Interrompi as férias para uma saltada à capital, a
carreira da Rede Expressos quase vazia na tarde do dia anterior, o ar
condicionado em modo congelador e a descoberta de que afinal consigo ler no
autocarro, A História do Novo Nome (A Amiga Genial – Segundo Volume).
O comboio para casa terminou na chegada solitária à
Rinchoa e antes mesmo de subir, parei no Rouxinol para um prego e um copo de
tinto, ou melhor, traga um jarrinho, jarro esse que marchou quase todo,
o torpor a apoderar-se do corpo amassado da viagem, a doce sonolência na qual
tudo se perde, tudo perde o pé, o ruído, a importância. Subi ao terceiro, chave
na porta e a casa silenciosa, nem Sofia nem gatos – deixar as portas abertas
sem a preocupação de o Joaquim virar uma qualquer prateleira ou bibelot – e
ler, continuar a ler no silêncio de um apartamento vazio, como se degustasse
uma iguaria pelo bem que me sabia, mas também pela raridade (sei-o bem demais
que este mesmo silêncio multiplicado por demasiados dias, semanas, meses, se
pode converter numa outra coisa, que umas vezes se parece com um abismo,
noutras com um porto de abrigo, e noutras ainda com uma paz deveras
gratificante).
Apago a luz depois de um feito – 76 páginas num dia – mas
a insónia irrompeu entranhas acima, qual galopante aparição do vómito sem
aviso, e uma volta, e outra, e os minutos a passarem para, mais de trinta
volvidos, acender a luz e ir até à sala ver o Governo Sombra. A TV não
falha nesta missão de apelar ao João Pestana. Já na cama, ainda puxei do livro
novamente (quando volto para a cama, o sono abranda sempre um pouco), mas as 4
páginas adicionais serviram somente para arredondar a leitura do dia.
Dia seguinte: acordar cedo, apanhar o comboio para Lisboa
e, ao sair na estação do Rossio, ter como primeira missão descobrir um lugar na
Avenida passível de tomar o pequeno-almoço sem baixar as calças e pedir um
empréstimo. Parei num tasco à entrada dos Restauradores, não ao preço que
queria, mas serviu o propósito.
Entro na leitura com a praça em frente, os carros a
passar e os turistas a cruzarem a calçada numa passagem de modelos parecidos
uns com os outros, mal amanhados na sua indiferença de observadores através da
lente dos smartphones, e constato que tanto gosto de ler no meio da
tranquilidade silenciosa do campo ou do sul, como numa esplanada apinhada de
tilintares e fumos de escapes. Assim como assim, é num mundo à parte onde me
movo enquanto leio; tudo o mais se afasta.
Dirijo-me à empresa, o meu novo trabalho, cerca de um
terço da Avenida percorrida, e surpreendo-me agradavelmente com a recepção, os
novos colegas e chefias, a sessão de boas vindas, o pequeno coffe break.
Reuni com a minha futura chefe – uma viagem a Paris planeada para a segunda
semana de trabalho – e a amistosa conversa de vinte minutos foi mais
enriquecedora (e tranquilizadora) do que eu levava na ideia. Gostei da
experiência. Só não levava na bagagem o programa do dia – sabia apenas da
apresentação às 9:30, da vontade da minha superior em reunir e do cocktail
pelas 17:00. Quando ela, pelas onze e meia da manhã me diz Vemo-nos às cinco
da tarde, percebi que teria meio dia pela frente.
Comecei a subir a Rua das Pretas, suportável apesar do
calor àquela hora tórrida, continuando pelo Telhal. Socorro-me do GPS para
encurtar a distância, e o algoritmo manda-me pela Calçada do Moinho de Vento.
Puta que pariu a calçada mais a colina, a capital e a galáxia. A alteração na
inclinação obrigou-me a acertar a passada: se até ali parava amiúde para
explorar um ou outro tasco, inteirando-me dos preços, do aspecto, etc… a partir
daquele momento caguei para o meio envolvente e só via a hora de chegar ao
jardim, lá no topo do Evereste alfacinha. Fiz cume em pouco tempo, menos
cansado do que o cenário ameaçava, e mergulhei na azáfama da hora de almoço na
Tasca do Peregrino: fiquei a saber que a quinta-feira é dia de cozido, que
existe menu de almoço, que saio dali bem servido, e que ainda tenho a oportunidade
para fazer uma caminhada higiénica.
Estou despachado antes da uma e retorno à avenida.
