sábado, 4 de outubro de 2014

Em Parte Incerta


Um par de interpretações do melhor que vi nos últimos tempos.
E um filme "à David Fincher" em modo bom.

Em Parte Incerta (Gone Girl, 2014) é um filme que, tendo os habituais ingredientes da filmografia de Fincher, não se cinge a eles... para além do suspense habitual, da preocupação minuciosa com os cenários, fotografia, montagem e afins, este filme, na minha opinião, valoriza e muito dois elementos novos: as interpretações e moralismo do comportamento social.
No que respeita às primeiras, arrisco dizer que vão haver nomeações... uma é quase garantida, mas não digo qual para não dar pistas sobre o enredo. Sobre o segundo, embora o julgamento social de um caso de polícia esteja centrado na sociedade norte-americana, é algo universal (quantos linchamentos públicos temos tido em Portugal?).

Adorei Setes Pecados Mortais (Seven, 1995), gostei de O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, 2008) e odiei Clube de Combate (Fight Club, 1999). Os restantes filmes de Fincher, embora acima da média, não me fizeram fã dele (vi mais 2 para além dos 4 já mencionados). Em Parte Incerta é um prodígio nos referidos aspectos. Assim, é pacífico reconhecer que David Fincher é um dos valores mais seguros da nova realização norte-americana (embora já tenha 52 anos), e o seu cinema, embora com uma ou outra incursão pontual pelo melodrama biográfico, segue uma linha inquietante à qual é dificil ficarmos indiferentes. Nem sempre resulta, na minha opinião, mas tem colhido muita simpatia popular (e mesmo junto da crítica). 
Podia já ter chegado ao óscar, mas acho que lhe falta provar que é bom em algo diferente. Spielberg não teve medo de arriscar em diferentes géneros, tal como os grandes nomes de "outras eras" (veja-se Billy Wilder, Stanley Kubrick ou Robert Wise, para citar alguns). 

Custa-me não dizer muito mais sobre este filme mas correria o risco de estragar a festa.
Ok...só digo isto: por vezes a psicopatia é muito mais do que aquilo que aparenta.

3 comentários:

lino disse...

Um belo argumento. Alguns críticos mencionam que o enredo (como no livro) abusa de contorções do real e de surpresas gratuitas. Mas basta estarmos mais atentos à realidade para reconhecermos como, em questão de surpresas, as ficções lhe ficam aquém. E se quisermos limitar-nos ao âmbito da literatura, basta comparar com a "Mulher de 30 anos" de Balzac para concluir que as "surpresas" da Gone Girl são de uma grande candura.

lino disse...

E já agora: grande e fugaz personagem secundária, Casey Wilson como Noelle Hawthorne, a vizinha tonta e grávida.

António V. Dias disse...

Boa noite.
Obrigado pelo comentário.

A questão da(s) surpresa(s), embora eu ache que esteja bem conseguida no filme, começa a não surpreender no cinema de David Fincher.
Para mim, há mais duas grandes marcas nesta obra: as interpretações (até a do Ben Affleck) e o retrato da perversão (não posso dizer muito mais para não estragar a ida ao cinema de quem ainda não viu e possa ler isto.

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