sábado, 12 de janeiro de 2013

Óscares - Parte I


Saídas as nomeações aos Óscares, já vi 4 dos 9 nomeados.

E se sobre Os Miseráveis (Les Miserables, 2012) já muito falei e recentemente sobre Argo (Argo, 2012) nada tenho a acrescentar, sobre Amor (Amour, 2012) vou tentar não me repetir (muito) mas o filme merece uma menção.
Amour é, até agora, o melhor filme desta temporada: o melhor dos filmes que vi de Haneke, e uma história que eu não esperava ver tão reconhecida pela indústria cinematográfica norte-americana.
Uma história de amor no fim da vida, vivida dentro de um apartamento em Paris.
Dois ex-músicos vivem sós em Paris. A filha pouco lhes liga e quando um ataque torna Anne dependente de Georges, o amor que partilharam toda a vida será posto à prova até ao limite.
O que é amar? O que fica do amor quando tudo começa a partir, quando o corpo começa a mudar, quando o físico começa a degradar-se, quando a memória começa a desaparecer, quando aquilo que somos se aproxima perigosamente de um estado vegetativo? O que sentimos pela pessoa que começa a ser uma sombra da pessoa de quem gostámos? E contudo, continuamos a gostar? Para Michael Haneke, isto é Amor.
Do perfeccionismo de Haneke, da magistralidade das interpretações, do cuidado com o cenário ou da dureza na exposição da realidade já falei quando aqui escrevi há uns dois meses.
O carinho de Georges por Anne é um dos triunfos da história, quase toda ela sobre o que de melhor tem o ser humano.
As 5 nomeações que tem são todas elas bem merecidas. Faltam duas para mim (Actor Principal e Direcção Artística), mas o facto de um filme desta qualidade e falado em francês ter sido reconhecido desta forma vale por si mesmo. Dos 4 que vi até agora, Amour é, de longe, o melhor.

Bestas do Sul Selvagem (Beasts of the Southern Wild, 2012), não sendo um filme fora-de-série, é uma experiência bonita de se viver. É uma história sobre a solidão e sobre o nosso lugar no mundo, sobre o que somos uns para os outros e sobre o modo como somos capazes de sobreviver quando a realidade que a vida nos ofereceu nos é hostil. É uma história sobre a força natural de um ser humano, contra as bestas selvagens que o perseguem, sejam elas imaginárias, memórias de um passado que pode não ter existido ou tão reais quanto a falta de humanidade dos seres humanos.
Bestas do Sul Selvagem é uma grande experiência visual: a força das imagens é um dos seus pontos fortes, onde a câmara nunca se perde no meio da pobreza material e espiritual que pretende mostrar. No meio dessa submissão à nobreza aparece Hushpuppie (representada de forma brilhante por uma pequena com um nome curioso: Quvenzhané Wallis), uma criança sob cujo olhar acompanhamos todos os acontecimentos que vão ocorrendo à sua volta. A câmara deste filme são os olhos e a mente de Hushpuppie, habitante de um “sul” renegado pelos ricos e poderosos, que luta por encontrar a mãe, pelo amor do pai e por se encontrar a si própria. A banda sonora acompanha a alegria triunfal com que Hushpuppie vai vencendo os obstáculos com que a Natureza a presenteia, ora com inocência, ora com o sonho, ora com a luta ora simplesmente com o pragmatismo.
É um filme com laivos de Realismo Mágico, sobre como o amor de um pai se pode manifestar pela preparação da filha para reagir aos males do mundo “quando ele já cá não estiver”, e onde a subida das águas devido à ira da Natureza não é mais do que a manifestação exterior de uma certa decadência do espírito humano.
As nomeações para os Óscares vêm reconhecer a coragem de Benh Zeitlin nesta sua primeira longa-metragem, é um filme com o qual fiquei muito agradado, pese o tom pesado da história: tem algo que nem todos os filmes que tentam conseguem: contemplar a esperança sem dourar a realidade.

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