quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Margarita e o Mestre


A simples leitura de Margarita e o Mestre, escrita por Mikhail Bulgakov entre 1929 e 1940, é uma experiência surreal.
Se nos dois cenários que uma leitura de primeiro nível da obra permite, alternamos entre uma visita de Satanás a Moscovo nos anos 30 e o recontar da história da paixão e crucificação de Cristo 2000 anos antes, esta obra traz muito mais do que um romance de absurdo.

Não querendo ver fantasmas onde não existem, é dificil não interpretar esta obra para além do literal... mesmo que não o consigamos verbalizar, a sensação de que muito mais ficou em nós (para além de umas cenas cómico-fantásticas) após a leitura deste livro, prova-o. Esse "muito mais" pode ser perturbador ou nem isso, mas o que fica deste livro, tenho a certeza, vai ficar a trabalhar em mim algum tempo, e só então poderei, eventualmente, ter uma ideia mais conseguida, das diversas dimensões que ela abarca. 

Como encaixamos a ténue linha entre o Bem e o Mal? Até que ponto nos movemos com verdadeiro livre arbítrio e onde encaixa a nossa responsabilidade pelo que nos acontece e pelo que se passa à nossa volta? A cobardia é na verdade o pior dos defeitos do ser humano? O que é real e o que é ilusório naquilo a que chamamos existência? E o que é que, na História é um facto, o que é uma deturpação da memória colectiva, o que é uma ilusão, e o que é a revisão do que aconteceu ou pensamos ter acontecido?
A riqueza das personagens de Margarita e o Mestre é brilhante: do próprio Diabo (de seu nome Woland) e do seu séquito (Koroviev-Fagot, Azazello, Hella e o gato Behemot), Bezdomni, o Mestre, Margarita, etc... todos são actores que se encontram no mesmo palco deste teatro louco, cruzando-se apenas neste romance na mesma camada de realidade.
Quem é fruto da imaginação de quem?
Quem é personagem da obra de quem?
Quem surgiu do sonho de quem?
E será a morte o único caminho para p descanso eterno? E mesmo aí, será mesmo o descanso? E não poderá o Diabo conceder o mais nobre dos nossos pedidos, fazendo o papel que atribuimos a Deus e baralhando toda a noção de quem faz o Bem e quem faz o Mal?
Os mais loucos deste romance são os visionários, os autênticos, aqueles que não se deixam iludir pela aparente normalidade que se passa à sua volta. E é no sanatório que são colocados. No fim, a clarividente loucura, vivida pelos "corajosos", que não eram atacados pela cobardia, pode conduzir a um estado tranquilizador mas eternamente nas sombras: nem Bem nem Mal...

Falar deste livro apenas ao nível da interpretação literal seria uma perda de tempo. Não por este nível não valer a pena: fartei-me de rir com esta narrativa e ela contém episódios geniais como a demostração de magia negra no teatro Variedades de Moscovo, O baile de Satã ou a despedida de Woland e dos seus discípulos" de Moscovo, no topo da colina ao entardecer). E para além disso, a leitura a este nível é altamente sensorial: visualizamos cada quadro, sentimos cada movimento, sentimos o fogo, a água e o calor, a angústia e o vento enquanto o voo acontece
Mas isso é aquilo que qualquer um extrai de Margarita e o Mestre. O que está para além disso, e estas linhas são apenas um vislumbre daquilo que eu começo a interpretar da obra (terminei a leitura há 30 mins) é que merece ser trabalhado, interpretado e, eventualmente (ou não), discutido. Porque se algumas coisas aqui são comuns a todas as intrepretações, outras não o serão.
Ser mais específico é estragar a viagem alucinante que é a leitura deste livro. 

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