domingo, 3 de março de 2013

Como o Brasil povoou e revisitou a minha infância


Há dias em viagem, num dos breves momentos em que o rádio do meu carro (sem antena) permitiu apanhar uma estação durante mais de cinco minutos sem ruído, começou a tocar No Rancho Fundo, e veio-me à lembrança essa fantástica telenovela, Tieta do Agreste, que passou em Portugal tinha eu uns 9 ou 10 anos.
Lembro-me da novela e da banda sonora, fantástica, da qual esta música que agora tocava fazia parte. E com este avivar da memória, lembrei-me da novela, das canções (All I Ask Of You, de O Fantasma da Ópera chamava-se Tudo Que Se Quer em Tieta) e achei curioso vir Tieta até mim (salvo seja) no momento em que leio pela primeira vez um romance de Jorge Amado (apenas havia lido um conto).

Ainda Capitães da Areia não vai a meio e já captou a minha simpatia. Pelo menos a simpatia: creio que no final vai captar muito mais do que simpatia, mas até ao fim, tudo pode acontecer. Até porque muitas vezes, é nos dias após a obra ter terminado, seja filme ou livro, que a opinião se forma de uma forma muito mais sustentada, sincera e segura. De qualquer forma, a precaução em emitir um juízo que mais tarde tenha que reparar não é sinónimo de que não desfrute do presente: Capitães da Areia está a ser uma experiência maravilhosa.
A história de um grupo de jovens delinquentes na Bahia (é assim que está escrito no livro) é contada com tamanha perfeição que, passada a introdução, me tem prendido pela perfeição da escrita e pelo humanismo com que o autor descreve os sentimentos de revolta e ao mesmo tempo de criança dos miúdos.
Contar esta história na terceira pessoa foi a técnica possível para descrever tantos personagens fantásticos. Contudo, o intimismo é tal que é como se o narrador conseguisse vestir a pele de cada criança, pois é através delas que vemos o mundo e que sentimos os anticorpos que este tem para com elas.
Assumidamente enviesado à Esquerda, politicamente falando, é bom que o seja. Se tal não acontecesse, seria como que um trabalho sociológico ou um ensaio sobre a aplicação da justiça… não seria Poesia.
E a Poesia deste livro transforma tudo em ouro... e isso é um dom.
Mas é uma poesia tão bela na sua forma que define o poder que a Arte tem: a “poesia” com que é escrita uma cena de violação, um assalto ou uma luta são um convite a que olhemos um criminoso como uma pessoa, e para essa pessoa como a criança que é, com todas as agruras da vida que carrega consigo. É perigosamente poético, mas isso constitui a essência da Arte: a subversão ou elevação da realidade a um ponto tal que o que representa descola da realidade deixando de a ser… ultrapassa-a, para ser “apenas”… uma obra de arte.
Curioso também é o facto de que o outro livro que li e que tocou no tema da infância com uma imensa ternura foi também escrito por um autor brasileiro, José Mauro de Vasconcelos. Chama-se Meu Pé de Laranja Lima.
Como já escrevi mais do que uma vez sobre ele, não me repetirei.
Comparando com a escrita de Capitães da Areia, em Meu Pé de Laranja Lima faz todo o sentido a vida de Zezé ser contada na primeira pessoa: é uma história pessoal e é através dos seus olhos que vemos o mundo.

Não sei se os escritores brasileiros têm uma propensão maior para descrever, remeter, replicar, sentir a infância do que outros. Não creio. Penso que em todo o mundo há gente capaz de tamanha empresa. Apenas acho que, por um lado, não sou um leitor tão assíduo que me permita conhecer este tópico em escritores pelo mundo fora, e por outro, tive a sorte (e o engenho) de escolher provavelmente dois entre os melhores livros brasileiros neste aspecto particular.

“No começo da noite caiu uma carga de água. Também as nuvens pretas logo depois desapareceram do céu e as estrelas brilharam, brilhou também a lua cheia. Pela madrugara, os Capitães da Areia vieram. O Sem-Pernas botou o motor a trabalhar. E eles esqueceram que não eram iguais às demais crianças, esqueceram que não tinham lar, nem pai, nem mãe, que viviam de furto como homens, que eram temidos na cidade como ladrões. Esqueceram as palavras da velha de lorgnon. Esqueceram tudo e foram iguais a todas as crianças, cavalgando os ginetes do carrossel, girando com as luzes. As estrelas brilhavam, brilhava a lua cheia. Mas, mais que tudo, brilhavam na noite da Bahia as luzes azuis, verdes, amarelas, vermelhas, do Grande Carrossel Japonês.”

2 comentários:

Migas disse...

Tenho a dizer que as palavras povou, revisitou e tieta, tudo no mesmo post...parece-me um bocado porcalhão.
Ainda procurei outros posts onde falasses sobre o zézé, não encontrei, mas desse não tenho qualquer dúvida que te marcou...imagino que o zézé seja o teu herói :)

António V. Dias disse...

A Tieta era bem boa... a novela claro! Muito aprendeu a minha geração com aquela novela... aquele genérico... que escola!

O Zézé não é exactamente o meu herói, mas é sem dúvida um herói :)
Andei à procura e encontrei este: http://uma-noite-aconteceu.blogspot.pt/2011/12/defesa-de-meu-pe-de-laranja-lima.html
Não sei se escrevi mais alguma coisa sobre o livro mas pelo menos encontrei um post ;)

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