quarta-feira, 12 de junho de 2013

O Relatório de Brodeck


Depois de Almas Cinzentas, creio poder dizer que, com O Relatório de Brodeck, me tornei fã de Philippe Claudel.
Philippe Claudel não inventou a roda, mas restaurou-a, no que ao estilo diz respeito e no modo como consegue casar uma forma de escrita muito confessional com uma capacidade reflexiva que consegue ter uma profundidade muito pertinente sem chegar nunca a ser chata.
Consegue dar corpo à ficção, não se limitando a utilizar uma história menor para expor um ponto de vista ou desenvolver uma qualquer teoria (como aconteceu com As velas Ardem Até ao Fim, de Sandor Marai, por exemplo). Com os romances de Philippe Claudel há história! Mas há muito mais do que isso: há um propósito na história… e esse propósito é, nestes dois romances, expor e analisar a natureza humana.
À primeira vista poder-se-ia pensar que Philippe Claudel é um pessimista, que já não acredita no Homem. O comportamento humano e as motivações que o levam a elevar a maldade como o guia do seu comportamento reflectem uma forma negra de olhar para o mundo (e de encarar o futuro). Mas não: só alguém muito bem resolvido (optimista, arriscaria eu mesmo a dizer) consegue reflectir sobre o mal e não simplesmente a expô-lo e deixar-se consumir por ele. E é essa inteligência optimista que é exposta em O Relatório de Brodeck. Haver quem tenha esta capacidade de pensar sobre o real é, em si mesmo um sinal optimista.

E que dizer sobre o livro sem estragar a história?
Que se passa num tempo e num lugar algures entre a Alemanha e a França, algures entre a Primeira Guerra e o pós-Segunda Guerra.
Que mostra inúmeros aspectos do comportamento humano: como o homem é movido pelo medo, como o comportamento em manada lhe tolda o raciocínio, como a hipocrisia anda de braço dado com a realidade, … depois, existem as questões já visitadas em Almas Cinzentas: o poder como forma de atingir os fins, como forma de fazer tábua rasa de qualquer vislumbre de equidade a que os menos favorecidos pudessem sequer sonhar vir um dia a alcançar.

Brodeck, um homem cuja história pessoal é tragicamente marcada pelos acontecimentos do seu tempo e pela maldade dos que o rodeiam é encarregue de elaborar o relatório “oficial” de um crime ocorrido pelos homens da aldeia contra um estrangeiro.
Um crime aparentemente gratuito, porque numa aldeia perdida numa região inóspita no meio das montanhas, a chegada de um estranho homem bem disposto é, antes de qualquer motivo de congratulação, razão para fazer nascer a desconfiança nas mentes fechadas das gentes da terra. Daí ao medo vai um instante.
Ao mesmo tempo que Brodeck escreve o relatório oficial, vai redigindo a sua versão pessoal dos acontecimentos, onde a sua própria história é entrelaçada com o comportamento daqueles que habitam o seu meio.

Um grande livro (mais um) de um escritor que vale bem mais do que o reconhecimento e notoriedade que tem tido em Portugal (em França a sua obra tem sido reconhecida). Tive sorte em descobri-lo.

Sem comentários:

A Feira

Descobri recentemente mais um motivo pelo qual gosto tanto de feiras. Não das feiras onde se negoceia roupa contrafeita e toda a espécie de...