11 de Setembro (de 2025)

 


Interrompi as férias para uma saltada à capital, a carreira da Rede Expressos quase vazia na tarde do dia anterior, o ar condicionado em modo congelador e a descoberta de que afinal consigo ler no autocarro, A História do Novo Nome (A Amiga Genial – Segundo Volume).

O comboio para casa terminou na chegada solitária à Rinchoa e antes mesmo de subir, parei no Rouxinol para um prego e um copo de tinto, ou melhor, traga um jarrinho, jarro esse que marchou quase todo, o torpor a apoderar-se do corpo amassado da viagem, a doce sonolência na qual tudo se perde, tudo perde o pé, o ruído, a importância. Subi ao terceiro, chave na porta e a casa silenciosa, nem Sofia nem gatos – deixar as portas abertas sem a preocupação de o Joaquim virar uma qualquer prateleira ou bibelot – e ler, continuar a ler no silêncio de um apartamento vazio, como se degustasse uma iguaria pelo bem que me sabia, mas também pela raridade (sei-o bem demais que este mesmo silêncio multiplicado por demasiados dias, semanas, meses, se pode converter numa outra coisa, que umas vezes se parece com um abismo, noutras com um porto de abrigo, e noutras ainda com uma paz deveras gratificante).

Apago a luz depois de um feito – 76 páginas num dia – mas a insónia irrompeu entranhas acima, qual galopante aparição do vómito sem aviso, e uma volta, e outra, e os minutos a passarem para, mais de trinta volvidos, acender a luz e ir até à sala ver o Governo Sombra. A TV não falha nesta missão de apelar ao João Pestana. Já na cama, ainda puxei do livro novamente (quando volto para a cama, o sono abranda sempre um pouco), mas as 4 páginas adicionais serviram somente para arredondar a leitura do dia.

Dia seguinte: acordar cedo, apanhar o comboio para Lisboa e, ao sair na estação do Rossio, ter como primeira missão descobrir um lugar na Avenida passível de tomar o pequeno-almoço sem baixar as calças e pedir um empréstimo. Parei num tasco à entrada dos Restauradores, não ao preço que queria, mas serviu o propósito.

Entro na leitura com a praça em frente, os carros a passar e os turistas a cruzarem a calçada numa passagem de modelos parecidos uns com os outros, mal amanhados na sua indiferença de observadores através da lente dos smartphones, e constato que tanto gosto de ler no meio da tranquilidade silenciosa do campo ou do sul, como numa esplanada apinhada de tilintares e fumos de escapes. Assim como assim, é num mundo à parte onde me movo enquanto leio; tudo o mais se afasta.

Dirijo-me à empresa, o meu novo trabalho, cerca de um terço da Avenida percorrida, e surpreendo-me agradavelmente com a recepção, os novos colegas e chefias, a sessão de boas vindas, o pequeno coffe break. Reuni com a minha futura chefe – uma viagem a Paris planeada para a segunda semana de trabalho – e a amistosa conversa de vinte minutos foi mais enriquecedora (e tranquilizadora) do que eu levava na ideia. Gostei da experiência. Só não levava na bagagem o programa do dia – sabia apenas da apresentação às 9:30, da vontade da minha superior em reunir e do cocktail pelas 17:00. Quando ela, pelas onze e meia da manhã me diz Vemo-nos às cinco da tarde, percebi que teria meio dia pela frente.


Meio dia para explorar a meu belo prazer, como no tempo das sessões solitárias de cinema ou de leitura em esplanadas. Encontrava-me no coração da capital, sem carro, com tempo, um livro na mochila e as redondezas do meu futuro para explorar. Tratei logo de testar caminho para o almoço, na
Tasca do Peregrino, o café do Carlos, no Largo do Mastro. Conheci-o através do Caminho de Santiago e desde então, os nossos encontros foram sempre pautados por uma salutar disposição.

Comecei a subir a Rua das Pretas, suportável apesar do calor àquela hora tórrida, continuando pelo Telhal. Socorro-me do GPS para encurtar a distância, e o algoritmo manda-me pela Calçada do Moinho de Vento. Puta que pariu a calçada mais a colina, a capital e a galáxia. A alteração na inclinação obrigou-me a acertar a passada: se até ali parava amiúde para explorar um ou outro tasco, inteirando-me dos preços, do aspecto, etc… a partir daquele momento caguei para o meio envolvente e só via a hora de chegar ao jardim, lá no topo do Evereste alfacinha. Fiz cume em pouco tempo, menos cansado do que o cenário ameaçava, e mergulhei na azáfama da hora de almoço na Tasca do Peregrino: fiquei a saber que a quinta-feira é dia de cozido, que existe menu de almoço, que saio dali bem servido, e que ainda tenho a oportunidade para fazer uma caminhada higiénica.

