quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A Vida de Adèle - Capítulos 1 e 2


O problema da escrita intensiva é a capacidade de reinvenção. Como nas obras de arte, difícil para quem produz algo, seja um filme, uma música ou um simples texto, é conseguir descolar do produto anterior… ou pelo menos da tendência anterior. Foi (também) por isso que deixei de aqui escrever: senti-a que quase todas as minas opiniões pouco traziam de novo, sendo demasiadamente iguais. Claro que, sendo sempre a mesma pessoa a escrevê-las, há uma marca que tem que ser comum a todas elas: nós não mudamos enquanto pessoas com uma frequência tal que permita produzir matéria disruptiva cada vez que empreendemos tal tarefa. Mas quando texto após texto sentimos que tudo é demasiado igual, e que a reinvenção requer um esforço que é quase um objectivo em si mesmo, mais vale parar.

Apenas uma obra realmente genial me faria voltar a opinar, e aconteceu vê-la este fim-de-semana. A Vida de Adèle (La Vie d’Adèle, 2013) venceu a Palma de Ouro em Cannes este ano. Quando o soube, e ao ver do que tratava: uma relação amorosa entre duas raparigas, pensei que seria mais do mesmo. Mais ainda: o único filme que eu havia visto de Abdelattif Kechiche, A Esquiva (L’Esquive, 2003) não me havia enchido as medidas. Ainda assim, fiquei com curiosidade em ver o filme.
Mais cresceu essa curiosidade quando uma amiga, que viu o filme na ante-estreia, no Lisbon & Estoril Film Festival, me disse que tinha cenas “muito explícitas” (quase pornográficas). E sabia que o filme demorava três horas!
Demasiada informação para quem pouco ou nada gosta de saber sobre os filmes que vai ver.

A Vida de Adèle é o melhor filme de 2013 que vi.
É genial em todos os aspectos, e faz jus ao seu antecessor em Cannes, Amor (Amour, 2012), mostrando uma forma completamente diferente de tratar um mesmo tema, o Amor.
Este é um filme tão realista quanto natural, e o que nos surpreende (quando não deveria acontecer) é o facto de, quando o cinema é demasiado realista, por vezes nos chocar ou decepcionar, quando é simplesmente natural.
Este é o primeiro filme que vi que mostra uma relação homossexual contada como se de uma relação heterossexual se tratasse. Nada há do cliché já insuportável do “nós, os gays, contra o mundo” ou da palmadinha nas costas do liberal perfeito que aceita todos como seus iguais.
Nada disso: neste filme a ideologia é inexistente, e por isso, é a natureza da relação que sobressai. O início, o meio e o fim.
Esteticamente é um filme quase perfeito, uma história que, de tão bem contada, não se dá pela passagem das três horas (a marcação do tempo nas diferentes fases da relação é perfeita). A realização e as interpretações são geniais.

Este é também um filme que me fez questionar os limites da interpretação: tudo ali acontece e se, como espectador, tal me satisfaz, como ser humano questiono-me se o que se passa na tela e na realidade é assim tão diferente? (alguém ainda acredita no “beijo técnico”?)


Uma última nota para referir a penúltima cena: o reencontro entre as duas protagonistas é simplesmente brutal. Numa comparação livre, lembrou-me a cena final de Os Chapéus-de-chuva de Cherburgo (Les Parapuies de Cherbourg, 1964), embora para comparar ambos os filmes seja necessário uma liberdade de análise bem grande, tal a diferença entre as duas obras. Contudo, o impacto desta cena, no que fica de uma relação, até que ponto está efectivamente resolvida e, tão ou mais importante, o que de diferente podemos/conseguimos valorizar em diferentes relações… tudo isso está muito bem retratado nesta cena muitíssimo poderosa.

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