipocrisia vergonhosa: sem novo julgamento não há reabertura do processo e assim, aquele sobre quem recaem fortes indícios de ser o autor dos homicídios nunca será levado a julgamento!

O terceiro: a força de carácter de Jason Baldwin: o acordo só seria válido se os três o aceitassem. Bastava um não aceitar para todos continuarem com as suas penas. Jason Baldwin tinha, em 1993, 16 anos. Era o mais novo dos três jovens. Recusou a proposta da liberdade em troca da declaração de culpa por não querer conceder nenhuma benesse ao Estado mas continuar a lutar pelo reconhecimento da sua inocência incondicional, mesmo que isso lhe custasse a liberdade. Acontece que, sem a sua concordância, muito provavelmente o seu amigo Damien Echols correria o sério risco de ser executado. Então, numa demonstração ainda maior da força do seu carácter, Baldwin deu-se também como culpado, abdicando da sua luta e de uma possível indemnização, para que o amigo não corresse o risco de ver cumprida a sentença.

Saber que este caso não é único, e que é mesmo mais comum do que eu poderia pensar é algo assustador, mas saber que há gente disposta a ajudar para lutar contra estas injustiças de sistemas aparentemente evoluídos, que acontecem em países evoluídos feitos por gente evoluída, é muito reconfortante e inspirador.


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