terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Um Grito de Coragem


Vi ontem um filme de que já tinha ouvido falar, conhecia a história (em três frases), já havia visto uma ou outra cena e há muito que tinha curiosidade.
Ontem matei-a (a curiosidade).
Um Grito de Coragem (A Cry In The Dark, 1988) conta a história de uma família australiana cuja filha bebé, durante umas férias num acampamento de visita a Ayers Rock (o “maior rochedo do mundo”), é levada por um dingo.
A família é uma fervorosa adepta da Igreja Adventista do 7º Dia e utilizam a fé para divulgar alguma mensagem de esperança e esboçar uma reacção que foi confundida com protagonismo pelo país.
O filme realça muito as reacções de rua, os boatos e a histeria colectiva que se apodera das massas em situações que apelam ao coração. Quando o processo é reaberto e as suspeitas recaem sobre a mãe da criança (Meryl Streep, igual a si própria) com a colaboração do pai (Sam Neill, a revelar-se um grande actor), até as reacções dos acusados são postas em causa, como se existisse um comportamento standard que toda a gente devesse seguir para demonstrar a sua inocência.
Sem me alongar mais na história, refiro apenas dois pontos que me despertaram a atenção:

- Os julgamentos na praça pública e a facilidade com que julgamos os outros. Mais, a facilidade com que mudamos de critério quando algo de suspeito se passa com alguém que nada tem a ver connosco. Há uma frase no final do filme que tem uma força enorme: “I don't think a lot of people realise how important innocence is to innocent people.”. Este filme faz jus a esta frase muito bem.

- A associação à religião, ao culto, etc… como forma de ligar o crime a um qualquer tipo de sacrifício (algo sobre o qual escrevi há pouco tempo a propósito da história dos West Memphis 3) – começo a acreditar que os crimes motivados por este género de seitas ou com motivações religiosas a este nível (não estou a falar de bombistas suicidas ou de “guerras santas” – isso, muito mais do que religião, é ódio), acontecem muito mais na imaginação do colectivo do que na realidade em que existimos. A existência de tais motivações atraem-nos, por alguma mórbida razão. Gostamos de a ver retratada em filmes e documentários (eu falo por mim, gosto muito de ver histórias e investigações de crimes reais), mas tal não deveria significar que assumíssemos que quem pertence a um culto é automaticamente capaz e passível de cometer tal atrocidade.

Não sendo um grande filme, é uma história que levanta e bem muitas questões, segura com grandes interpretações e que possui o grande mérito de se manter interessante até ao final sem inventar algo que não aconteceu, algo raro quando vemos um filme “baseado numa história verídica” (a palavra principal aqui é o “baseado”). Este filme, no início, avisa-nos simplesmente de que “esta é uma história verídica”.

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