sábado, 1 de junho de 2013

A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao


Para primeiro romance (não primeira obra de ficção – ele já havia publicado um livro de contos anos antes), constituiu uma surpresa muito agradável (e tenho tido muitas nos últimos tempos – pode querer dizer que estou a saber escolher melhor). Foi surpresa na medida em que se veio a revelar diferente do que eu esperava, mas não no que respeita à qualidade: o livro vinha rotulado com alguns pesos pesados dos prémios literários: este romance de 2007 recebeu no ano seguinte o National Book Critics Circle Award  e o Prémio Pulitzer para ficção.
A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao conta a história de um miúdo que se faz rapaz, e que concentra nele todos os medos, traumas e esquizofrenias da adolescência, e que condicional de uma forma doentia a sua “breve” vida.
É também a história da sua família, oriunda da República Dominicana, “filhos” e “netos” de Trujillo, o louco todo-poderoso cuja ditadura marcaria as suas vidas de uma forma indelével, confundindo-se com o fukú, a maldição das Caraíbas, que tomou conta das três gerações desta família para não mais a abandonar.
Pertencentes à “Diáspora”, a geração que emigrou para os Estados Unidos em busca de uma oportunidade e fugindo ao regime de terror, os elementos de Realismo Mágico confundem-se com as grandes narrativas norte-americanas: o sul e o norte da América literária estão muitíssimo bem concentrados e balanceados neste romance e é também por isso que ele é único.
Mais “Realismo” do que “Mágico” aproxima o romance sul-americano do norte. A narrativa épica da história de uma família contada a “100 à hora” aproxima o romance norte-americano do sul.

E com isto Junot Díaz, um dominicano que não tem pejo em pessoalizar para além do razoável a obra com factos e opiniões (o gajo é professor no MIT, ó Chico) constrói uma obra extraordinária.
As suas longas, acutilantes e arrojadas notas de rodapé, que deveriam chamar-se, em abono da verdade, “notas de página” tal a sua extensão (uma delas tem uma página inteira!) vão conferindo à história uma dimensão verdadeiramente épica, contando a vida do país, de Rafael Leonidas Trujillo, “El Jefe”, dos seus episódios mais marcantes, dos seus apoiantes mais próximos e dos seus mais acérrimos opositores, da “Diáspora”, etc… a vergonha que Díaz não tem em qualificar Trujillo de filho da puta numa nota de rodapé que esperamos sempre neutra e algo salobra apimenta e complementa muito bem o romance.
A estrutura está de acordo com a velocidade a que os acontecimentos se desenrolam nas páginas à nossa frente: ora estamos nos anos 80, depois recuamos uma geração para 60, voltamos a 70, recuamos à década de 40 para a primeira, … e tudo para mostrar que o nosso destino é uma mescla altamente desequilibrada entre o que somos genuinamente e aquilo que são aqueles que nos fizeram, que nem sempre é fácil fugirmos a gerações com um destino marcado, por muito que queiramos acreditar que controlamos a nossa vida.
É essa a perspectiva que perpassa destas páginas. E mesmo não concordando (obviamente), ver uma história tão bem contada e tão rica faz-me abandonar quaisquer “pré-conceitos” para entrar numa grande obra de ficção.

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