sábado, 23 de fevereiro de 2013

Dois grandes exemplos


Pecados Íntimos (Little Children, 2006) é um filme verdadeiro, muito verdadeiro, que só pôde atingir a qualidade que tem pelo naipe de intérpretes que reuniu e pelo realizador e argumentista, Todd Field. Só havia visto um filme de Todd Field, no cinema, nos tempos de faculdade: chamava-se Vidas Privadas (In the Bedroom, 2001) e foi o filme sensação desse ano, por ter sido o outsider desse ano nos Óscares. Confesso que o fui ver depois de saber das nomeações, com uma colega de curso, que não gostou do filme. A mim, na altura não me pareceu nem sim nem não, mas vejo hoje que esta indefinição teve mais a ver com o facto de estar a entrar no género do que reconhecer alguma falta de qualidade ao filme. Hoje, passados mais de 10 anos, e sem o ter revisto, acho um grande filme, de novo com um grande argumento e um conjunto de actores do melhor que há (Tom Wilkinson, Sissy Spacek e Marisa Tomei).
Pecados Íntimos, mostra a fragilidade das relações amorosas (ou íntimas, porque nem sempre o amor marca presença), com uma acutilância incómoda mas ao mesmo tempo, com uma filmagem paradoxalmente agradável: no bairro ideal as vidas provadas contêm os ingredientes das vidas de quaisquer outras vidas em qualquer outro lugar, com coisas boas, coisas más e coisas que carecem de juízo por, simplesmente, fazerem parte da vida.
Kate Winslet e Jennifer Connelly são fantásticas. Patrick Wilson está bem melhor do que Raoul, o “pãozinho sem sal” de O Fantasma da Ópera (The Phantom of the Opera, 2004).
Este filme formou em mim outra opinião: a importância do modo como uma história é contada. Há muitas histórias banais contadas no cinema, mas, a forma como é contada, por um lado, e a profundidade que lhe é imprimida, por outra, fazem toda a diferença. Pode isto parecer um conjuno de banalidades, mas não é: é fácil ridicularizar qualquer história, contando-a em três ou quatro frases patéticas (como eu bem faço a respeito da série O Senhor dos Anéis: basta incluir na descrição termos como anões, monstrinhos, orelhas em bico e árvores andantes), mas a forma como nos é transmitida a ideia e até onde se vai na exploração da mesma pode tornar um filme imune a uma crítica destrutiva. Não que a crítica não possa existir, mas torna-se inócua. E Todd Field conseguiu imunizar este filme muito bem.
Pondo a nú diversas questões a influência que a nossa educação tem na nossa sexualidade, no modo como nos comportamos, como julgamos os outros, como replicamos comportamentos, e como tentamos reparar o que entendemos serem erros, a história, embora narrada “de fora”, coloca o espectador no centro da trama. E isto foi muito bem conseguido.

Perseguindo Amy (Chasing Amy, 1997), é um filme que, de um ângulo completamente diferente, também aborda o tema das relações. Para além da natureza da homossexualidade e da frontalidade com que o assume pela forma como considera a pessoa antes do género, é um filme que mostra a dificuldade que temos em lidar com o passado: o nosso e o da nossa parceira (ou parceiro). De como encaramos o passado da outra pessoa em função da nossa própria experiência de vida e do quão justo tal será.
Perseguindo Amy caminha no limiar da verosimilhança. Houve momentos em que pensei que o filme ia deitar tudo a perder, que a história se iria colar ao melodrama clássico, mas consegue sempre surpreender e dar a volta: nem sempre a vida tem que seguir o percurso linear dos filmes… há alturas em que o cinema deve também reflectir a vida como ela é, para variar, e nisso o cinema independente é mestre.
Este foi, provavelmente o primeiro filme em que gostei de ver Ben Affleck como actor (afinal ele também consegue rir, chorar e dançar!!!) Embora numa fase inicial da sua carreira, a sua prestação neste filme é muito boa (costuma ser outro "pãozinho sem sal"), tal como a de Joey Lauren Adams, a outra personagem central da história… uma actuação brilhante.

Estes são dois exemplos de fantástico cinema independente que nos últimos 20 anos ganhou público e reconhecimento pela crítica e sobretudo, ganhou a possibilidade de poder ser feito sem orçamentos exorbitantes. Embora estes dois filmes tenham grandes estrelas (e, por essa razão talvez esteja envolvido um valor “generoso” na sua produção), mostra como o cinema indie tem triunfado, não sei se pelo facto de as ideias começarem a escassear aos grandes estúdios (veja-se a quantidade de remakes a que temos assistido nos últimos anos) ou se simplesmente muita gente começou estar mais atenta a este género de cinema. Prefiro esta hipótese: faz-me sentir mais “em casa”.

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