Foi sexta, 16 de Janeiro, que fomos à sala-estúdio da Trindade
ver A Menina Júlia. Nunca havia assistido a nada de Strindberg, e aquele
início de noite mostrou ser o momento ideal para a estreia com o dramaturgo
sueco (provavelmente, a inspiração maior de Bergman).
Era uma das peças que havia assinalado à Sofia como
possível presente de Natal, e três semanas depois, ali estávamos nós. Com a
peça cedo – começava às dezanove – alterámos a ordem e podíamos jantar a
seguir, com calma (o que fizemos, conseguindo finalmente experimentar o Paco
Bigodes).
Entrámos e sentámo-nos vendo o cenário já montado, a
cozinha da casa da menina Júlia, palco onde decorre toda a acção. Enquanto
aguardávamos pelo início da peça propriamente dita, reparo num tipo da fila da
frente, à direita de onde nos encontrávamos, que “limpava o salão”. Fiquei a
olhar para aquilo – mas o gajo pensa que está em casa?! – e preparava-me para
dizer à Sofia Olha-me só para aquele porcalhão! quando o homem tira o
dedo de dentro da narina e, acto contínuo, o coloca dentro da boca, vendo eu o
maxilar descrevendo com uma leveza urgente aquele movimento de quem mastiga um
resto de carne ou bacalhau subitamente solto, que havia ficado preso entre os
dentes da última refeição.
Nunca percebi este fetiche em mastigar os bourriés!
Relatei de imediato aquele repasto nojento à Sofia. Ela riu-se e referi a minha
incapacidade para compreender tamanha nojeira. Se não comemos o que defecamos,
para quê aquilo?!
Talvez tenha contribuído para a minha surpresa
(surpreender-me-ia sempre!) o facto de aquela badalhoquice ter acontecido na
plateia de uma sala de teatro, ainda para mais não de uma peça qualquer, mas de
uma obra de Strindberg. Na minha cabeça, uma coisa não ligava com a outra. Nós,
gente da cultura com a mania da elevação, o teatro e a erudição, Strindberg na
sala Estúdio (nem sequer era na sala principal) e um público distinto. E no
meio disto: aquilo!
Lembrei-me logo de Joachim Low, no banco da Alemanha a
repetir a façanha do espectador desconhecido, num jogo do Euro 2012. Isto, eu,
das profundezas do meu preconceito, compreendo melhor. Nós, os buçais que vemos
os jogos da bola, no estádio ou no café, que durante uma partida despejamos o
vernáculo com mais caudal com que esvaziamos o intestino grosso após o regresso
de uma viagem a Marrocos, que metemos conversa com o tipo do lado se percebemos
ser “dos nossos” e o odiamos mal nos apercebemos ser do filho da puta do clube
rival, nós entendemos que se escarre para o chão, que se larguem impropérios e
até que algum dos actores mastigue um macaquito ou outro (há jogos de nervos!)
ou se assoem para o relvado (foi com Futre que aprendi a tapar uma narina para
que a porcaria, concentrada num só orifício da narigueta, saísse disparada com
a pujança de um mach 1, como um míssil teleguiado rumo ao solo).
Nem o teatro é mais o palco dos meus preconceitos, nem o
futebol está reservado aos grunhos. As dinâmicas sociais baralharam as cartas
da classe e, felizmente, hoje todos temos o direito de usufruir e vibrar com
tudo, da ópera ao jogo da bola, de um filme de Tarkosvky, Kieślowski ou de Béla
Tarr a um concerto da Rosinha, Ena Pá 2000 ou Quim Barreiros, de Proust aos
escaparates de supermercado.
É também dessa diversidade congregada numa mesma pessoa
que faz dela alguém interessante, diversa, eclética. Não a procura do saber
para acumular experiências e botar discurso, seja ele literário ou
futebolístico, mas por resultar de uma genuína curiosidade, a mesma que faz de
nós pessoas capazes de nos divertirmos verdadeiramente num concerto do Emanuel
Moura ou numa peça de Srindberg, num jogo do Benfica, nas festas de Tires, na
leitura de Cortázar ou do Tintim, num jantar no Toscano ou no Zé dos
Cornos.
A Menina Júlia foi uma agradável surpresa – o amor e a sedução, o lugar
da classe, a ambição para ascender e a resignação em ficar, os escrúpulos e a
falta deles, bem como os caprichos, os criados e a patroa, tudo é posto em
confronto como num duelo, tudo é cozinhado naquela cozinha-palco à nossa
frente. Esqueci o repasto que o espectador desconhecido desencantou das
profundezas da sua narigueta para mergulhar naquela hora e meia tão bem
conseguida. E se valeu a pena! Quando vemos uma peça destas, vale a pena. Só
que para acertarmos, precisamos de levar com tantos barretes…
PS: Na tasca de camisa aberta ou de fraque na Gulbenkian, mascar (e engolir) ranhoca é sempre uma nojeira: é, num certo sentido, uma questão de classe. Não aquela posta em confronto n’A Menina Júlia. Não tem a ver com as classes que hoje se fundem no ecletismo acima referido. Tem simplesmente a ver com classe (ou falta dela), e essa, é transversal a todas elas, as classes.
Rinchoa, 18 de Janeiro
de 2026

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