quinta-feira, 21 de março de 2013

O Estranho Caso do Cão Morto


Um jovem autista conta, na primeira pessoa, os acontecimentos que mudaram a sua vida. Christopher Boone desafia a rotina e o seu “porto seguro” para conseguir levar por diante a sua vida. Possuidor de uma inteligência notável para a Matemática e para a Física, Christopher fica desorientado quando algo foge à meticulosa organização do seu mundo. Sem a rotina que lhe confere à vida essa organização, nem o crivo de um super-ego que lhe é deficitário, Christopher diz e faz o que pensa, com uma inocência que se confundiria facilmente com egoísmo não acompanhássemos os pensamentos e motivações do próprio.
Mark Haddon consegue com este livro, simples na escrita mas riquíssimo no conteúdo, fazer mais pela compreensão pelos comportamento dos autistas do que todo o depósito académico que “levei” sobre esta “necessidade educativa especial”.
Sem muito mais para dizer, porque este livro merece mesmo é ser lido, deixo um pequeno excerto que resume muito da beleza de ser humano que é Christopher:

As pessoas acreditam em Deus, porque o mundo é muito complicado e elas acham pouco provável que algo tão complicado como um esquilo voador, o olho ou o cérebro humano pudessem acontecer por mero acaso. Mas elas deviam pensar de forma lógica; se pensassem de forma lógica, veriam que só podem formular esta pergunta, porque aquilo já aconteceu e elas existem. E existem milhões de milhões de planetas onde não há qualquer vida, só que nesses planetas não há ninguém com cérebros para notar isso. E é como se toda a gente no mundo estivesse a atirar moedas; alguém acabaria por apanhar 5698 caras de seguida e iria pensar que era muito especial. Mas não seria, porque existiriam milhões de pessoas que não apanhariam 5698 caras.
E há vida na Terra devido a um acidente. Mas é um tipo de acidente muito especial. E para que este acidente aconteça desta forma especial, têm de existir “3 Condições”, e estas são:

1. As coisas têm de se copiar a elas próprias (a isto chama-se Replicação)
2. Elas têm de cometer pequenos erros ao fazê-lo (a isto chama-se Mutação)
3. Estes erros têm de ser os mesmos nas suas cópias (a isto chama-se Hereditariedade)

Estas condições são muito raras, mas são possíveis, e produzem vida. E simplesmente acontece. Mas não tem de acabar em rinocerontes e seres humanos e baleias. Podia acabar em qualquer coisa.
E, por exemplo, algumas pessoas perguntam como é que um olho pode acontecer por acidente? Porque um olho tem de evoluir a partir de outra coisa qualquer muito parecida com um olho, e não acontece simplesmente devido a um erro genético, e qual é a utilidade de metade de um olho? Mas metade de um olho é muito útil, porque significa que um animal pode ver metade de um animal que o quer comer e que pode fugir, e comerá o animal que só tem um terço de olho ou 49% de olho, porque não fugiu com rapidez suficiente, e o animal que é comido não terá bebés, porque morreu.
As pessoas que acreditam em Deus acham que Deus pôs os seres humanos na Terra, porque acham que os seres humanos são o animal superior. Mas os seres humanos não passam de um animal e irão evoluir para outro animal, e esse animal será mais esperto e colocará os seres humanos num jardim zoológico, tal como nós fazemos com os chimpanzés e com os gorilas. Ou então os seres humanos apanharão uma doença e morrerão, ou irão produzir demasiada poluição e matar-se-ão a si próprios, e depois só existirão insectos no mundo e eles serão o animal superior.

1 comentário:

Jorge Ramiro disse...

Amo ler, e eu realmente gosto de todos os gêneros da literatura. Eu tenho um pet shop e em determinados momentos do dia, eu estou tranquilo, então eu posso e ler naquela hora do dia.

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