sexta-feira, 12 de abril de 2013

Não há paciência


A proliferação de comentadores nos últimos tempos, seja na imprensa escrita, na rádio ou na televisão, sobre política e futebol é “sufocantemente rasca”.
Não sei se só agora comecei a reparar no fenómeno ou se ele sofreu um aumento exponencial no último ano, mas com tanta oferta de fraquíssima qualidade (o episódio com o Dias Ferreira é um dos episódios deprimentes que exemplificam a mediocridade intelectual do que é dito), comecei a fartar-me e, o pouco que ainda via dos blocos informativos de debate, fosse sobre política ou sobre bola, deixei de ver.

Normalmente a concorrência, quando exercida com elevação, deveria ter como resultado um incremento de qualidade. Mas nesta situação tal não acontece… nem podia acontecer: a guerra de audiências tem primado pelo nivelamento por baixo, e o desporto e a política apenas se têm limitado a acompanhar o fenómeno.
Com o açambarcar pela Sportv de praticamente todo o desporto de qualidade que passava na televisão pública (por muito que custe a muitas donas de casa, algum desporto é um exemplo perfeito de serviço público), os restantes canais, por não conseguirem acompanhar os preços exorbitantes pedidos pela Olivedesportos para encher os cofres dos clubes e os próprios, defendem-se com talk-shows sobre bola de todas as formas e feitios, de diferentes qualidades e em diversos dias da semana. Resultado: com 5 ou 6 programas semanais, ao fim do 2º, os assuntos esgotaram-se (excepto quando vem a "lufada de ar fresco" que são as competições europeias a meio da semana) e passa a discutir-se patetices.
Louvo a atitude do Benfica em furar o monopólio da Sportv. Tenho dúvidas de que seja rentável, mas pelo menos revela coragem… e quantas invejas e urticárias não tem provocado nos treinadores de bancada da concorrência (desses mesmos talk-shows medíocres)… a parte má é que, continuará a ser um serviço pago.
Incrível como ficámos sem a Fórmula 1, sem o ténis de qualidade (ultimamente alguns torneios voltaram a passar em canal aberto), sem futebol nacional, sem futebol internacional (lembro-me de ver a liga espanhola na TVI, na época em que o Bobby Robson treinava o Barcelona), … e continuamos a levar com uma ensaboadela de telenovelas de borla! E muitas delas são repetições!

Em relação ao comentário político, também já não há paciência: todos opinam, todos sabem muito (enquanto comentadores, claro), todos “sacam” fortunas para mandar bitaites, mas as suas opiniões não são mais válidas do que qualquer opinião ou comentário que se leia na net. Em 90% das situações (porque também há “boas excepções”) as palavras não passam de um chorrilho assente em dialéctica e retórica, vazias de sentido mas agradáveis aos ouvidos de espíritos menos críticos. E no final, tudo se resume a uma discussão de bola: cada um quer ganhar o debate por via da forma e não pelo conteúdo que não são capazes de conferir ao seu discurso.
Desde que o objectivo final se cumpra (<=> audiências), está tudo bem. Desde que dê dinheiro, não importa que tenha maior ou menor qualidade, que os intervenientes sejam mais ou menos broncos ou que da discussão saia uma réstia de esclarecimento.

Pela parte que me toca, desliguei mesmo da realidade. Em parte devido a esta mediocridade, e em parte devido ao pouco interesse que as notícias têm suscitado. Claro que a consequência é desligar da realidade, mas recuso-me a que a minha vida seja condicionada pela bola ou pela politiquice mais do que o facto de essas áreas terem obrigatoriamente que influenciar a minha vida (sobretudo a política) o obrigue.
O que faço como alternativa? Todo um conjunto de actividades, do desporto à cultura ou ao simples lazer como cozinhar ou ir para uma esplanada ler um livro.
E o mais divertido é que, em grande parte este afastamento não foi pensado mas resultou de uma certa saturação: é que nem o Sócrates me apetece ouvir.

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