quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Os homens do tempo


“O pior Verão dos últimos 200 anos”

Mesmo em Ciência, há fanfarrões (veja-se a “descoberta” da fusão a frio), e o anúncio dos meteorologistas franceses, há uns 2 meses, de que este seria o pior Verão dos últimos 200 anos tem tanto de sensacionalista como de patético.
Até agora (já passámos cerca de dois terços do Verão), tem sido um Verão normal: lembro-me de Verões bem piores nos últimos 5 anos, daí, para além de patético, não foi muito inteligente pronunciar tal afirmação. Se houve Verões “maus” ultimamente, não seria normal que o próximo viesse a ser o pior (e logo dos últimos 200 anos!).

Como leigo, apenas posso basear-me no conhecimento do senso comum. E este diz-me que, a mais de 3 ou 4 dias de distância, as previsões ganham um grau de incerteza exponencial: basta constatar que a teoria do caos teve a sua origem em equações que serviam para… prever o tempo. Uma ligeiríssima variação no valor de uma das variáveis explicativas do modelo (na ordem das milésimas de milésima), fazia com que a previsão do modelo meteorológico fosse radicalmente diferente. Matematicamente, é como uma função ser “quase vertical” na vizinhança de um ponto: uma ligeira variação no objecto e a imagem afasta-se muitíssimo da imagem anterior.
Mas se isto é assumido, conhecido e tido em conta por quem lida com este tipo de fenómenos físico-matemáticos, porque é que ainda se dá crédito a alguns patetas?
Acredito serem vários os motivos:
- O óbvio: a comunicação social reflecte a ignorância do seu público-alvo por um lado, e é alimentada pelo sensacionalismo da notícia fácil, ainda que careça de confirmação ou base;
- A já referida fanfarronice de quem se diz cientista mas que mais não busca do que a promoção pessoal ou de quem se julga mais esperto do que os outros (povos ou profissionais);
- Algum atraso na área da meteorologia: parece-me que esta área da ciência está muito atrasada face às restantes. No século XXI conseguirmos com “alguma” fiabilidade fazer previsões meteorológicas a 3 dias parece-me manifestamente pouco. Ou então, o facto do tempo ser algo que desperta a curiosidade de todos, seja para a actividade profissional ou para lazer, faz com que todos estejamos mais atentos ao trabalho científico nesta área e logo, as fragilidades desta estejam mais expostas do que noutras áreas.

Seja como for, o último ponto mostra que os meteorologistas deveriam ser mais cuidadosos e admitir que a margem de erro é grande, e neste caso estão calados e limitam-se a olhar para 3 dias à frente e nada mais.
Em Ciência, um dos grandes trunfos é o cuidado com a divulgação da informação após ser testada sucessivamente. Quando há palhaços a fazer Ciência, deixa de ser Ciência e passa a ser uma palhaçada, que foi o que aconteceu em França este ano.
Parabéns aos palhaços porque conseguiram colocar a Europa a falar deles e mais: dando-lhes crédito ao mencionar a informação por eles papagueada como um dado adquirido.

PS: Não é por acaso que, nas previsões diárias do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, apenas até ao 3º dia é que as previsões são feitas por homens: a partir daí são modelos e tal está devidamente assinalado no site. Embora arrisquem imprudentemente publicar previsões até 10 dias, pelo menos indicam que aquela previsão sai de um modelo (com a teoria do caos por trás). Por vezes acompanho tais “previsões” e, com uma frequência bastante elevada, verifico alterações substanciais entre a previsão para o 10º dia e a previsão para o dia seguinte 9 dias depois.  

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