Procuro na net pelo São Jorge e vejo que está a decorrer o Motel X, o
festival de cinema de terror, evento a que nunca fui. No programa há um filme
às duas da tarde. Nem pensei duas vezes: arranco para o cinema, 5 minutos mais
acima, compro o bilhete para ver Redux Redux (não foi erro, o título do
filme repete mesmo a palavra) e toca de subir à varanda do primeiro andar para
uma limonada e quarenta e cinco minutos d’ A História do Novo Nome. Com Motel
X, constato, numa interrupção da leitura para olhar as árvores sob o sol do
meio do dia, o trânsito da Avenida e aquele saborear de ter o mundo inteiro à
minha volta num vórtice a trabalhar, numa acelaração alucinante enquanto eu me
oferecia aquela oportunidade, uma bebida e um livro e uma vista e um silêncio
interior… mas dizia eu que constato ser aquele o décimo festival a que fui (dos
que me lembro… do Fantasporto a San Sebastian, o Doc, o Indie, Cinema Francês,
Italiano, Kino, América Latina e LEFF), e que bom é ver um filme na sala grande
do São Jorge. E que bom é, ao escolher um filme quase por compatibilidade de
horário, receber de volta uma obra que, longe de precisar de me esforçar para
encontrar pontos positivos para justificar os cinco euros do bilhete, como
tantas vezes aconteceu nos festivais por onde passei (sem que isso os
desvalorize minimamente pois lembro-me sempre da frase que a Sónia uma vez me
disse, quando, depois de um filme no São Jorge, parámos num boteco na avenida
para jantarmos – Não é comparável com ver um filme em casa: ir ao Cinema é
também um acto social). Ir ao cinema é toda uma experiência – da sala ao
ecrã, do som à companhia (não aquela que vai connosco como aquela que partilha
connosco aquela obra, do que fazemos antes e depois… –, é tal a riqueza que
podemos acrescentar a um filme assim vivenciado (e a quase tudo na vida) que insisto,
aos quarenta e quatro, em continuar a alimentar o sonho. Como li um dia, Find
Comfort in Simple Things.
O resto do dia 11 de Setembro de 2025 tem pouca história:
para apanhar o autocarro em Sete Rios de volta às férias no Algarve, entro no
metro, a power bank de que necessitava para que o telemóvel aguantasse
uma reunião que iria fazer durante a viagem para baixo escorrega-me do colo
para se entalar entre o assento e a parede da carruagem. Não consigo enfiar os
dedos, tal a estreiteza do espaço, tento com a haste dos óculos, que se solta
das lentes, procuro no estojo de higiene, mas não tenho nada que ali caiba (um
pente dava jeito mas já antes de ficar careca não o usava). A ver a reunião por
um canudo saco do bolso traseiro das calças, numa acção desesperada, do bilhete
do filme, e começo a dobrá-lo em quatro ou cinco voltas, formando um charuto
achatado. O papel não tinha força… olho para a paragem – São Sebastião – e
perco trinta segundos preciosos sem encontrar Sete Rios no mapa das estações no
interior da carruagem para me lembrar que, no caso do metro, se chama Jardim
Zoológico – menos de duas estações para me dar por vencido, já a equacionar
alternativas, vou ao bar e peço para carregar o telemóvel quarenta e cinco
minutos (o tempo que teria) quando a divina providência me acode e o bilhete de
cinema espalmado sobre si mesmo solta qualquer coisa… a power bank! Mais
uns toques, para cima e para baixo, com jeitinho para soltar o bicho em vez de
o enterrar mais, e fez-se luz! Tive a reunião num autocarro às escuras (a luz
não funcionava), mas pouco importava.
O resto do dia 11 de Setembro de 2025 tem pouca história:
a Sofia esperava-me em Albufeira. Quase que eu continuava até Loulé – estava
tranquilo no meu mundo à espera que os passageiros saíssem, na certeza de ser
Albufeira a estação terminal. Como ninguém se mexia à minha volta, apercebo-me,
qual insight, que continuaria até santa c… de assobio se não saísse de
imediato. Saltei do assento, pedindo licença à rapariga do lado para sair, vou
de encontro à Sofia e juntos seguimos, como combinado, até à Riviera, para a
sobremesa em jeitos de ceia. Saborosa, mas cansada àquela hora do meu corpo
amassado.
O resto do dia 11 de Setembro de 2025 tem pouca história.
Guia, 12 de Setembro
de 2025




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