terça-feira, 10 de junho de 2014

O Carteiro de Pablo Neruda


De tempos a tempos, o cinema italiano tem produzido grandes obras e, embora não sendo em quantidade comparável com as gloriosas décadas de 40, 50 e 60 (veja-se o neo-realismo, por exemplo), quando o faz, fá-lo à séria.
Cinema Paraíso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988) ou A Vida é Bela (La Vita è Bella, 1998) são dois dos expoentes que exemplificam o parágrafo anterior. Contudo, (re)vi há dias um filme que havia visto há mais de 10 anos, e que, não me tendo conquistado na altura, conseguiu-o agora, após a leitura do livro no ano passado ter constituído para mim uma das leituras mais marcantes dos últimos tempos.

Trata-se de uma produção franco-italiana de 1994 realizada por um inglês baseada na obra de um escritor chileno: O Carteiro de Pablo Neruda (Il Postino) honra (e de que maneira) a magnífica qualidade do texto que lhe dá corpo. O romance de Antonio Skarmeta é inigualável e impossível de retratar em toda a sua cor, explosão de sensações, sensibilidade e, sobretudo, respeito pelas palavras. Mas o filme de Michael Radford consegue captar com uma humildade extraordinária o espírito da “Ilha Negra”, agora transladada para Itália, onde nasce a amizade entre o carteiro Mário e o poeta Neruda.
O romântico ambiente mediterrânico é um cenário perfeito para o nascimento do amor de Mário pelas palavras, pela poesia, pelas metáforas e por Beatriz. Até o ambiente político que serve de pano de fundo à obra consegue ser inserido na Itália onde Mário se apaixona pela poesia. 
Massimo Troisi é perfeito. A sua dedicação a este projecto, desde que leu o livro, escolheu o realizador e insistiu em personificar o maravilhoso Mário, mesmo estando debilitado, segue aquilo que uma vez Somerset Maugham disse na grande obra Servidão Humana: “Só há duas razões pelas quais vale a pena viver: o Amor e a Arte”. Foi uma pena não ter sobrevivido para saber que, com este filme, havia obtido uma nomeação para um óscar... morreu 12 horas após ter terminado as filmagens! A simplicidade extrema de um pescador que adoecia cada vez que saía para o mar, e que ao tornar-se no carteiro que tinha como único “cliente” o grande poeta chileno exilado Pablo Neruda, é decalcada na perfeição, tal qual foi descrita na obra de Skarmeta. O palpitar do coração no contacto com o amor e a crença de que, com persistência e sentimento, a força das palavras na sua forma mais sublime - a poesia - está ao alcance de todos são as marcas deste livro/filme.
Quanto a Phillipe Noiret, a sua qualidade não necessita de confirmação: foi um fantástico actor.

Pensar que estes dois grandes amigos nesta história já faleceram, traz-me à memória a perenidade da arte: este filme permanece em muitos que o viram e permanecerá em outros tantos que tenham a ousadia de se deixarem por ele absorver. Agora que os amigos partiram, não é um mau tributo constatar que conseguiram, ainda que numa única obra (no caso de Troisi), ficar na história.
Porque para além de uma grande história de amor, O Carteiro de Pablo Neruda é uma grande história de amizade… aquela que nem a distância consegue destruir (ao contrário do amor?).
O toque com que a genial banda sonora do argentino Luís Bakalov presenteia todas estas sensações fecha com chave de ouro este exemplar, um dos mais belos que vi nos últimos tempos e que me leva a constatar que é por ainda haver gente com capacidade e coragem para conseguir produzir obras como esta que vale a pena ir ao cinema, que vale a pena ler livros... raras vezes se acerta, mas quando nos acertam, vale mesmo a pena.  

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