quarta-feira, 6 de março de 2013

Sleepers



Não me lembro que idade tinha quando vi este “filme” pela primeira vez no canal Hollywood. 15, 16 anos talvez… e apanhei apenas a 2ª parte do filme. Contava no elenco com um actor britânico de que gosto, embora nunca tenha sido um artista de primeiro plano, Nigel Havers. Decorei o nome, Sleepers (Sleepers, 1991) para um dia mais tarde procurar.

Finalmente consegui chegar ao filme, que na realidade é uma série: uma mini-série, na realidade, de quatro episódios, não sendo portanto daquelas infinidades com vinte temporadas de vinte episódios cada para "encher chouriços" e encaixar banalidades em metade do tempo.
Em 1991 o mundo estava a apanhar os despojos do Muro de Berlim e a tentar descobrir o que fazer com eles. Ainda não havia o distanciamento para se avançar com um rescaldo isento e objectivo da Guerra-Fria, e um certo tipo de Literatura, Cinema e Televisão de espionagem, que tinham no conflito EUA-URSS um viveiro infinito de temas com base real ficou órfão.
Sleepers surge nesse período, a tentar apanhar os últimos laivos do sentimento que havia guiado o mundo por mais de quarenta anos. A série conta a história de dois agentes do KGB que são introduzidos em Inglaterra em 1966, numa missão ultra-secreta, mesmo dentro da organização.
Vinte e cinco anos mais tarde o KGB descobre a existência dessa missão e dá pela falta dos agentes. Empreende então uma caça aos homens.
O jogo do gato e do rato começa, com o MI5, a CIA e o KGB ora a competirem ora a colaborarem para apanhar os dois agentes e descobrir a essência da missão. Mas ambos já se haviam aculturado e estabelecido perfeitamente na sociedade britânica e, assim que se apercebem de que andam no seu encalço, iniciam a fuga.

Abstraindo o exagero das caricaturas dos agentes secretos, uns mais patetas que outros, mas todos demasiado incompetentes para serem reais e levando numa de “desportiva” os dois homens estarem tão inseridos no estilo de vida inglesa que se esqueceram do que é um agente secreto (há falhas demasiado óbvias para serem verdade, mesmo num ex-agente), gostei de observar como uma série dos bons velhos tempos ainda consegue reavivar uma forma de argumento que vai rareando, mesmo no cinema. Sem um enredo demasiado complexo, os episódios vão passando sem que seja necessária demasiada atenção, sem grandes segredos ou intrigas recambulescas. Mas quando a série chega ao fim (mais como um filme de duzentos minutos) e olho para o resultado como um todo, a qualidade sobressai.
Acontece por vezes o todo ser superior à soma das partes, mas tenho visto tanto o contrário (sobretudo em cinema), em que uma história que promete muito, com muitos detalhes e argumentos complicados de seguir, no final se resume a uma desilusão que dá em nada de jeito, que é bom, para variar, ver histórias que, moderando a sua ambição, fazem dessa humildade uma arma.

Depois, a qualidade britânica vem ao de cima, mais concretamente da BBC. As séries produzidas na Europa, talvez por rarearem face às americanas ou talvez por decorrerem num espaço que me é mais próximo, realçam mais a noção do espaço e do tempo em que se inserem: ver os agentes do MI5 a deslocarem-se num Austin Metro resume a essência desta ideia, tal como da inaceitabilidade de olharmos para esta história como algo apenas factual, mas também com espaço para uma boa dose de imaginação.

2 comentários:

scheeko™ disse...

John Adams. The Wire.
Tenho dito.

António V. Dias disse...

All In The Family, Family Ties, Cosby Show... isso é que eram séries! ;)
O John Adams ainda não perdi a esperança que um dia me dê vontade de a ver.

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