Estou despachado antes da uma e retorno à avenida. Procuro na net pelo São Jorge e vejo que está a decorrer o Motel X, o festival de cinema de terror, evento a que nunca fui. No programa há um filme às duas da tarde. Nem pensei duas vezes: arranco para o cinema, 5 minutos mais acima, compro o bilhete para ver Redux Redux (não foi erro, o título do filme repete mesmo a palavra) e toca de subir à varanda do primeiro andar para uma limonada e quarenta e cinco minutos d’ A História do Novo Nome. Com Motel X, constato, numa interrupção da leitura para olhar as árvores sob o sol do meio do dia, o trânsito da Avenida e aquele saborear de ter o mundo inteiro à minha volta num vórtice a trabalhar, numa acelaração alucinante enquanto eu me oferecia aquela oportunidade, uma bebida e um livro e uma vista e um silêncio interior… mas dizia eu que constato ser aquele o décimo festival a que fui (dos que me lembro… do Fantasporto a San Sebastian, o Doc, o Indie, Cinema Francês, Italiano, Kino, América Latina e LEFF), e que bom é ver um filme na sala grande do São Jorge. E que bom é, ao escolher um filme quase por compatibilidade de horário, receber de volta uma obra que, longe de precisar de me esforçar para encontrar pontos positivos para justificar os cinco euros do bilhete, como tantas vezes aconteceu nos festivais por onde passei (sem que isso os desvalorize minimamente pois lembro-me sempre da frase que a Sónia uma vez me disse, quando, depois de um filme no São Jorge, parámos num boteco na avenida para jantarmos – Não é comparável com ver um filme em casa: ir ao Cinema é também um acto social). Ir ao cinema é toda uma experiência – da sala ao ecrã, do som à companhia (não aquela que vai connosco como aquela que partilha connosco aquela obra, do que fazemos antes e depois… –, é tal a riqueza que podemos acrescentar a um filme assim vivenciado (e a quase tudo na vida) que insisto, aos quarenta e quatro, em continuar a alimentar o sonho. Como li um dia, Find Comfort in Simple Things.


Pouco antes das quatro, saio do São Jorge já com ela fisgada: sentar-me a ler num banco da avenida. Não foi logo, mas ao fim de cinco, talvez dez minutos, lá encontrei um vazio, à sombra, um pouco abaixo do Tivoli, e dei mais uns passos no segundo volume da tetralogia de Ferrante. Às cinco em ponto, lá estava novamente à porta da empresa para o cocktail, para conhecer alguns futuros novos colegas, “amigar” como dizia o Saldanha Bento. Descobri no
roof top do Carmo um novo lugar da capital, que não terá muito a ver comigo – os roof tops mudaram muito em quinze anos – acho que gosto mais da tasca do Carlos ou da esplanada do São Jorge. Não só por serem lugares que já têm uma história na minha vida, como primam por uma simplicidade que me apraz.

O resto do dia 11 de Setembro de 2025 tem pouca história: para apanhar o autocarro em Sete Rios de volta às férias no Algarve, entro no metro, a power bank de que necessitava para que o telemóvel aguantasse uma reunião que iria fazer durante a viagem para baixo escorrega-me do colo para se entalar entre o assento e a parede da carruagem. Não consigo enfiar os dedos, tal a estreiteza do espaço, tento com a haste dos óculos, que se solta das lentes, procuro no estojo de higiene, mas não tenho nada que ali caiba (um pente dava jeito mas já antes de ficar careca não o usava). A ver a reunião por um canudo saco do bolso traseiro das calças, numa acção desesperada, do bilhete do filme, e começo a dobrá-lo em quatro ou cinco voltas, formando um charuto achatado. O papel não tinha força… olho para a paragem – São Sebastião – e perco trinta segundos preciosos sem encontrar Sete Rios no mapa das estações no interior da carruagem para me lembrar que, no caso do metro, se chama Jardim Zoológico – menos de duas estações para me dar por vencido, já a equacionar alternativas, vou ao bar e peço para carregar o telemóvel quarenta e cinco minutos (o tempo que teria) quando a divina providência me acode e o bilhete de cinema espalmado sobre si mesmo solta qualquer coisa… a power bank! Mais uns toques, para cima e para baixo, com jeitinho para soltar o bicho em vez de o enterrar mais, e fez-se luz! Tive a reunião num autocarro às escuras (a luz não funcionava), mas pouco importava.

O resto do dia 11 de Setembro de 2025 tem pouca história: a Sofia esperava-me em Albufeira. Quase que eu continuava até Loulé – estava tranquilo no meu mundo à espera que os passageiros saíssem, na certeza de ser Albufeira a estação terminal. Como ninguém se mexia à minha volta, apercebo-me, qual insight, que continuaria até santa c… de assobio se não saísse de imediato. Saltei do assento, pedindo licença à rapariga do lado para sair, vou de encontro à Sofia e juntos seguimos, como combinado, até à Riviera, para a sobremesa em jeitos de ceia. Saborosa, mas cansada àquela hora do meu corpo amassado.

O resto do dia 11 de Setembro de 2025 tem pouca história.

Guia, 12 de Setembro de 2025



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