sábado, 20 de janeiro de 2018

Carta a uma Sombra

A recomendação de um livro corre sempre o risco de nos apanhar no momento errado para que possamos usufruir da experiência da sua leitura na plenitude, como acontece quando escolhemos livremente a altura para ler determinada obra, sem opiniões nem referências que influenciem a nossa análise.
Houve contudo um livro que li há meses chamado Somos o Esquecimento que Seremos, com o qual nada disto se passou: tinha opiniões favoráveis de duas amigas, uma portuguesa e outra espanhola, cujas posições, embora as tenha em elevada conta, nem sempre são representativas dos meus gostos; e não escolhi o momento em que ele chegou até mim pois aproveitei uma oportunidade no OLX adquirindo-o por cinco euros (custava dez euros em novo, estando já a desconto pela fraca adesão - ou distribuição – que teve em Portugal).
O género era algo indefinido, uma mescla entre autobiografia, documento histórico e relato policial e conta a história de Héctor Abad Gómez, médico colombiano dedicado à causa da saúde pública, activista de esquerda nas mais diversas áreas dos direitos humanos, marido, pai de cinco raparigas e de um rapaz (o autor), assassinado a sangue-frio à saída do trabalho quando fazia da reforma o período mais activo da sua militância, e um homem que, a avaliar pelas manifestações de carinho demonstradas no seu funeral por alunos seus na faculdade de medicina, conhecidos, familiares, amigos e simples desconhecidos que simpatizavam com as causas que defendia ou haviam somente ficado horrorizados perante a brutalidade da injustiça que a sua morte prefigurava, deixou a sua marca na turbulenta história da Colômbia da segunda metade do séc. XX.
Gostei do livro mas adorei o seu autor.
Héctor Abad Faciolince demonstrou uma coragem hercúlea para se lançar num projecto cujo sofrimento está patente ao longo de toda a obra. A sua relação com o pai era especial, mesmo entre as suas irmãs, e ele não se coíbe de o assumir nas linhas em que descreve a sua infância, adolescência e até a idade adulta. O carinho que pai e filho nutriam um pelo outro é descrito de forma tal que só a própria vivência pôde transpor para o papel tamanha ternura.
Foram necessários vinte anos para que reunisse a coragem e se sentisse preparado para mexer numa ferida que marcou a sua família para sempre. O sentimentalismo é tão autêntico, tão bem descrito que é impossível demonstrarmos indiferença quando somos convidados a testemunhar a história daquelas pessoas.
Nós, os latinos, gostamos de acreditar que possuímos um apego à família e aos amigos com a qual eu me identifico. Esta forma de viver, de sentir, de exteriorizar, de ser, é exemplificada pelas reacções demonstradas por toda a família, cujas descrições do modo como reagiram à morte daquele homem tão central nas suas vidas se encontra tão bem documentada nas páginas daquele livro.
Também a revolta atravessa todo o relato dos acontecimentos pois os assassinos nunca foram descobertos. E conseguir passar por cima desse facto (sem nunca o esquecer) de modo a concluir uma história tão dramática é um feito que só merece aplauso.
Vi há dias um documentário chamado Carta a Uma Sombra, que mais não era do que a tentativa de transpor para televisão a história que o livro descrevia. Curiosamente, o filme veio apenas reforçar a ideia com que ficara aquando da leitura: ver aqueles personagens de uma história real a falarem, as expressões, a voz, as lágrimas, as memórias… enriquece tanto a leitura do livro como o livro engrandece a experiência que foi para mim a visualização do filme.
Quando terminei o livro, tentei (sem sucesso) contactar o autor para lhe manifestar algumas das ideias que se encontram expressas neste texto. Não encontrei qualquer contacto em lado algum, nem mesmo na sua página oficial. Provavelmente o que eu teria para lhe dizer não mudaria nada; provavelmente já dezenas ou centenas de leitores e amigos lho disseram; provavelmente fá-lo-ia mais por mim e pela minha necessidade de chegar ao outro do que por uma genuína gratidão pela abertura demonstrada na obra por alguém que não conheço.
Ainda assim, estou grato por saber que há gente capaz de descrever tão bem os sentimentos, gente de carne e osso que sofre como nós e não tem medo de o demonstrar, gente latina… estou grato pela experiência que esta triste história me proporcionou. Porque é na tristeza que às vezes encontramos as maiores afinidades. E é tão fácil descobrir-nos neste relato.

“Foram anos felizes, só que a felicidade está feita de uma substância etérea que facilmente se dissolve na recordação e que, quando regressa à memória, vem acompanhada de pieguices que a contaminam e que sempre rejeitei por serem inúteis, melosas e, em última análise, perniciosas para a vida presente. De qualquer maneira, também há que dizer que as tragédias posteriores não devem embaciar as recordações felizes, ou tingi-las de desgraça, como, por vezes, sucede a alguns temperamentos doentes de ressentimento em relação ao mundo que, por causa de episódios posteriores injustos ou muito tristes, apagam o passado, mesmo os indubitáveis períodos de alegria e plenitude. Entendo que os factos futuros não devem contaminar com amargura os anos felizes.”   


Biblioteca de São Domingos de Rana, 6 de Janeiro de 2018

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