sábado, 16 de março de 2013

A Caça



Uma das razões por que adoro cinema é que me permite experienciar situações-limite da vida, mas com uma enorme vantagem em relação às situações-limite da “vida real”: não há o risco de sofrer as consequências a não ser as sequelas que um filme uma experiência cinematográfica pode deixar as quais, convenhamos, são bem menores do que uma experiência real. Não tenho intenção de matar ninguém, mas se vir um filme sobre a fuga de um assassino, posso escolher (ou a minha natureza pode impelir-me) a colocar-me na pele do assassino ou do perseguidor e tentar perceber o que faria “em tempo real” sem o risco de ser apanhado.
Quero com isto dizer que não vou ao cinema apenas para “ver coisas que me deixem bem disposto” porque “a vida já está cheia de coisas que me chateiam”, etc… argumentos que oiço frequentemente, e que respeito (até têm lógica, mas mesmo que a não tivessem), mas que não traduzem a minha perspectiva.

Um filme que vi ontem e que está quase ao nível de Amor (Amour, 2012), A Caça (Jagten, 2012), traduz esta ideia na perfeição.
A Caça é um filme dinamarquês, brilhante na forma como consegue transmitir o sentimento de um homem inocente que tem que lutar contra toda uma comunidade devido a uma “mentira inocente”. As consequências catastróficas quando o “efeito manada” é accionado são construídas na perfeição. Que comportamento é suposto que tenhamos quando sabemos que estamos inocentes mas a alavanca “electrocutante” da opinião pública já foi accionada? Como lutar pela prova da nossa inocência após a absolvição da justiça mas não da comunidade? Como reagir ao desespero e, mais do que isso, à loucura, quando somos completamente marginalizados por algo que não fizemos?
Este é o drama de Lukas, brilhantemente retratado por Mads Mikkelsen.
As questões estão colocadas na primeira pessoa porque, durante o filme, eu constantemente me colocava no papel do protagonista tentando inventar reacções que atenuassem o impacto de algo inexistente, e simplesmente, não conseguia.
Os julgamentos sumários (e primários) que todos os dias fazemos quando vemos as notícias, tantas vezes enviesadas, truncadas, “tratadas”, … podiam muito bem inserir-se na reacção daquela comunidade dinamarquesa, só que visto de fora, tal comportamento parece abominável, excepto quando somos nós próprios a julgar.
Num tempo em que a pedofilia está na ordem do dia, a desculpa cobarde de que “as crianças nunca mentem” e a paranóia populista que tantas vezes se mascara de conceitos como “precaução” ou “justiça” são os ingredientes para um filme fantástico.
E se o ritmo do filme nem sempre é o melhor, o argumento é um exemplo de realismo: numa história que, com outro tratamento poderia ser centrada numa questão de justiça “árida”, acaba por apontar o foco para o lado humano da questão. A justiça não deixa de estar presente, mas não é com advogados, juízes e tribunais que ela é posta à prova: é com seres humanos tão simples, tão envolvidos e tão falíveis como qualquer um de nós.
E, mais uma vez, o desenlace é perfeito, porque também na vida real fica sempre algo em aberto… mas não na forma que quem ler isto possa pensar (porque normalmente não estrago os filmes que aqui menciono a quem não os viu).
Um filme (mais um) que me deixou tão desconfortado, revoltado mesmo, mas que me fez ver o outro lado de uma questão muito sensível e muito actual, e o modo como podemos contar ou não com os outros, ou como a confiança e a dúvida andam sempre tão próximas.

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